O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), decidiu mentir mais uma vez em outra sabatina. Tarcísio quer transformar a relação com o governo federal em uma das principais armas de sua campanha pela reeleição.
Em entrevista à Jovem Pan nesta quarta-feira (19), ele afirmou que a relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é “distante” e sustentou que São Paulo é tratado como adversário político.
O problema para Tarcísio é que os fatos não acompanham a narrativa. O Radar Brasileiro mostra mais uma vez que o governador de São Paulo continua mentindo para conseguir votos dos eleitores.
A fala do governador cria a impressão de que São Paulo estaria sendo abandonado por Brasília. Mas basta olhar para os recursos efetivamente mobilizados desde 2023 para encontrar uma realidade muito diferente.
O governo Lula autorizou R$ 30 bilhões em garantias para São Paulo desde o início do atual mandato presidencial, segundo dados apresentados pelo Ministério da Fazenda. No total, a União concedeu R$ 250 bilhões em garantias a estados e municípios desde 2023. O valor destinado a São Paulo, segundo a Fazenda, é superior à média histórica do Estado.
Mentiu Falso Tendencioso Enganoso Exagerado “Nossa vida aqui não foi fácil, faltou muito apoio do governo federal. É um relacionamento distante [com o governo Lula]. São Paulo não é abraçado pelo governo federal como outros estados são. Isso é fato. Eles nos consideram, nos olham, nos enxergam como adversários políticos. E a gente sempre tenta ter uma condução pragmática das coisas…”
Há obras, financiamentos e investimentos concretos. Ao contrário do que diz Tarcísio, São Paulo é ajudo sim pelo governo federal.
É por isso que a declaração de Tarcísio precisa ser confrontada: não é possível vender ao eleitor a imagem de um governo federal que “não ajuda” São Paulo quando os próprios números mostram bilhões de reais sendo destinados ao Estado.
Tarcísio também voltou a mentir em seguida sobre o que ele pensa da vacina.
Mentiu Enganoso [Vacinação] é importante agora numa época em que a gente volta a ver o sarampo. Então, é lógico que a gente tem uma identidade própria, mas um alinhamento forte com valores que para nós são os corretos…
Tarcísio reclama de Brasília, mas Brasília financiou R$ 10,65 bilhões em obras paulistas
Um dos exemplos mais contundentes está na mobilidade.
Em novembro de 2024, o BNDES assinou contratos que totalizaram R$ 10,65 bilhões para projetos em São Paulo.
O pacote incluiu:
- R$ 1,35 bilhão para o Rodoanel Norte;
- R$ 3,6 bilhões para a compra de 44 novos trens do Metrô;
- R$ 6,4 bilhões para o Trem InterCidades Eixo Norte;
- R$ 2,5 bilhões para 1.300 ônibus elétricos na capital.
Dos R$ 10,65 bilhões, R$ 8,15 bilhões estavam incluídos na carteira do Novo PAC. Os contratos foram assinados no Palácio do Planalto, com participação de Lula, do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e do próprio Tarcísio de Freitas.
Aqui está uma das maiores contradições do discurso do governador.
Tarcísio estava lá.
Ele participou do ato, assinou contratos e recebeu os financiamentos.
Agora, durante a campanha, tenta convencer o eleitor de que Brasília mantém São Paulo à distância.
É uma versão seletiva dos fatos.
O dinheiro federal está no metrô que Tarcísio apresenta como obra de seu governo

Outro ponto que merece ser destacado é o financiamento de R$ 3,6 bilhões para a compra de 44 trens destinados à expansão da Linha 2-Verde do Metrô.
O financiamento foi aprovado pelo BNDES dentro do Novo PAC. O projeto da Linha 2 tem investimentos totais muito superiores ao valor do financiamento, mas o crédito federal é parte fundamental da estrutura financeira da obra.
Ou seja: enquanto Tarcísio tenta construir politicamente a imagem de um governador que faz tudo sozinho, uma instituição financeira federal está colocando bilhões de reais em uma das principais obras de mobilidade do Estado.
