O mesmo instituto, no mesmo dia, com os mesmos entrevistados, publica dois conjuntos de números bem diferentes. Não há contradição: são duas perguntas distintas.
Espontânea
O entrevistador pergunta em quem a pessoa pretende votar sem oferecer nomes. Vale o que vier da memória. Os percentuais são sempre mais baixos e o índice de “não sabe” é alto — muita gente ainda não fixou nome nenhum, sobretudo meses antes da eleição.
É a medida mais dura que existe de lembrança de marca: quem aparece bem na espontânea ocupa espaço real na cabeça do eleitor.
Estimulada
O entrevistador apresenta um cartão ou lê uma lista com os nomes em disputa, e a pessoa escolhe. Os percentuais sobem, o “não sabe” despenca, e o retrato se aproxima do que acontece na cabine — onde o eleitor também vê uma lista.
A composição da lista influencia o resultado. Por isso institutos sérios informam quais nomes foram apresentados, e por isso cenários diferentes (com e sem determinado candidato) produzem números diferentes.
O que costuma ser entendido errado
O erro mais frequente é comparar os dois. Ler “caiu de 30% para 12%” quando um número é estimulado e o outro espontâneo não descreve queda nenhuma: descreve duas perguntas diferentes.
O segundo erro é tratar a espontânea como mais “verdadeira” por não induzir resposta. Ela mede outra coisa — reconhecimento, não intenção final. Para projetar resultado, a estimulada é a referência; para medir se um nome pegou, a espontânea é mais reveladora.
No noticiário do Radar
As duas leituras aparecem na cobertura de pesquisas, como em Quaest: Flávio Bolsonaro perde apoio da Direita “Não Bolsonarista”.