A sabatina de Tarcísio de Freitas no SP1, da TV Globo, nesta terça-feira (15), expôs um candidato visivelmente desconfortável diante de perguntas que exigiam respostas objetivas sobre números da gestão paulista e, principalmente, sobre o impacto político das investigações envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse.
Ao longo da entrevista conduzida por Allan Severiano, Tarcísio recorreu diversas vezes a respostas genéricas, desviando de perguntas específicas e substituindo números e explicações por balanços políticos sobre sua administração.
Em vez de enfrentar diretamente determinados dados apresentados pelo jornalista, o governador procurou deslocar o debate para realizações de sua gestão.
O resultado foi uma sabatina em que, nos momentos mais delicados, a resposta de Tarcísio parecia ser menos sobre a pergunta feita e mais sobre o discurso que sua campanha pretende levar ao eleitor.
Allan mudou o foco para Brasília

A pergunta de Allan Severiano foi direta.
O jornalista lembrou que faltavam menos de 20 dias para a eleição e citou a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e o escândalo do Banco Master. Também mencionou Daniel Vorcaro, nomes do Judiciário e políticos de diferentes partidos.
Na sequência, Allan colocou Tarcísio diante de um problema eleitoral concreto: Flávio Bolsonaro, candidato apoiado pelo governador na disputa presidencial, aparece no centro das investigações relacionadas ao financiamento de Dark Horse.
A pergunta foi se toda essa investigação poderia afetar a campanha de Tarcísio em São Paulo.
A resposta, porém, não enfrentou diretamente a questão.
Mentiu “Acho que não afeta.”
A partir daí, Tarcísio passou a falar sobre uma suposta “exaustão ética”, sobre o eleitor estar “frio” e “descrente” e defendeu “transparência”, “apuração” e “responsabilização”.
Disse ainda:
Enganoso “Tá na hora de passar o Brasil a limpo.”
O problema é que a resposta não explicou como uma investigação que envolve diretamente um aliado político e candidato apoiado por ele não afetaria uma eleição que acontece praticamente ao mesmo tempo em que o caso domina o debate nacional.
E existe uma contradição política que merece ser registrada.
Tarcísio afirmou, diante da Globo, que defende Mentiu “ampla investigação” e que tudo deve ser levado Tendencioso “à tona”.
Mas, quando o próprio governo paulista foi colocado sob escrutínio por causa da condução de uma investigação relacionada ao Dark Horse, o discurso do governador foi outro.
Tarcísio chamou de “desrespeito” críticas à Polícia Civil

Em 25 de agosto, quando foi questionado sobre as críticas à condução da investigação paulista envolvendo a produtora do filme Dark Horse, Tarcísio classificou as acusações de interferência como “desrespeito” à Polícia Civil de São Paulo.
O governador afirmou que a corporação seria uma “polícia de Estado, não de governo”.
A declaração ganhou novo peso depois que o ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar dados da investigação conduzida pela Polícia Civil paulista.
Dias depois, Dino determinou que todo o material apreendido pela polícia paulista fosse encaminhado à Polícia Federal, incluindo os dados brutos extraídos dos celulares apreendidos na operação.
Mentiu Ou seja: na sabatina, Tarcísio fala em “ampla investigação” e em colocar o Brasil “a limpo”. No episódio concreto que envolve uma investigação conduzida por uma estrutura subordinada ao governo que ele comanda, porém, reagiu chamando as críticas à atuação policial de “desrespeito”.
É justamente essa contradição que transforma a resposta aparentemente genérica da sabatina em uma questão política.
E há outro problema: os lacres dos equipamentos apreendidos
O caso ganhou ainda mais gravidade depois que o Instituto de Criminalística de São Paulo recusou inicialmente equipamentos apreendidos pela Polícia Civil no caso Dark Horse por problemas na lacração.
Segundo reportagens publicadas nos últimos dias, foram identificados 27 dispositivos com problemas nas embalagens: 13 pen drives, 9 notebooks e 5 celulares. As falhas permitiam, em tese, acesso aos aparelhos sem rompimento dos selos de segurança.
