Link copiado!
Checagem Radar Verdadeiro

BOMBA DA PIAUÍ: ENQUANTO MILHARES MORRIAM, FLÁVIO BOLSONARO FICAVA NA ORGIA

Política

Flávio Bolsonaro, Covaxin, Rolex e cassinos: as conexões que levantam suspeitas. Reportagem reconstitui passeio de lancha com garotas de programa durante a pandemia, relata entrega de um Rolex ao senador e expõe conexões com empresários interessados em contratos públicos, além de episódios envolvendo vacinas, viagens internacionais e cassinos.

Em 16 de julho de 2020, enquanto o Brasil registrava 1.299 mortes por Covid-19 em apenas 24 horas e acumulava 76.822 vítimas, um jatinho de prefixo PR-SAD decolava de Congonhas rumo a Brasília. A bordo estavam Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos, que afirmavam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, fabricante da vacina Covaxin, e buscavam fechar um contrato com o governo Bolsonaro.

Naquele momento, laboratórios e governos disputavam acordos para garantir vacinas contra a Covid-19. Enquanto Pfizer e Sinovac tentavam avançar nas negociações com o Ministério da Saúde, a Precisa, que já fornecia produtos ao governo federal, buscava ampliar sua participação nos negócios com a administração Bolsonaro.

Para favorecer os negócios com o governo Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano teriam organizado um passeio para agradar Flávio Bolsonaro, filho mais velho do então presidente e hoje candidato à Presidência pelo PL. Com a ajuda do agente de viagens Raphael Barão, dono da Barão Turismo, a dupla preparou um churrasco em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, com a presença de três garotas de programa levadas de São Paulo.

Na noite de 16 de julho de 2020, os dois empresários, o agente de viagens e as três mulheres embarcaram em um jatinho que pousou em Brasília às 22h12. O grupo seguiu para o hotel Meliá Brasil 21, onde passou a noite. O passeio estava previsto para o dia seguinte.

Na manhã de 17 de julho, enquanto o país acompanhava as notícias sobre as mortes provocadas pela Covid-19 e suspeitas de desvios de recursos públicos destinados ao combate à pandemia, bebidas alcoólicas e petiscos começaram a ser levados para uma lancha de aproximadamente 20 metros, ancorada no Lago Paranoá, para preparar o evento.

Além de Danilo Trento, das três mulheres e do piloto, a lancha recebeu Flávio Bolsonaro e seu amigo Alexandre Santini, então sócio do senador em uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro. Segundo o Ministério Público fluminense, a loja teria sido usada para lavar cerca de R$ 1,6 milhão provenientes de um esquema de rachadinha no gabinete de Flávio na Alerj. O caso acabou arquivado após o STF anular as provas, em 2021.

Durante o passeio pelo Lago Paranoá, o grupo fez uma parada no restaurante flutuante Alô Grau para comprar mais comida e bebida. A conta de R$ 1.949 foi paga por Raphael Barão. Sob o sol forte, Flávio e Santini ficaram sem camisa, enquanto o grupo demonstrava preocupação com a possibilidade de ser filmado por drones. Em determinado momento, o senador desceu à cabine acompanhado de uma das mulheres.

A confraternização terminou por volta das 15h. Já com a lancha atracada, Trento, que buscava vender vacinas ao governo federal por meio da Precisa Medicamentos, retirou do próprio pulso um relógio Rolex de pulseira prateada e o entregou a Flávio Bolsonaro. O senador deixou o local usando o presente.

Encerrado o passeio, Alexandre Santini pediu carona a São Paulo no mesmo jatinho que transportava Danilo Trento, Francisco Maximiano, Raphael Barão e as três mulheres. Antes de embarcar, foi ao hotel Royal Tulip Brasília Alvorada, próximo ao Palácio da Alvorada, para buscar seus pertences. A aeronave deixou Brasília às 17h55 e pousou em São Paulo às 19h13. Às 20h30, o consórcio de imprensa divulgaria o registro de mais 1.110 mortes por Covid-19 naquele dia.

O episódio se insere em um contexto mais amplo de festas privadas usadas, segundo relatos, como instrumento de aproximação e lobby entre empresários e autoridades. Embora Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tenha estruturado esse tipo de prática em uma operação mais ampla, com intermediários que ofereciam serviços sexuais a figuras influentes, esse mecanismo não seria uma novidade em Brasília. Na capital federal, encontros discretos em lanchas e hotéis também fariam parte desse ambiente.

“Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, relatou um ex-assessor parlamentar que disse ter participado de festas em lanchas com garotas de programa, incluindo duas ocasiões em que Flávio Bolsonaro também estaria presente: uma antes e outra durante a pandemia.

