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Bombril, Polishop, Americanas, Casas Bahia, Petrópolis: Quando a má gestão vira discurso político

Brasil

Americanas, Casas Bahia, Tok&Stok, Petrópolis, Estrela, Polishop, Bombril, Casa do Pão de Queijo e AgroGalaxy chegaram à recuperação judicial por razões muito diferentes — e, em vários casos, há problemas de gestão, endividamento, decisões empresariais arriscadas e até investigações sobre possíveis fraudes.

Há uma tentativa conveniente e eleitoreira de transformar cada pedido de recuperação judicial de uma grande empresa brasileira em prova de que “a economia está quebrada” ou de que o governo federal é responsável pela crise. A realidade é bem mais incômoda — principalmente para os próprios grupos empresariais.

O Radar Brasileiro mostra agora como essa informação que circula em época eleitoral é fantasiosa, maldosa, eleitoreira e tendenciosa para enganar a opinião pública. Os selos de verificação acima mostram como essas empresas manipulam a informação em ano de eleição.

Recuperação judicial não é atestado de culpa de governo. É um mecanismo criado justamente para empresas que não conseguem mais honrar suas dívidas reorganizarem suas operações e tentarem evitar a falência.

E os casos recentes mostram que não existe uma causa única. Há empresas atingidas por juros elevados e crédito restrito, sim. Só que isso, por sua maioria, por estudos e investimentos arriscados, sabendo dos riscos.

Mas também existem companhias que acumularam dívidas, fizeram expansões agressivas sem previsões de futuro, perderam competitividade, demoraram a mudar seus modelos de negócio e, em alguns casos, passaram a ser investigadas por suspeitas de irregularidades.

Só no primeiro semestre de 2026, o país registrou mais de 6.300 pedidos de recuperação judicial. Os dados são da Junta Comercial. O cenário é complexo e inclui varejo, indústria, agronegócio e serviços.

O problema, portanto, é muito maior do que escolher um culpado político.

AMERICANAS: O CASO QUE DERRUBA A TESE DE QUE “FOI O GOVERNO”

Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, que são os principais acionistas da Americanas

Se existe um caso que desmonta de maneira contundente a tentativa de jogar toda a responsabilidade no governo federal, é o da Americanas.

A empresa entrou em recuperação judicial depois da revelação, em 2023, de uma fraude contábil bilionária. As investigações apontaram manipulações nos balanços da companhia, com um rombo estimado em dezenas de bilhões de reais.

 A Polícia Federal deflagrou a Operação Disclosure para investigar a participação de ex-diretores da empresa em um esquema de fraudes contábeis. A apuração estimou prejuízo de aproximadamente R$ 25,3 bilhões.

Ou seja: atribuir a recuperação judicial da Americanas simplesmente ao governo é ignorar o fato central da história.

Antes de discutir juros, consumo ou política econômica, existe uma questão básica: como uma companhia chegou a apresentar números financeiros que não correspondiam à realidade?

A resposta está sendo investigada pelas autoridades. Caso clássico de corrupção envolvendo os sócios os bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira (Beto Sicupira), sócios da gestora 3G Capital, que controlam a empresa desde o início dos anos 1980.

ANTES DA FALÊNCIA, DONO DA AMERICANAS COMPROU O HELICÓPTERO MAIS CARO DO MUNDO

Helicóptero ACH160, da Airbus

Em julho de 2022, cerca de seis meses antes de a Americanas pedir recuperação judicial, chegou ao Brasil o Airbus ACH160, um helicóptero de luxo pertencente a Carlos Alberto “Beto” Sicupira. A aeronave foi transportada da Europa para o Brasil dentro de um avião cargueiro Airbus Beluga.

Valor estimado: US$ 19,5 milhões, aproximadamente R$ 100 milhões na cotação atual.

  • Proprietário: a aeronave foi registrada em nome da Ocean Explorer do Brasil, empresa ligada a Sicupira;
  • Chegada ao Brasil: julho de 2022;
  • Primeiro exemplar do ACH160 entregue no mundo: foi o helicóptero destinado ao cliente brasileiro;

CASAS BAHIA: DÍVIDA DE R$ 17,3 BILHÕES, CONDUTA DE DIRETORES E INVESTIGAÇÃO DA PF

A situação das Casas Bahia é ainda mais recente e semelhante. Plantou a informação no mercado que o governo seria culpado. Mas a história é muito diferente. Além de modelos de negócios suspeitos, diretores, CEO e gerentes são suspeitos de inflar resultados para que dividendos e comissões fossem pagas sem ao menos baterem as metas.

