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Checagem Radar Verdadeiro

A REUNIÃO OCULTA: bastidores do Muralha Paulista e a rede de influência por trás de R$ 475 milhões

Brasil

Reunião entre Tarcísio e Davi Peixoto, omitida da agenda pública, ocorreu no mês em que a parceria entre a empresa e a Prodesp foi fechada. Tribunal de Contas questiona contratação sem licitação, aponta falhas na modelagem e levanta a possibilidade de a estatal ter servido como intermediária para uma empresa privada.

Os bastidores da relação direta entre Tarcísio de Freitas e o empresário Davi Peixoto dos Santos. O Radar Brasileiro mostra agora como foi feita a costura para uma única empresa ganhar um contrato de quase meio bilhão de reais. Os bastidores de uma rede de influência montada para favorecer interesses privados dentro do governo Tarcísio.

O caso Muralha Paulista deixou de ser apenas uma suspeita de irregularidade em uma contratação pública. Existe uma história que está sendo investigada para saber se, por trás de um contrato de R$ 475,8 milhões, pode ter existido algo muito mais grave: uma rede de relações, articulações e interesses privados operando dentro da estrutura do governo de São Paulo.

Fato que, não é razoável tratar o episódio como uma simples questão burocrática. Se não tivesse suspeita, o contrato com a Prodesp não teria sido encerrado e os envolvidos estariam brigado até hoje para que o contrato fosse restabelecido. Mas isso não aconteceu porque existe muita poeira por debaixo dos panos.

Há uma empresa criada em 2024. Há uma ascensão extraordinariamente rápida no mercado público. Há contratos milionários em diferentes estados. Há uma parceria com a Prodesp. Há um contrato de quase meio bilhão de reais com o governo paulista. Há questionamentos do Tribunal de Contas de São Paulo.

Há uma reunião entre o governador Tarcísio de Freitas e o empresário Davi Peixoto no mês em que a operação foi estruturada — encontro cuja presença do empresário não aparece na agenda pública do governador, segundo apuração exclusiva do Radar Brasileiro.

E há um personagem que aparece justamente na intersecção entre esses mundos: Leonardo Sultani, então secretário-executivo da área de Gestão e Governo Digital da gestão Tarcísio e integrante do Conselho de Administração da Prodesp.

De um lado está Davi Peixoto, empresário responsável pela Paladium Corp., posteriormente transformada em Pax AI.

Do outro está o governo Tarcísio, com uma estrutura de gestão e tecnologia comandada por nomes de peso, entre eles Guilherme Afif Domingos, Caio Paes de Andrade e Leonardo Sultani.

Guilherme Afif Domingos, Caio Paes de Andrade e Leonardo Sultani

No meio está a Prodesp — empresa pública que se tornou peça central da operação.

E, na ponta, está um contrato de R$ 475,8 milhões ligado a um dos principais programas de segurança do governo paulista.

O problema é que o próprio Tribunal de Contas do Estado de São Paulo encontrou elementos suficientes para questionar a modelagem da contratação e a forma como a operação foi construída.

O TCE levantou dúvidas sobre a contribuição efetiva da Prodesp, a formação dos preços, o equilíbrio econômico da parceria e a possibilidade de a estatal ter funcionado, na prática, como intermediária entre o governo e a empresa privada.

Se essa hipótese for confirmada, a questão deixa de ser apenas administrativa.

Passa a ser necessário investigar quem desenhou a operação e com qual finalidade.

Clique e veja o ato que autoriza a contratação direta. 

Marcelo Douglas de Souza não aparece como alguém da Prodesp e sim como funcionário do governo Tarcísio. Ele é um oficial da Polícia Militar ligado à área de tecnologia da Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) — e já estava diretamente envolvido com o Muralha Paulista antes do contrato de R$ 475,8 milhões. Clique e veja o documento Termo de Referência assinado por ele. 

Daylson Moreira Pereira é policial militar de carreira, lotado na estrutura da Polícia Militar e exercendo funções de gestão/contratos dentro da SSP-SP. Foi ele quem assinou o Mapa de Risco do contrato da Prodesp. Clique e veja, O perfil dele profissional mostra que ainda está no governo do estado. 