Pelo menos 18 aparelhos foram inicialmente recusados — quatro pen drives, cinco celulares e nove notebooks — devido a falhas nos lacres que poderiam permitir acesso aos equipamentos sem rompê-los.
O episódio coloca uma pergunta inevitável sobre a cadeia de custódia dos elementos mais sensíveis de uma investigação que envolve recursos públicos, personagens políticos e o financiamento de uma produção cinematográfica ligada ao bolsonarismo.
E essa pergunta fica ainda mais relevante diante da fala de Tarcísio sobre a necessidade de “transparência”.
O governador ficou acuado

Durante a entrevista, Tarcísio apresentou sinais físicos de desconforto, movimentando repetidamente mãos e pés enquanto respondia a perguntas mais sensíveis.
A linguagem corporal, no contexto da sabatina, os movimentos chamaram atenção justamente quando as perguntas deixaram o terreno das realizações administrativas e entraram em temas politicamente mais delicados.
O contraste foi evidente: diante de perguntas sobre propostas e realizações, Tarcísio procurava conduzir a resposta; quando confrontado com temas envolvendo investigações, aliados políticos e números desfavoráveis, recorria com maior frequência a respostas abrangentes.
É nesse ponto que a sabatina merece ser analisada para além do discurso preparado.
A resposta sobre investigação não explica a contradição
- por que considera que o caso não terá impacto eleitoral;
- como avalia a situação de Flávio Bolsonaro;
- se mantém integralmente o apoio ao candidato diante das suspeitas;
- por que classificou como “desrespeito” as críticas à investigação da Polícia Civil;
- como explica os problemas identificados na lacração dos equipamentos;
- e por que uma investigação conduzida por órgãos paulistas precisou ser compartilhada com a Polícia Federal por determinação do STF.
Tarcísio mente sobre Segurança
O governador Tarcísio de Freitas tentou transformar uma pergunta objetiva sobre os roubos em regiões específicas da capital paulista em uma resposta sobre os indicadores gerais de segurança de todo o Estado de São Paulo.
A resposta do governador começou assim:
Mentiu Enganoso “Bom, a mancha criminal ela é muito variável. A gente tem visto a redução dos indicadores criminais. A gente tá com recordes, com os melhores indicadores da nossa história: menor indicador de roubos e furtos, menor indicador de roubo de carga, de roubo de veículo, de latrocínio e de homicídio desde o início da série histórica.”
É justamente nesse trecho que está o principal problema da resposta.
O governador respondeu uma coisa, mas Allan havia perguntado outra
Allan não perguntou se o Estado de São Paulo, considerado de maneira agregada, havia reduzido os índices de criminalidade.
A pergunta foi muito mais específica: por que determinados territórios da cidade de São Paulo continuam concentrando uma quantidade elevada de roubos e o que o governo pretende fazer nesses pontos conhecidos?7
Tarcísio não responde ao déficit de policiais
Tarcísio respondeu:
Mentiu “O efetivo cresceu. Nós contratamos dezessete mil novos policiais e a gente tem que contratar policiais pra resolver o problema do turnover, que é muito grande.”
Número de contratações não é a mesma coisa que aumento líquido do efetivo.
Se policiais se aposentam, pedem exoneração, deixam a ativa ou saem por outros motivos, parte das novas contratações simplesmente recompõe as perdas.
E o próprio Tarcísio reconheceu isso na entrevista.
Tendencioso “A gente tem que contratar policiais pra resolver o problema do turnover, que é muito grande.”
O governador praticamente confirmou o problema ao falar em “recompletamento”
Na sequência, Tarcísio afirmou:
Parcialmente verdadeiro “A gente tem uma programação de concurso. A gente já tem programado chegar a trinta mil e quinhentos novos policiais.”
E voltou a falar sobre concursos.
No caso da Polícia Civil, citou:
Mentiu “Nós fizemos os dois maiores concursos da polícia civil da nossa história.”
Tarcísio mentiu e não respondeu aos dados da Educação
Tarcísio prometeu e não cumpriu promessa de 60% de ensino integral
Governador tentou justificar resultado abaixo da promessa feita em 2022 e, ao ser questionado sobre metas do Ideb, mudou o foco para o Pisa; dados oficiais mostram que São Paulo continua abaixo das metas de aprendizagem.