A empresa entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de registrar um prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. A companhia também anunciou o fechamento de 298 lojas.

É verdade que a empresa aponta juros altos, restrição de crédito e aumento dos custos como fatores de sua deterioração financeira. E seria intelectualmente desonesto fingir que o ambiente macroeconômico não interfere nas empresas. Esse cenário se não for secundário ou terciário, é um dos últimos casos a serem analisados.

Mas há outro elemento que não pode ser simplesmente apagado da história.

A Polícia Federal investiga uma suspeita de manipulação de dados nos sistemas internos da companhia. A apuração busca descobrir se juros de vendas parceladas teriam sido excluídos dos números utilizados para calcular metas e bônus de gerentes. A empresa afirma que não foi formalmente comunicada de investigação e nega irregularidades.

Portanto, não é correto afirmar que houve corrupção ou fraude comprovada nas Casas Bahia. Há uma investigação em andamento. E isso precisa ser tratado como investigação, não como condenação.

Mas também não é aceitável utilizar a recuperação judicial da empresa como argumento automático contra o governo sem mencionar os problemas internos que estão sendo apurados.

TOK&STOK: EXPANSÃO, ENDIVIDAMENTO E CRÉDITO MAIS CARO

Dona da Tok & Stok Ghislaine Dubrule assume novamente a operação como CEO

O caso da Tok&Stok também não pode ser resumido a uma suposta incompetência do governo.

A companhia controladora, o Grupo Toky, que reúne Tok&Stok e Mobly, entrou em recuperação judicial em 2026 depois de acumular dívida superior a R$ 1 bilhão. Essa dívida antes que comecem a criticar o governo Lula, começou a estourar quando o presidente Bolsonaro havia tomado posse.

A própria empresa apontou juros elevados, endividamento das famílias, crédito mais restritivo e queda da confiança do consumidor como fatores importantes para a crise. Também houve problemas de liquidez e estoque.

Fundadores Ghislaine e Régis Dubrule

Mas há uma questão empresarial evidente: um modelo baseado em expansão, lojas físicas, estoque e financiamento precisa sobreviver justamente quando o dinheiro fica mais caro.

Quando a estratégia deixa de funcionar, a conta chega.

GRUPO PETRÓPOLIS: R$ 4,2 BILHÕES EM DÍVIDAS

Dona de marcas como Itaipava, a Cervejaria Petrópolis entrou em recuperação judicial em 2023 com uma dívida estimada em R$ 4,2 bilhões.

A crise financeira do Grupo Petrópolis começou e se agravou durante o governo Jair Bolsonaro (2019–2022), embora seja incorreto atribuir toda a crise exclusivamente ao governo. As operações feitas pelo grupo foram arriscadas.

No pedido, a companhia apontou queda de 23% no volume de bebidas comercializadas em relação a 2020 e o impacto do aumento da Selic sobre o custo da dívida. Cerca de R$ 2 bilhões eram devidos ao mercado financeiro.

Aqui novamente existe influência do ambiente econômico, especialmente sobre o custo do crédito.

A administração é responsável pelas decisões de financiamento, expansão, investimentos, estratégia comercial e gerenciamento de riscos.

ESTRELA: UMA EMPRESA QUE PERDEU ESPAÇO PARA A CONCORRÊNCIA

Carlos Tilkian, presidente da Estrela

A tradicional fabricante de brinquedos Estrela também entrou em recuperação judicial.

A companhia apresentou um plano para reestruturar uma dívida de R$ 109,2 milhões. Entre os fatores apontados estão décadas de dificuldades, concorrência de produtos asiáticos, mudanças no comportamento das crianças, avanço do comércio eletrônico e juros elevados.

É um exemplo clássico de uma empresa que enfrentou uma transformação estrutural do mercado.

A concorrência mudou.

O consumidor mudou.

A tecnologia mudou.

O comércio mudou.

E empresas que não conseguem acompanhar essas transformações perdem mercado.

Não é razoável transformar automaticamente esse processo em responsabilidade do governo federal. Aliás, não dá nem pra culpar o governo. A Estrela parou no tempo e a concorrência conseguiu atrair o público infantil de outra forma.

