O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atribuiu nesta quarta-feira (19) o aumento das reclamações contra a Sabesp após a privatização da companhia à substituição dos hidrômetros.
Em sabatina da Jovem Pan News, Tarcísio afirmou que o problema estaria relacionado principalmente à troca dos medidores e disse que, após ajustes realizados pela empresa, o número de queixas estaria diminuindo.
Mentiu Falso Tendencioso Enganoso Exagerado “O que aconteceu, do ponto de vista das reclamações na largada, está muito relacionado às trocas dos medidores”, afirmou o governador.
A explicação, porém, não corresponde ao conjunto dos dados disponíveis da própria agência reguladora paulista.
Os registros da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) mostram que a explosão das reclamações não se resume a problemas de leitura de hidrômetros. Pelo contrário: entre os principais motivos das queixas estão faturamento, aumento da conta, cobrança e descontinuidade no abastecimento de água.
Os números oficiais contradizem a narrativa
Verdadeiro O relatório anual de 2025 da Arsesp mostra que a Sabesp recebeu 12.498 reclamações, contra 5.774 em 2024. O aumento foi de 116,45% em apenas um ano.
E o dado mais importante está na natureza dessas reclamações.
Verdadeiro Das 12.498 manifestações registradas em 2025, 2.836 foram relacionadas a faturamento e aumento da conta, o equivalente a 22,7% do total. Outras 1.656 reclamações foram sobre cobrança, enquanto 1.597 tratavam de descontinuidade no abastecimento de água.
Ou seja: há, sim, reclamações relacionadas à medição e às contas. Mas transformar toda a explosão de queixas em consequência da troca de hidrômetros cria uma explicação muito mais abrangente do que os próprios dados oficiais permitem sustentar.
Se o problema fosse essencialmente uma adaptação aos novos medidores, seria necessário explicar por que uma parcela tão relevante das reclamações está relacionada também à falta de água, interrupções no abastecimento, religação, corte e cobrança.
Verdadeiro O próprio relatório da Arsesp registra que, entre os principais motivos de reclamação, aparecem ainda 715 casos de religação de água, 529 de corte ou suspensão do fornecimento e 507 relacionados a obstrução ou refluxo de esgoto.
A explosão começou depois da privatização

Os números também colocam em perspectiva a tentativa de tratar o problema como uma ocorrência pontual da transição operacional.
Verdadeiro Levantamento com dados do Procon-SP mostrou que as reclamações contra a Sabesp passaram de cerca de 11,2 mil em 2024 para mais de 25,2 mil em 2025, primeiro ano completo após a privatização.
Verdadeiro Nos primeiros três meses de 2026, foram aproximadamente 8,8 mil reclamações, contra 4,3 mil no mesmo período de 2025 — alta de 102,5%.
No Procon-SP, a Sabesp também apareceu entre as empresas com maior número de reclamações. No cadastro de reclamações fundamentadas de 2024, foram 2.023 casos, com índice de resolutividade de apenas 24,5%. O próprio Procon apontou que grande parte das demandas estava relacionada a cobranças incompatíveis com o perfil de utilização dos consumidores.
Portanto, existe uma diferença importante entre dizer que a troca de hidrômetros pode ter contribuído para parte dos problemas de faturamento e afirmar que ela explica a explosão das reclamações contra a companhia.
Os dados disponíveis não permitem reduzir o fenômeno a uma única causa.
E a falta d’água?
Esse é um dos pontos que a explicação do governador deixa sem resposta.
A Arsesp registrou 1.597 reclamações sobre descontinuidade no abastecimento em 2025. Esse tipo de problema não pode ser explicado simplesmente por uma troca de medidor, porque diz respeito à própria continuidade do serviço de fornecimento de água.
Levantamentos divulgados em 2026 com base nos dados da Arsesp apontaram que a média mensal de reclamações passou de 1.041 para 1.770, crescimento de aproximadamente 70%, considerando a comparação apresentada para 2026. O levantamento também apontou crescimento expressivo das queixas relacionadas à interrupção do abastecimento.