A resposta do governador foi:
Mentiu Falso Tendencioso Enganoso “A gente precisava estruturar as escolas primeiro.”
Foi então que Allan fez a pergunta que desmontou a tentativa de apresentar a expansão como cumprimento da promessa:
“Isso dá quanto aí? […] Percentualmente, o senhor tem ideia de quantas a gente vai passar?”
A resposta de Tarcísio foi reveladora:
Mentiu “Dos quarenta por cento tá, mas não vai chegar a esse sessenta.”
O jornalista citou:
Fundamental II: 5,2, contra uma meta de 5,8.
Ensino médio: 4,3, contra uma meta de 5,1.
A pergunta foi objetiva:
o que faltou fazer para que os estudantes paulistas alcançassem as metas?
Em vez de começar respondendo pelo Ideb, Tarcísio mudou imediatamente para outro indicador:
Mentiu Falso Enganoso “A gente na verdade vem crescendo. Vamo ver o resultado do Pisa que saiu recentemente. A gente sai do sexto lugar pra segundo lugar.”
Aqui está o problema central da resposta.
Allan perguntou sobre o cumprimento das metas do Ideb. Tarcísio respondeu inicialmente com o Pisa.
Outro ponto importante da sabatina aparece quando o governador diz:
“No médio, de quatro ponto dois pra quatro ponto cinco.”
O Radar Brasileiro explica:
O 4,5 existe, mas corresponde ao indicador que considera conjuntamente o ensino médio regular e o ensino médio integrado à formação técnica.
O Ideb do ensino médio regular da rede estadual foi 4,3 em 2025.
Tarcísio é confrontado sobre mortes, multa ambiental e reclamações da Sabesp
Governador evita responder diretamente sobre segurança nas obras, despejo irregular de esgoto e explosão de reclamações; fala em investimentos, universalização e obras que ainda serão concluídas.
A pergunta de Allan foi objetiva:
que correções Tarcísio estava exigindo da empresa que havia sido concedida à iniciativa privada?
A resposta, entretanto, começou pelos resultados positivos:
Parcialmente verdadeiro Exagerado Enganoso “Bom, primeiro, a gente tem que lamentar essas mortes. Isso deixa a gente profundamente triste. E agora, vamos ver os resultados também. É claro que a gente, em função dos acidentes, mudou muita a lógica de fazer obras.”
Allan também perguntou sobre a multa ambiental, da Cetesb. Em abril de 2026, a Cetesb aplicou multas que, segundo a CNN, somaram R$ 1 milhão, relacionadas a episódios envolvendo o Tietê, o Pinheiros e a Represa Billings.
Allan Severiano fez uma pergunta ainda mais específica:
“A Sabesp se apressou demais nessas obras. Qual é o motivo de tantos acidentes mortais?”
Enganoso Tarcísio respondeu que a universalização precisa ser antecipada e que o Brasil corre risco de atingir a meta nacional apenas décadas depois.
Allan também confrontou Tarcísio com outro número incômodo.
Segundo o jornalista, a Arsesp havia recebido mais de 11 mil reclamações naquele ano, superando o total registrado no ano anterior.
A pergunta foi:
quando o consumidor deixará de enfrentar reclamações sobre falta d’água e diferenças no valor das contas?
A resposta novamente foi desviada para investimentos.
Tarcísio falou de adutoras, reservatórios, sistemas de abastecimento e substituição de redes antigas.
Disse também:
Não é bem assim Falso “Muitas reclamações tiveram a ver com cobranças indevidas e a Sabesp tá revendo isso. Essas reclamações já estão em queda.”
Tarcísio afirmou que:
Mentiu Falso Enganoso Exagerado “A falta d’água tá muito relacionada aos investimentos que estão sendo feitos.”
Em seguida, explicou que a rede é velha e que existem perdas de aproximadamente 5 m³ por segundo.
Depois, apresentou uma solução para o futuro:
Mentiu Falso Enganoso “No segundo ciclo de investimento que vai até dois mil e trinta e quatro, a substituição integral dessa rede…”
Tarcísio terminou defendendo que a população precisa olhar para o “grande edifício” do saneamento e não apenas para a “fundação”.