Quando o medo de fazer a pergunta que incomoda sucumbe ao dever de informar, o jornalismo deixa de cumprir sua principal função: confrontar o poder em nome do público.
Quatro jornalistas, três grandes veículos e uma lista enorme de perguntas que ficaram pelo caminho. Na sabatina conjunta de O Globo, Valor Econômico e CBN, realizada nesta quinta-feira (20), Tarcísio de Freitas teve espaço para defender sua gestão, atacar o governo Lula e repetir sua narrativa eleitoral — mas temas sensíveis, capazes de constranger politicamente o governador, ficaram sem o devido enfrentamento.
A sabatina de Tarcísio de Freitas deveria ser, por definição, um momento de cobrança. Afinal, não se tratava de uma entrevista promocional, mas de uma conversa com um governador em busca da reeleição, responsável pela administração do maior orçamento estadual do país e por decisões que afetam milhões de paulistas.
Mas o que se viu foi, em boa medida, o contrário: Tarcísio teve diante de si quatro jornalistas de veículos de enorme peso nacional, mas saiu sem precisar responder a algumas das perguntas mais incômodas que cercam seu governo e sua campanha.
E é justamente aí que está o problema.
A questão não é perguntar se os jornalistas deveriam ser “duros” com Tarcísio por preferência política. A obrigação jornalística é outra: confrontar o candidato com fatos, números, contradições e episódios relevantes que estejam no debate público.
E havia uma lista considerável.
Onde estava o Banco Master?
Uma das perguntas mais óbvias era sobre o caso Banco Master e sua conexão política com a campanha de Tarcísio.
Não é uma questão inventada por adversários. O próprio Tarcísio já falou publicamente sobre o escândalo e cobrou explicações de outros políticos. Em maio, por exemplo, o governador afirmou que Flávio Bolsonaro tinha “muitas questões” a explicar sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Master.
Então por que não perguntar ao próprio Tarcísio sobre sua relação com pessoas ligadas ao grupo?
Há um dado que merecia ser colocado diante do governador: Tarcísio recebeu R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, empresário e cunhado de Daniel Vorcaro, durante a campanha eleitoral. O vínculo foi registrado em levantamentos publicados ao longo do ano.
Isso não significa, por si só, ilegalidade ou irregularidade. Mas se tem suspeita de dinheiro sujo. E significa uma coisa muito simples: é uma pergunta jornalisticamente legítima.
Quem é Zettel? Qual era sua relação com Vorcaro? Por que decidiu financiar a campanha? Houve outros vínculos entre pessoas do grupo Master e o governo paulista? Algum negócio do Estado envolveu empresas ou pessoas relacionadas ao conglomerado?
Nenhuma dessas perguntas precisa pressupor culpa.
Precisam apenas ser feitas.
E Vorcaro?
O problema fica ainda maior porque o caso Master não é um assunto encerrado.
A investigação sobre Daniel Vorcaro continua produzindo fatos novos. Nesta quinta-feira, por exemplo, veio a público que investigadores avaliam retomar negociações de colaboração com o ex-banqueiro, condicionadas à apresentação de informações completas e à recuperação de ativos no exterior.
Ou seja: o assunto está vivo.
E uma sabatina eleitoral é precisamente o lugar para perguntar aos candidatos sobre relações políticas e financeiras que possam ter relevância para a administração pública.
Não se trata de acusar Tarcísio de qualquer crime. Trata-se de perguntar.
Os números da gestão também ficaram protegidos
Outro ponto que merecia confronto era a quantidade de afirmações de Tarcísio sobre a situação fiscal e econômica de São Paulo.
Em debate recente, a própria checagem da Folha mostrou que algumas afirmações do governador precisavam de correção ou contextualização. Um exemplo foi sua declaração de que Lula havia “vetado” o Propag. Na realidade, o presidente vetou artigos da lei, não o programa inteiro.
Esse tipo de situação exige uma postura simples do entrevistador:
“Governador, o senhor está dizendo isso, mas os dados mostram aquilo. Qual é a explicação?”
É assim que se testa uma narrativa política.
Não basta deixar o candidato apresentar sua versão e passar para a próxima pergunta.
A situação patrimonial e financeira do Estado
Também faltou uma cobrança mais profunda sobre a situação financeira de São Paulo e sobre os ativos públicos.
Tarcísio vendeu empresas, privatizou a Sabesp, avançou em concessões e defende a política de desestatização como uma das principais marcas de sua administração.
Tudo isso merece perguntas sobre quanto o Estado recebeu, quanto deixou de receber, quais ativos foram vendidos, qual foi o impacto sobre as receitas futuras e como estão as empresas públicas que permaneceram sob controle estadual.
Mais importante: diante de uma gestão que vende patrimônio público sob o argumento de melhorar as contas do Estado, é obrigação perguntar como está a dívida e a situação financeira depois dessas operações.
Não é suficiente deixar Tarcísio dizer que privatização é sinônimo de eficiência.
É preciso perguntar:
Quanto entrou? Quanto deixou de entrar? Quem comprou? Quanto o Estado deixou de arrecadar? Quais foram os compromissos assumidos? E qual é a situação financeira atual?
A Polícia de São Paulo também merecia uma sabatina de verdade
Outro assunto praticamente incontornável deveria ser a crise envolvendo a Polícia Militar paulista.
O nome do coronel José Augusto Coutinho, que comandou a PM durante parte do governo Tarcísio, apareceu em investigações relacionadas a policiais e organizações criminosas. As reportagens ressaltam que Coutinho não é investigado nem alvo da operação, e sua defesa afirma sua integridade.