Isso muda completamente a discussão.
Uma conta que aumenta por causa de uma medição supostamente mais precisa é uma questão de faturamento. Uma casa ficar sem água é outra coisa.
São problemas diferentes e precisam ser analisados separadamente.
Até o governo admite que as reclamações cresceram — mas muda a explicação
A própria secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, apresentou anteriormente outra justificativa para o aumento das reclamações.
Segundo ela, o crescimento estaria relacionado ao aumento do ritmo de obras da Sabesp. A secretária afirmou que a companhia passou de investimentos anuais na faixa de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões para mais de R$ 15 bilhões em 2025, além de incorporar cerca de 2 milhões de pessoas ao sistema de abastecimento.
Agora, Tarcísio apresenta outra explicação: os hidrômetros.
As duas justificativas podem até coexistir como fatores que contribuíram para determinados problemas. O que os números não sustentam é a ideia de que a explosão das reclamações possa ser tratada como consequência simples e praticamente exclusiva da troca dos medidores.
O problema não está apenas na conta
O relatório da Arsesp é particularmente importante porque não se baseia em percepção política ou em opinião de adversários do governo. Trata-se do relatório do órgão regulador responsável pelo acompanhamento do atendimento aos usuários do saneamento.
E ele mostra uma deterioração que envolve diferentes dimensões do serviço.
Em 2025, as reclamações da Sabesp mais que dobraram em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, os principais problemas registrados envolveram faturamento, cobrança e descontinuidade do abastecimento.
A discussão, portanto, não deveria ser sobre encontrar uma justificativa única para o aumento das queixas. Deveria ser sobre por que tantos consumidores passaram a procurar órgãos reguladores e de defesa do consumidor depois da privatização.
A população não reclama de hidrômetro. Reclama do serviço
Esse é o ponto central que a narrativa do governador acaba deixando de lado.
O consumidor não procura a Arsesp porque simplesmente trocaram o equipamento instalado na calçada. Ele reclama quando recebe uma conta que considera incompatível, quando não consegue resolver uma cobrança, quando fica sem água, quando precisa de religação ou quando o fornecimento é interrompido.
Os próprios dados da agência reguladora mostram isso.
Além das 2.836 reclamações de faturamento e das 1.656 relacionadas a cobrança, houve 1.597 registros sobre descontinuidade do abastecimento.
A troca do hidrômetro pode explicar uma parte do problema. Não explica, sozinha, esse conjunto de números.
Análise da notícia e o que precisa ser explicado
Se a troca dos hidrômetros foi a principal causa da explosão das reclamações, como explicar o aumento de 116,45% nas reclamações registradas pela Arsesp em 2025 e a presença de milhares de queixas relacionadas a falta d’água, cobrança, religação e suspensão do fornecimento?
A resposta não está em uma narrativa política, mas nos números.
E os números mostram que existe um problema mais amplo na relação entre a Sabesp e seus consumidores.
A companhia foi privatizada sob o argumento de que a mudança de controle permitiria acelerar investimentos, ampliar o atendimento e melhorar a prestação do serviço. Por isso, quando os registros de reclamações aumentam de maneira tão expressiva, a discussão não pode ser encerrada com a explicação de que os consumidores apenas tiveram de se adaptar a novos hidrômetros.
Água não é apenas uma leitura no relógio. É um serviço essencial. E, quando milhares de consumidores reclamam de cobrança, faturamento e, principalmente, da própria falta de água, o problema precisa ser tratado como problema de serviço — e não simplesmente como problema de medidor.
Os dados oficiais da Arsesp estão disponíveis publicamente e incluem relatórios anuais e mensais de atendimento aos usuários do saneamento.
Esta reportagem não apresenta uma avaliação eleitoral ou recomendação sobre candidatos. As informações acima confrontam declarações públicas com dados de órgãos reguladores e de defesa do consumidor, para contextualizar a afirmação de Tarcísio de Freitas.