É o tipo de informação que desaparece quando o governador sobe em um palanque para falar de uma suposta falta de apoio de Brasília.
O mesmo vale para o Trem InterCidades
O Trem InterCidades Eixo Norte, projeto apresentado pelo governo paulista como uma das grandes marcas de sua administração, também recebeu financiamento federal.
O BNDES aprovou R$ 6,4 bilhões para os aportes públicos no projeto que ligará São Paulo a Campinas. O financiamento foi enquadrado no Novo PAC.
Portanto, outra vez, a realidade é simples:
há dinheiro federal financiando uma obra que o governo Tarcísio usa politicamente como vitrine de sua gestão.
Não há problema algum em o governador reivindicar a execução do projeto. Mas é intelectualmente desonesto apagar da história quem ajudou a financiar a obra.
Na saúde, mais dinheiro federal para São Paulo

A história se repete na saúde.
Em maio de 2024, o Ministério da Saúde autorizou R$ 200,5 milhões para a construção de 69 novas Unidades Básicas de Saúde em 59 municípios paulistas, por meio do Novo PAC Saúde.
E aquele não foi um episódio isolado.
Em abril do mesmo ano, outras 81 UBSs foram autorizadas em São Paulo, com investimentos superiores a R$ 208 milhões.
Em setembro de 2025, o governo federal anunciou mais R$ 295,5 milhões para 88 novas unidades de saúde em 81 municípios paulistas, incluindo UBSs, CAPS e policlínicas.
Portanto, a população paulista recebeu recursos federais para ampliar a rede de atendimento.
Isso é ajuda.
Não é discurso.
Não é propaganda.
É dinheiro federal financiando equipamentos públicos em São Paulo.
E existe ainda o episódio dos R$ 5,45 bilhões
A tentativa de Tarcísio de transformar Brasília em inimiga de São Paulo fica ainda mais complicada quando se observa o episódio mais recente.
O governo paulista entrou no Supremo Tribunal Federal contra a União reclamando da demora na autorização de uma garantia federal para um empréstimo de R$ 5,45 bilhões junto ao Banco do Brasil.
Tarcísio e seus aliados passaram a explorar politicamente o episódio, insinuando que o governo Lula estaria segurando o dinheiro por razões eleitorais.
A Fazenda negou perseguição política e afirmou que o processo seguia os trâmites administrativos.
E então veio o fato que desmonta boa parte do discurso:
a garantia foi autorizada em 13 de agosto.
O governo federal liberou o aval para que São Paulo pudesse contratar os R$ 5,45 bilhões.
E há uma informação ainda mais importante.
Segundo a Fazenda, desde 2023 a União já havia concedido R$ 30 bilhões em garantias para São Paulo.
Ou seja: o governador passou a utilizar um episódio específico de demora administrativa como prova de uma suposta perseguição, enquanto o conjunto das operações realizadas durante o governo Lula aponta para outra direção.
Tarcísio sabe que Brasília ajuda — tanto que esteve ao lado de Lula para receber o dinheiro

Essa talvez seja a parte mais incômoda da história.
Tarcísio não está descobrindo agora como funciona a relação entre União e Estados.
Ele foi ministro da Infraestrutura.
Sabe perfeitamente que grandes projetos dependem de financiamento federal, garantias da União, bancos públicos, programas nacionais e articulação entre diferentes governos.
E, como governador, ele próprio participou de cerimônias em Brasília para assinar contratos bilionários com o governo federal.
Por isso, sua declaração na Jovem Pan não pode ser tratada apenas como uma reclamação administrativa.
Ela precisa ser entendida dentro do contexto eleitoral.
Tarcísio está tentando transformar uma relação federativa complexa em uma história simples: Lula contra São Paulo.
O problema é que os documentos e os valores não contam essa história.
A estratégia é conveniente: quando ajuda, é obra de Tarcísio; quando há problema, a culpa é de Lula

É aí que está o ponto mais forte da crítica ao governador.
Quando o dinheiro chega, Tarcísio aparece para inaugurar, anunciar e reivindicar a obra.