Em festas privadas que reuniriam políticos, magistrados e outras figuras influentes, a discrição seria uma regra central. Segundo relatos, as garotas de programa passariam por revistas, seriam proibidas de usar celulares e teriam suas bolsas recolhidas para evitar vazamentos. Uma participante, que pediu anonimato por temer por sua segurança, afirmou que costuma haver de duas a três mulheres por convidado e que as lanchas geralmente contam com dois andares e uma ou duas cabines.

Em setembro deste ano, o jornalista Rodrigo Rangel publicou no PlatôBR uma reportagem sobre encontros entre Flávio Bolsonaro e garotas de programa promovidos por Alexandre Santini, que também teria participado do passeio no Lago Paranoá. A publicação relatou ainda que o senador recebeu um relógio Rolex Submariner Date, avaliado em R$ 305 mil, comprado pelo advogado Alan Belaciano, que atuava na defesa de interesses privados perante autoridades em Brasília.

Para reconstruir o encontro de 17 de julho de 2020, a revista piauí ouviu uma pessoa que estava na lancha, sob garantia de anonimato, e cruzou documentos de quebras de sigilo de Raphael Barão, Francisco Maximiano e Danilo Trento, enviados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado. A apuração também incluiu depoimentos de dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que participou de outros eventos semelhantes, além da comparação dos registros de voo com dados de uma plataforma de rastreamento aéreo.

Durante a CPI da Pandemia, Flávio Bolsonaro defendeu publicamente a Precisa Medicamentos e elogiou Emanuela Medrades, diretora da empresa, por supostamente buscar economia de dinheiro público na negociação da vacina Covaxin. A declaração contrastava com os preços negociados: R$ 80 por dose da Covaxin, ante cerca de R$ 56,30 da Pfizer e R$ 18 da AstraZeneca. As tratativas haviam levantado suspeitas após denúncias de irregularidades feitas pelo servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda. O contrato foi cancelado sem que o governo realizasse pagamentos. Flávio ironizou as acusações, argumentando que não poderia haver desvio de recursos sem dinheiro pago. O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas o senador, Danilo Trento e Francisco Maximiano.

A relação entre Flávio e Maximiano também apareceu em uma reunião com o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano, em 20 de outubro de 2020. O senador participou de uma conversa virtual para apresentar uma proposta de empresa de telecomunicações ligada a Maximiano, que buscava apoio financeiro para ampliar o acesso à internet nas regiões Norte e Nordeste. Após a divulgação do encontro, Flávio afirmou que apenas havia solicitado que o banco avaliasse a ideia. O BNDES informou que houve duas reuniões e que nenhum financiamento foi contratado. A agenda chamou atenção por ter sido o único encontro oficial individual de Flávio com Montezano, sem outros parlamentares, desde o início da gestão do presidente do banco.

Naquele período, Flávio também demonstrava interesse pelo setor de telecomunicações e participou de viagens internacionais relacionadas ao mercado. Em janeiro de 2020, esteve em Las Vegas na mesma época em que Danilo Trento também viajou para a cidade. A missão oficial do senador custou R$ 12,5 mil em diárias ao Senado e incluía atividades relacionadas à promoção do turismo brasileiro, cruzeiros e resorts. Convocado pela CPI da Pandemia, Trento se recusou a esclarecer se havia viajado com algum senador, invocando seu habeas corpus. Flávio negou ter se encontrado com o empresário e afirmou não possuir qualquer vínculo com ele.

Anos depois, o senador voltou a ser associado a ambientes de jogos de azar. Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Flávio passou um fim de semana em janeiro de 2025 no Hard Rock Hotel & Casino, em Miami, acompanhado do empresário Willer Tomaz. A revista piauí havia revelado suspeitas de uma sociedade não declarada entre os dois em uma empresa de apostas. De acordo com o relato de Jardim, eles estiveram em uma sala de jogos reservada, e Tomaz sacou US$ 236 mil em espécie ao deixar o cassino, por volta das 6h30.

Em outubro, O Globo publicou ainda que Tomaz teria pago a um site para retirar links com informações desfavoráveis a ele, incluindo uma notícia sobre a oposição de Flávio ao projeto de legalização dos jogos e suas visitas a cassinos.

Procurado pela piauí, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado até o fechamento da reportagem. Danilo Trento inicialmente pediu informações sobre o assunto, mas interrompeu a comunicação após receber os detalhes sobre os voos, o passeio de lancha e o relógio Rolex. Os advogados de Francisco Maximiano também foram procurados, mas não responderam até a conclusão do texto.

Sobre o autor Redação Radar Brasileiro Redação · Radar Brasileiro

Equipe de redação do Radar Brasileiro — jornalismo independente, comprometido com o interesse público.

Ver todas as matérias