Link copiado!

EXCLUSIVO: R$ 1 milhão de emenda PIX de Pollon entrou no governo Tarcísio e o dinheiro sumiu

Checagem

Radar Brasileiro rastreou a emenda Pix destinada à produção de série que nunca saiu do papel; após o cancelamento do projeto, Pollon afirmou que verba seria redirecionada ao Hospital de Amor, em Barretos, mas não há, até agora, comprovante público de que o hospital tenha recebido o dinheiro.

O Radar Brasileiro refez o caminho de uma emenda Pix de R$ 1 milhão destinada pelo deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) para um projeto audiovisual ligado à empresária Karina Ferreira da Gama, alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União nesta quinta-feira (10). E de outra, de R$ 150 mil, pela deputada Bia Kicis à Academia Nacional de Cultura (ANC).

A primeira reportagem da série Onde Está o Dinheiro, Tarcísio? está nesse link. Essa Emenda PIX, em especial, causou “suspeita” do ministro Flávio Dino, justamente pelo destino final do dinheiro. O Recurso cairia justamente nas mãos de Karina da Gama, só que ele misteriosamente desapareceu.

O rastreamento dos documentos revela uma sequência que coloca o Governo de São Paulo, sob Tarcísio de Freitas, no centro da história: o dinheiro da União foi destinado ao Estado, o projeto passou pela Secretaria da Cultura, recebeu parecer favorável e deveria financiar a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”.

A produção, porém, nunca saiu do papel.

O que aconteceu com os R$ 1 milhão depois que o projeto foi abandonado?

A própria documentação pública não permite identificar, de forma clara, o destinatário final da verba.

A emenda é a nº 44200010, Ação 0EC2, apresentada por Pollon. O recurso foi registrado como transferência especial da União, modalidade conhecida como emenda Pix. O dinheiro entrou na estrutura financeira do Estado de São Paulo.

Emenda Pix nº 202444200010

  • Parlamentar: Marcos Pollon (PL-MS)
  • Plano: 09032024-070413
  • Valor: R$ 1.000.000
  • Destino formal: Estado de São Paulo
  • Entidade que seria beneficiada: Academia Nacional de Cultura (ANC), CNPJ 38.244.438/0001-98
  • Projeto: “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”
  • Objeto: produção de uma série documental com três episódios
  • Execução prevista: por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo.

O dinheiro chegou à ANC?

Não. Esse é um ponto fundamental que o governador Tarcísio de Freitas.

Segundo os documentos citados na decisão do ministro Flávio Dino, a emenda de Pollon não teve execução financeira em favor da Academia Nacional de Cultura.

A CGU também informou que, em consulta realizada em 11 de junho de 2026, não constava recebimento de recursos federais pela ANC.

O Destino da Emenda PIX foi a secretaria de Cultura do governo do Estado de São Paulo. Além de Tarcísio, segundo a CGU, a secretária Marilia Marton, participou de todo o processo para receber o recurso.

O projeto ligado a Karina da Gama

O semblante de medo de Tarcísio diante das perguntas sobre o Dark Horse chamou atenção durante coletiva – Foto: TV UOL

O dinheiro tinha como finalidade viabilizar a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”, vinculada à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina da Gama.

O projeto previa três documentários de até 56 minutos cada, em 4K, sobre:

  • “Portugal: Luz para o Brasil”,
  • “José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil”
  • “Dom Pedro I: o Libertador”.

Karina é também responsável pela Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, obra que se tornou alvo de investigação policial e que aparece no centro das apurações envolvendo emendas parlamentares e recursos destinados a entidades ligadas à empresária.

O projeto analisado pelo governo paulista previa três documentários de até 56 minutos cada, produzidos em 4K, abordando Portugal, José de Anchieta e Dom Pedro I.

O cronograma previa 12 meses de execução e duas pré-estreias, uma em Brasília e outra em São Paulo.

Nada disso aconteceu.

A série não foi produzida.