Quando o financiamento é aprovado, vira resultado da gestão estadual.
Quando o projeto avança, o governo paulista coloca sua marca.
Mas, quando existe uma demora, uma exigência burocrática ou uma divergência, Brasília imediatamente vira o inimigo.
É uma narrativa eleitoral extremamente conveniente.
Tarcísio não precisa dizer que Lula não fez absolutamente nada por São Paulo para atacar o presidente. Bastaria reconhecer os fatos e, depois, fazer sua crítica política.
Mas ele escolhe outro caminho.
Apresenta uma relação institucional que envolve bilhões de reais como se fosse uma guerra política em que São Paulo está sendo deliberadamente prejudicado.
Os números não autorizam essa conclusão.
A fala de Tarcísio é mais do que contraditória: ela manipula a percepção do eleitor
É preciso ser direto.
Tarcísio está vendendo uma versão dos fatos que não corresponde ao conjunto das evidências disponíveis.
Não se trata de negar que possa existir conflito entre o governador e o presidente.
Existe.
Não se trata de dizer que o governo federal não poderia investir mais em São Paulo.
Poderia.
Também não significa que toda demora administrativa seja justificável.
Não é.
O problema é transformar isso em uma afirmação muito maior: a de que o governo federal não ajuda São Paulo.
Essa afirmação é desmentida pelos próprios números do governo federal.
São Paulo recebeu R$ 30 bilhões em garantias desde 2023.
Recebeu R$ 10,65 bilhões em financiamentos do BNDES para grandes projetos de mobilidade.
Teve R$ 8,15 bilhões desse pacote incluídos no Novo PAC.
Recebeu centenas de milhões para ampliar a rede de saúde.
E, quando Tarcísio levou ao STF a reclamação sobre o empréstimo de R$ 5,45 bilhões, a União acabou liberando a garantia.
O governador quer transformar Lula em vilão porque precisa de um adversário
A explicação política é simples.
Tarcísio está em campanha.
E sua candidatura precisa construir uma identidade.
O governador tenta se apresentar simultaneamente como gestor eficiente de São Paulo e como representante de uma oposição nacional ao governo Lula.
Para isso, Brasília precisa ser transformada em antagonista.
Só que existe um problema nessa estratégia:
São Paulo não é uma ilha.
O Estado depende de políticas federais, do SUS, do BNDES, de garantias da União, de financiamentos públicos, de programas nacionais e de investimentos federais.
E Tarcísio sabe disso.
Por isso, a crítica mais contundente à fala do governador não é partidária.
É factual.
Ele não pode apagar os bilhões que recebeu e, ao mesmo tempo, dizer ao eleitor que Brasília não ajuda São Paulo.
Pode atacar Lula.
Pode pedir mais dinheiro.
Pode discordar das prioridades do governo federal.
Mas não pode transformar uma relação de parceria, financiamento e negociação em uma história de abandono simplesmente porque está em campanha.
A conta não fecha
Tarcísio diz que Lula é distante.
Os contratos mostram Lula e Tarcísio juntos em Brasília.
Tarcísio diz que São Paulo não é ajudado.
Os dados mostram R$ 30 bilhões em garantias federais desde 2023.
Tarcísio reclama de falta de investimentos.
O BNDES colocou R$ 10,65 bilhões em projetos paulistas.
Tarcísio acusa Brasília de dificultar o empréstimo de R$ 5,45 bilhões.
A União autorizou a garantia.
Tarcísio tenta apresentar São Paulo como vítima.
Os documentos mostram bilhões de reais federais chegando ao Estado.
É por isso que a fala do governador não é apenas contraditória. Ela é uma tentativa de reescrever, em plena campanha eleitoral, uma realidade que está registrada em contratos, atos oficiais e números públicos.
E há uma pergunta que Tarcísio precisa responder ao eleitor paulista:
se o governo Lula realmente “não ajuda São Paulo”, por que seu próprio governo assinou, recebeu e utiliza bilhões de reais financiados ou garantidos pela União?
Os números estão aí.
E, diante deles, a narrativa de abandono de São Paulo simplesmente não para de pé.