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Tarcísio leva lógica de quartel para as escolas e vê dirigente citar Hitler como “líder excepcional”

Política

O episódio também levanta questionamentos sobre a linguagem e os métodos que vêm sendo incorporados à educação paulista durante a gestão Tarcísio de Freitas. O governo tem ampliado modelos que apostam em uma lógica mais rígida de disciplina e hierarquia, como as escolas cívico-militares, nas quais termos e referências ligados à formação militar passam a ocupar espaço no ambiente escolar.

Foto: Douglas Gomes / Lid Republicanos / Reprodução

Uma dirigente da Secretaria da Educação do governo Tarcísio de Freitas foi afastada da função depois de recomendar, durante uma reunião com diretores de escolas estaduais, a leitura de biografias de Adolf Hitler e Benito Mussolini como referências para discutir liderança.

Roselaine Batalha Silva ocupava a direção da Unidade Regional de Ensino de Mogi das Cruzes, responsável por dezenas de escolas da rede estadual.

As declarações foram feitas em uma reunião virtual realizada em 12 de agosto. O conteúdo do encontro acabou registrado em vídeo e divulgado posteriormente, provocando reação de entidades ligadas à educação e levando a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo a determinar a saída de Roselaine da função.

Durante a reunião, ao falar sobre liderança, Roselaine afirmou que seria estimulante conhecer biografias de pessoas consideradas “más” e citou explicitamente Hitler, Mussolini e António de Oliveira Salazar.

“No geral é estimulante ler biografia mesmo dos maus. Salazar na Espanha, Mussolini na Itália, Hitler e o ‘Mein Kampf!’”

Na sequência, a dirigente fez uma avaliação positiva da capacidade de liderança de Hitler, apesar dos crimes cometidos pelo regime nazista.

“O ‘Mein Kampf’, ‘Minha Vida’ de Hitler, é tão estimulante que, se eu tirar o nome, ele consegue convencer países e jovens e nós até hoje.”

Roselaine continuou a argumentação dizendo que a liderança de Hitler não poderia ser negada.

“Ele era um líder excepcional e ninguém pode negar! Mas não foi dada uma coroa pra ele. Mas a quem foi dada a responsabilidade de sobressair o melhor que há nos outros.”

As falas causaram reação imediata. O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) apresentou uma representação ao Ministério Público de São Paulo pedindo providências contra a dirigente. O caso foi encaminhado nesta quarta-feira (26) à Promotoria de Justiça da área de Educação de Mogi das Cruzes.

A fala ocorreu durante uma reunião virtual com diretores de escolas de Mogi das Cruzes (SP), em 12 de agosto.

Secretaria de Tarcísio afasta dirigente

Ao ser informada a Secretaria de Educação chegou a dizer que isso “jamais havia acontecido”. Após a repercussão, a Secretaria da Educação determinou a “cessação da função” exercida por Roselaine e informou que abriu uma apuração para analisar as circunstâncias das declarações.

Em nota, a pasta procurou se desvincular das falas da dirigente.

“A Seduc-SP reforça que não compactua com manifestações que contrariem os princípios e valores que orientam a educação pública do Estado de São Paulo e que a declaração não representa, em hipótese alguma, o posicionamento da pasta.”

A secretaria também informou que foi instaurada uma apuração interna para verificar os fatos.

O afastamento ocorreu depois que as declarações passaram a circular publicamente e provocaram críticas à utilização de Hitler e Mussolini em uma discussão sobre liderança dirigida a profissionais responsáveis pela educação de estudantes da rede pública.

Caso chega ao Ministério Público

O Ministério Público de São Paulo confirmou nesta quarta-feira que recebeu a representação apresentada pela Apeoesp. O procedimento foi distribuído à Promotoria de Justiça da área de Educação de Mogi das Cruzes, que deverá analisar os fatos e avaliar as providências cabíveis.

Segundo o órgão, serão investigadas as circunstâncias do episódio antes de qualquer conclusão sobre eventuais responsabilidades.

A investigação ocorre paralelamente à apuração administrativa determinada pela própria Secretaria da Educação.

Quem é Roselaine Batalha Silva

Roselaine ocupava a função de dirigente da Unidade Regional de Ensino de Mogi das Cruzes, estrutura da Secretaria da Educação responsável pela coordenação e acompanhamento das escolas estaduais da região. Segundo reportagens sobre o caso, a unidade reúne 62 escolas.

Antes de chegar à função de dirigente regional, Roselaine já integrava a estrutura da educação estadual. Registros oficiais mostram seu nome em atos administrativos da rede como supervisora de ensino.

Em publicação do Diário Oficial de São Paulo de novembro de 2023, por exemplo, Roselaine Batalha Silva aparece entre os supervisores designados para análise de solicitações relacionadas a instituições de ensino.

A trajetória dentro da estrutura da Secretaria da Educação faz com que o episódio tenha peso maior do que uma declaração isolada feita por uma servidora sem função de comando. Roselaine estava à frente de uma unidade regional e se dirigia justamente a profissionais que ocupam posições de direção em escolas públicas.

Hitler como referência de liderança

O ponto central da controvérsia não está apenas na menção histórica a Hitler ou Mussolini, mas na maneira como os personagens foram apresentados durante uma conversa sobre liderança.

Roselaine não se limitou a recomendar o estudo histórico dos regimes autoritários. Ela classificou as biografias como “estimulantes” e afirmou que Hitler teria sido um “líder excepcional”.

A frase provocou críticas porque Hitler comandou a Alemanha nazista, responsável pelo Holocausto e por uma política de perseguição, deportação e assassinato em massa de judeus e de outros grupos perseguidos pelo regime.

Mussolini, por sua vez, foi o principal líder do fascismo italiano e governou a Itália como ditador. Salazar comandou a ditadura portuguesa conhecida como Estado Novo.

A discussão sobre figuras históricas controversas pode fazer parte do ambiente educacional quando inserida em contexto crítico e histórico. O que provocou a reação neste caso foi a apresentação desses personagens como referências para pensar liderança, especialmente diante da expressão utilizada pela dirigente para definir Hitler.

Governo tenta conter repercussão

Com o afastamento, a gestão Tarcísio procurou deixar claro que as declarações não representam oficialmente a Secretaria da Educação.

A pasta, porém, terá agora de esclarecer internamente como ocorreu a reunião, qual era o objetivo do encontro, em que contexto as referências foram apresentadas e quais orientações foram dadas aos participantes.

O Ministério Público também deverá analisar o conteúdo completo da reunião e as circunstâncias em que as declarações foram feitas.

Até o momento, Roselaine Batalha Silva não apresentou publicamente uma manifestação sobre o afastamento ou sobre a investigação. Segundo o UOL, o espaço para sua defesa permanece aberto.

O episódio coloca novamente a Secretaria da Educação do governo Tarcísio no centro de uma crise provocada por uma integrante de sua estrutura de comando. Desta vez, a crise envolve a utilização de Adolf Hitler e Benito Mussolini como exemplos em uma conversa sobre liderança — e já ultrapassou os limites administrativos da pasta, chegando ao Ministério Público de São Paulo.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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