O governo Tarcísio analisou e aprovou o projeto

O Radar Brasileiro teve acesso ao Parecer Técnico nº 0047451126, produzido pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo.

O documento mostra que o projeto passou pela estrutura do governo estadual e recebeu manifestação favorável da pasta.

Segundo o parecer, a proposta estava “em plena sintonia com os interesses institucionais” da Secretaria.

A Unidade de Difusão Cultural, Bibliotecas e Leitura também se manifestou favoravelmente ao mérito da proposta.

Ou seja: não se tratava de uma emenda que simplesmente desapareceu antes de chegar ao Estado.

O recurso entrou no Governo de São Paulo. O projeto foi analisado. A Secretaria de Cultura se manifestou favoravelmente. E a produção não aconteceu.

O Radar Brasileiro já havia revelado essa sequência em reportagem publicada em agosto.

O dinheiro que deveria virar filme

A apuração mostra que a relação entre a emenda e o projeto audiovisual não surgiu por acaso.

O próprio Pollon informou ao Supremo Tribunal Federal que sua intenção inicial era utilizar os recursos para viabilizar a produção da série.

Houve tratativas envolvendo Pollon, Karina da Gama, o governo paulista e a Secretaria de Cultura. O projeto chegou à estrutura administrativa do Estado e recebeu análise técnica.

Mas o filme nunca foi produzido.

É justamente nesse momento que começa o trecho mais nebuloso da história.

Pollon diz que mandou o dinheiro para Barretos

Depois que o projeto deixou de ser executado, Pollon afirmou que solicitou o cancelamento do empenho e o redirecionamento dos recursos.

O novo destino informado pelo parlamentar foi o Hospital de Amor, em Barretos, mantido pela Fundação Pio XII.

A justificativa apresentada foi que a proposta original não poderia ser executada.

Segundo a assessoria de Pollon, a emenda de R$ 1 milhão foi redirecionada para uma instituição oncológica.

O Radar Brasileiro procurou o Pollon, que respondeu assim:

“Maicon, posteriormente, ao tomar ciência de que a entidade responsável pela execução não havia cumprido os requisitos técnicos necessários para continuidade do projeto, determinei o cancelamento do empenho e solicitei que os recursos fossem redirecionados para a área da saúde, com destinação ao Hospital de Amor de Barretos, instituição que atende milhares de sul-mato-grossenses todos os anos via SUS. Reitero que não houve execução do projeto, nem utilização dos recursos para finalidade diversa daquela originalmente apresentada. Também não houve, em momento algum, destinação desta emenda para o filme ‘Dark Horse’ ou qualquer outro conteúdo audiovisual diferente do previsto inicialmente’.

Cadê a ordem bancária?

O Radar Brasileiro procurou a documentação capaz de fechar a última etapa do caminho do dinheiro.

Até agora, não encontrou documento público que demonstre que aquele R$ 1 milhão específico tenha sido efetivamente creditado à Fundação Pio XII, responsável pelo Hospital de Amor.

Não aparece, de maneira inequívoca, a ordem bancária correspondente.

Não aparece o comprovante do crédito no hospital.

Não aparece, de forma clara, o documento que permita acompanhar a transferência desde o Governo de São Paulo até o suposto novo beneficiário.

A reportagem também procurou o Hospital de Amor para esclarecer se recebeu aquele recurso e qual seria a identificação da transferência. Até o momento, não houve resposta.

Tarcísio precisa explicar o caminho do dinheiro

A documentação obtida pelo Radar Brasileiro mostra que o projeto passou pela estrutura do governo de Tarcísio de Freitas e recebeu manifestação favorável da Secretaria de Cultura.

O governador, portanto, aparece no contexto administrativo da tramitação do projeto, ainda que isso, por si só, não demonstre qualquer participação dele em eventual irregularidade ou desvio.

A questão que permanece é administrativa e financeira:

qual foi o destino final dos R$ 1 milhão depois que o projeto audiovisual foi cancelado?

CADÊ O DINHEIRO GOVERNADOR?

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

Ver todas as matérias