POLISHOP: UM MODELO DE NEGÓCIO QUE ENTROU EM COLAPSO

João Appolinário, fundador da Polishop, em seu escritório na zona sul de São Paulo – Leo Martins/Seu Dinheiro

A Polishop entrou em recuperação judicial em 2024 declarando aproximadamente R$ 352 milhões em dívidas. A crise envolveu fatores como endividamento, queda das vendas, mudanças no mercado de varejo e dificuldades financeiras.

Em 26 de março de 2026, o Ministério Público de São Paulo deflagrou a Operação Fisco Paralelo, investigando um suposto esquema de corrupção dentro da Secretaria da Fazenda estadual.

A investigação aponta que fiscais teriam manipulado procedimentos relacionados a ressarcimentos de ICMS-ST e créditos acumulados de ICMS, com suspeita de pagamento de propinas e lavagem de dinheiro.

A empresa vinha enfrentando uma deterioração financeira importante, especialmente após a pandemia, com dificuldades para manter lojas físicas e arcar com despesas de ocupação em shopping centers.

O problema é que o modelo que funcionou durante anos — baseado em lojas, televisão, produtos diferenciados e forte presença física — passou a enfrentar uma concorrência brutal do comércio eletrônico e uma mudança no comportamento do consumidor.

Não foi uma canetada do governo que criou a Amazon, o Mercado Livre, as plataformas chinesas ou a transformação do consumo digital.

Foi uma mudança de mercado.

BOMBRIL: R$ 2,3 BILHÕES EM DÍVIDAS

A Bombril entrou em recuperação judicial em 2025 com aproximadamente R$ 2,3 bilhões em dívidas. A Bombril, foi fundada por Roberto Sampaio Ferreira. 

Dono da Bombril, Roberto Sampaio Ferreira

E aqui aparece novamente um elemento que costuma desaparecer dos discursos políticos: problemas de gestão.

A própria documentação relacionada à crise da companhia registrou acusações de atos de má gestão por administrações anteriores, inclusive envolvendo transações financeiras no exterior.

Isso não significa que toda a dívida da Bombril tenha sido causada por fraude ou que todos os administradores tenham cometido crimes. Não é isso que os fatos permitem afirmar.

Mas também é intelectualmente desonesto contar a história como se a empresa simplesmente tivesse acordado um dia e descoberto que o governo havia quebrado seu negócio.

 

A crise da Bombril tem uma origem que remonta aos anos 1990, quando o grupo italiano Cragnotti & Partners, ligado ao empresário Sérgio Cragnotti, assumiu o controle da companhia.

Sergio Cragnotti responsável por quebrar a Bombril

A própria Bombril afirmou no processo de recuperação judicial que a origem da crise financeira está nos atos de má gestão praticados pelas administrações indicadas pelo grupo italiano.

CASA DO PÃO DE QUEIJO: DÍVIDAS, PANDEMIA E PROBLEMAS NOS AEROPORTOS

Alberto Carneiro Neto é herdeiro do fundador Mário Carneiro

A Casa do Pão de Queijo pediu recuperação judicial em 2024. A empresa pediu recuperação judicial em junho de 2024, com dívidas inicialmente estimadas em cerca de R$ 57,5 milhões.

A companhia tinha dívida total estimada em aproximadamente R$ 110 milhões, dos quais R$ 57,5 milhões estavam incluídos no processo de recuperação.

A empresa chegou a atrasar contas básicas e apontou entre os fatores da crise os efeitos da pandemia e as dificuldades enfrentadas pelas unidades instaladas em aeroportos.

É outro exemplo em que existe uma combinação de fatores.

A pandemia atingiu duramente o setor.

O fluxo de passageiros caiu.

O consumo mudou.

O Pão de Queijo não era feito de queijo. Era feito por sobra de queijo e mistura de coalhada.

E o endividamento acumulado virou um problema.

Colocar tudo isso na conta do governo federal é simplificar uma crise empresarial complexa.

AGROGALAXY: CRESCIMENTO, AQUISIÇÕES E ENDIVIDAMENTO

Eron Martins, novo Ceo AgroGalaxy

No agronegócio, a AgroGalaxy é um dos exemplos mais claros de como uma estratégia de crescimento acelerado pode aumentar o risco financeiro.

Novos diretores da AgroGalaxy

A companhia realizou diversas aquisições nos anos anteriores, financiando parte delas com recursos próprios e parte com dívida. Em setembro de 2024, a dívida bruta ajustada chegou a aproximadamente R$ 2,2 bilhões, enquanto o EBITDA vinha negativo.