Mas existe uma pergunta política legítima:
Qual era a relação de confiança entre Tarcísio e Coutinho? O que o governador sabia? Quando soube? O que fez? Por que Coutinho deixou o comando?
Segundo reportagem, Coutinho pediu demissão depois de conversar com Tarcísio, após o governador tomar conhecimento de informações levadas pelo promotor Lincoln Gakiya à Corregedoria da PM.
Isso é material de primeira linha para uma sabatina.
Não para condenar Coutinho.
Mas para cobrar explicações do governador sobre a escolha, a permanência e a saída de seu comandante-geral.
Segurança pública não pode ser apenas propaganda de números
Tarcísio gosta de apresentar a redução de determinados indicadores criminais como uma das principais vitrines de seu governo.
E há, de fato, números positivos. Em 2025, São Paulo registrou 161.310 roubos, queda de 16,7% em relação a 2024, segundo dados da SSP. Também houve redução em outros indicadores.
Mas uma sabatina séria deveria fazer o que o jornalismo profissional manda:
separar os dados verdadeiros da propaganda política.
O governador costuma citar que 173 municípios paulistas passaram 2025 sem registrar roubos. O dado, isoladamente, é verdadeiro segundo a SSP.
O problema é a maneira como esse número pode ser apresentado politicamente.
“Não registrou roubo” não significa “não teve crime”.
E isso deveria ter sido perguntado diretamente.
Que tipos de crimes foram registrados nesses municípios? Houve furtos? Violência doméstica? Estupros? Agressões? Homicídios? Crimes que não entram na estatística específica de roubo?
Uma cidade sem registro de roubo não é uma cidade sem criminalidade.
Essa distinção é fundamental.
E as mulheres?
A segurança pública também precisava passar pela situação das mulheres.
O próprio governador reconheceu recentemente que “as mulheres não se sentem seguras”. No primeiro semestre de 2026, São Paulo registrou 141 feminicídios, contra 128 no mesmo período de 2025.
Esse dado deveria ter produzido uma pergunta incômoda:
Como o governador pode apresentar sua política de segurança como um sucesso enquanto os feminicídios aumentam? E os estupros?
Também seria legítimo perguntar sobre a estrutura das Delegacias de Defesa da Mulher, o funcionamento das unidades e o atendimento fora do horário comercial.
O governo afirma que a rede especializada cresceu: são atualmente 144 DDMs e 220 Salas DDM, contra 140 delegacias e 62 salas em 2022.
Ótimo.
Então que se pergunte também quantas funcionam 24 horas, quantas tiveram atendimento alterado, como é a cobertura territorial e se a mulher consegue efetivamente registrar uma ocorrência quando mais precisa.
Isso é jornalismo.
O que incomoda é justamente o que não foi perguntado
A sabatina tinha todos os ingredientes para ser um momento de confronto democrático.
Tarcísio está em campanha.
Está defendendo seu legado.
Está tentando transformar resultados administrativos em discurso eleitoral.
Está atacando o governo federal.
Está falando sobre segurança.
Está falando sobre economia.
Está construindo uma imagem nacional.
E, justamente por isso, precisava ser questionado muito mais sobre São Paulo e muito menos deixado à vontade para construir sua própria narrativa.
O governador não precisava ser tratado como culpado de nada.
Precisava ser tratado como governador e candidato à reeleição.
São coisas diferentes.
Quando existe uma investigação envolvendo pessoas próximas a um financiador de campanha, pergunta-se.
Quando existe uma crise na principal força policial do Estado, pergunta-se.
Quando um ex-comandante-geral aparece citado em investigação, pergunta-se.
Quando há aumento de feminicídios, pergunta-se.
Quando o governador apresenta números de segurança pública, confrontam-se os números.
Quando há venda de patrimônio público, pergunta-se pelo dinheiro.
Quando há discussão sobre dívida e situação fiscal, confrontam-se os dados.
Quando o candidato acusa o governo federal, pergunta-se se a acusação corresponde aos fatos.
Nada disso é perseguição. É entrevista.
O problema não é ser gentil. É deixar de ser jornalista
A crítica mais grave à sabatina, portanto, não é que os quatro jornalistas tenham sido “bonzinhos” com Tarcísio.
É que a entrevista correu o risco de transformar uma sabatina em uma vitrine eleitoral.
O governador entrou com uma narrativa pronta e, em vários momentos, teve a oportunidade de apresentá-la sem enfrentar o contraditório necessário.
E isso é particularmente grave porque Tarcísio já demonstrou que sabe explorar entrevistas para estabelecer sua própria agenda política.
Na campanha, ele fala de Lula.
Fala de Brasília.
Fala de segurança.
Fala de economia.
Fala de privatização.
Fala de futuro.
Mas quem está entrevistando precisa perguntar sobre o presente de São Paulo.
Sobre o dinheiro.
Sobre as contas.
Sobre a polícia.
Sobre as mulheres.
Sobre as privatizações.
Sobre as relações políticas.
Sobre os financiadores.
Sobre os resultados concretos.
Sobre aquilo que o governador prefere não discutir.
Uma boa sabatina não é aquela em que o entrevistado termina confortável.
É aquela em que o eleitor termina sabendo aquilo que antes não sabia.
E, diante da quantidade de assuntos relevantes que ficaram sem resposta, a sensação deixada pela entrevista conjunta de CBN, Valor Econômico e O Globo é incômoda:
Tarcísio teve a oportunidade de falar. Faltou alguém disposto a interromper a narrativa para perguntar o que realmente precisava ser perguntado.
E, em uma eleição, quando jornalistas deixam de fazer perguntas difíceis, quem perde não é o candidato.