O pedido de recuperação judicial foi apresentado em setembro de 2024 diante de dívidas que chegaram a aproximadamente R$ 4,6 bilhões.

Aqui está a lição que muitas narrativas políticas convenientemente escondem:

crescer também custa dinheiro.

Comprar empresas, aumentar operações, ampliar presença no mercado e assumir novas dívidas pode gerar crescimento — mas também pode destruir uma companhia quando as receitas não acompanham o endividamento.

O QUE TODOS ESSES CASOS TÊM EM COMUM?

Quase nada.

E justamente por isso é tão frágil tentar colocar todos eles dentro da mesma explicação política.

Americanas teve um escândalo de fraude contábil.

Casas Bahia enfrenta forte endividamento, prejuízos, problemas operacionais e uma investigação da PF sobre possível manipulação de dados para cálculo de bônus.

Tok&Stok sofreu com endividamento, crédito restrito, mudanças no consumo e problemas de liquidez.

Petrópolis acumulou bilhões em dívidas e sofreu com queda de vendas e encarecimento do crédito.

Estrela perdeu competitividade diante de concorrentes estrangeiros e das mudanças no mercado.

Polishop sofreu com a transformação do varejo e um modelo de negócio pressionado.

Bombril chegou à recuperação judicial carregando bilhões em dívidas e histórico de problemas de gestão.

Casa do Pão de Queijo foi atingida por pandemia, queda de movimento e problemas financeiros.

AgroGalaxy apostou em crescimento e aquisições financiadas em parte por dívida e acabou diante de uma estrutura financeira insustentável.

Há uma palavra que aparece repetidamente nessa lista: gestão.

JUROS IMPORTAM — MAS NÃO EXPLICAM TUDO

É importante não cair no extremo oposto.

Os juros brasileiros são relevantes para empresas altamente endividadas. A Selic encarece financiamentos, aumenta o custo da dívida e pode reduzir o consumo. O ambiente econômico, portanto, influencia diretamente a capacidade de uma empresa sobreviver.

Mas influência não significa responsabilidade exclusiva.

Uma empresa privada que toma bilhões em empréstimos, compra concorrentes, abre centenas de lojas, mantém uma estrutura pesada, perde mercado, não consegue adaptar seu modelo de negócios ou apresenta problemas de governança não pode simplesmente transferir a conta para Brasília.

O próprio cenário de 2026 mostra que o fenômeno não está restrito a empresas ideologicamente classificadas como “vítimas” de determinado governo. O problema atravessa setores e modelos empresariais diferentes.

A RECUPERAÇÃO JUDICIAL NÃO É UMA CONFISSÃO DE QUE “O BRASIL QUEBROU”

Esse é o ponto central.

Uma empresa entrar em recuperação judicial significa que ela chegou a uma situação em que precisa reorganizar suas dívidas e operações para tentar continuar funcionando.

Não significa, automaticamente:

  • que o governo causou sua crise;
  • que a economia nacional está quebrada;
  • que houve recessão provocada pelo governo;
  • que todos os problemas decorreram de juros;
  • ou que empresários são vítimas de uma política econômica.

Em alguns casos, há claramente problemas de mercado.

Em outros, há decisões empresariais questionáveis.

Em outros, há endividamento excessivo.

Em outros, há falhas de governança.

E, em casos gravíssimos como o da Americanas, existem investigações sobre fraudes contábeis bilionárias.

O DEBATE SÉRIO EXIGE RESPONSABILIDADE

É legítimo cobrar do governo políticas de juros, crédito, tributação, consumo e crescimento econômico.

O que não é sério é pegar uma lista de empresas em recuperação judicial e apresentar todas como vítimas de Brasília.

A pergunta correta não é simplesmente “qual governo quebrou essas empresas?”

É:

quem administrou essas empresas, quais decisões foram tomadas, quanto foi tomado de dívida, quais investimentos foram feitos, quais riscos foram assumidos, quais mudanças de mercado foram ignoradas e, sobretudo, houve ou não irregularidades?

Em vários desses casos, essas perguntas são muito mais incômodas do que apontar o dedo para o Palácio do Planalto.

E é exatamente por isso que precisam ser feitas.

Antes de colocar a culpa no governo federal, é preciso olhar para dentro da empresa.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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