  • Nome: Daylson Moreira Pereira
  • Registro PM: RE 116759-6.
  • Em 2021, o Diário Oficial o identifica como 1º Tenente PM, então vinculado ao 4º Batalhão de Polícia de Choque (4º BPChq).
  • Em 2023, aparece como 2º Tenente PM, também no 4º BPChq, atuando como fiscal de contrato.
  • Em 2024, a SSP publicou ato designando o 1º Ten PM Daylson Moreira Pereira como gestor de uma ata/contratação vinculada ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC).
  • O perfil profissional público dele atualmente o associa à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.

O encontro no Palácio

O ponto mais sensível da investigação é a reunião realizada em 11 de março de 2026, no Palácio dos Bandeirantes.

Segundo informações obtidas pelo Radar Brasileiro, Davi Peixoto esteve com Tarcísio de Freitas no encontro, articulado por Leonardo Sultani.

O detalhe que chama atenção é que a agenda pública do governador registra o compromisso, mas não identifica Davi Peixoto como participante.

A omissão ganha peso quando colocada ao lado da cronologia dos contratos.

Naquele mesmo mês, a Prodesp formalizou a parceria com a empresa de Peixoto.

Pouco depois, a Secretaria da Segurança Pública contrataria a Prodesp por R$ 475,8 milhões para a expansão do Muralha Paulista.

É uma sequência que não permite concluir, por si só, que houve direcionamento. Mas permite — e exige — perguntar:

por que o empresário que seria beneficiado pela operação estava reunido com o governador justamente no momento em que o negócio era estruturado?

E, principalmente:

por que sua participação não aparece claramente na agenda pública?

O homem que aparece nos dois lados da operação

Leonardo Sultani, Secretário Executivo da Secretaria de Gestão e Governo Digital do Estado de São Paulo.

Leonardo Sultani merece atenção especial.

Ele não era um burocrata sem relação com a área tecnológica do governo.

Sultani ocupou o cargo de secretário-executivo da Secretaria de Gestão e Governo Digital e também integrava o Conselho de Administração da Prodesp.

Ou seja, estava dentro da estrutura responsável pela área de governo digital e, simultaneamente, dentro da empresa pública que posteriormente faria a parceria com a Paladium.

Segundo a apuração do Radar Brasileiro, foi Sultani quem organizou a aproximação entre Tarcísio e Davi Peixoto.

 

Em 13 de março de 2026, dois dias depois do encontro no Palácio, Sultani participou da Reunião Ordinária nº 986 do Conselho de Administração da Prodesp.

A pergunta que precisa ser respondida é simples:

qual foi exatamente o papel de Sultani na construção dessa operação?

De empresa recém-criada a contrato de quase meio bilhão

A Paladium Corp. foi aberta em 22 de julho de 2024.

Em agosto daquele ano, Davi Peixoto dos Santos passou a figurar como administrador.

Em outubro, a Paladium Holdings LLC entrou na estrutura societária.

Em 2025, a empresa começou a aparecer em negócios relacionados a videomonitoramento e inteligência artificial.

Em Goiás, participou do Consórcio Goiás da Paz.

No Paraná, também entrou no mercado de segurança tecnológica.

E, em março de 2026, chegou ao centro de uma operação envolvendo a Prodesp.

No mês seguinte, veio o contrato de R$ 475,8 milhões.

Menos de dois anos separam a criação da empresa de sua chegada a um dos maiores contratos tecnológicos da história recente do governo paulista.

Sultani: o elo entre governo, Prodesp e a operação

Leonardo Sultani não era um personagem periférico da administração estadual. Muito menos Roberto Carneiro, secretário-chefe da Casa Civil.

Roberto Carneiro e Tarcísio de Freitas

Ele ocupou a posição de secretário-executivo da Secretaria de Gestão e Governo Digital (SGGD), estrutura responsável por áreas estratégicas de gestão e tecnologia do governo paulista. Documentos oficiais do Estado registram sua atuação nessa estrutura ao lado de Tarcísio.

E há outro ponto que merece atenção: Sultani integrava o Conselho de Administração da Prodesp.

A própria companhia o relaciona entre seus conselheiros, e documentos corporativos mostram que ele já participava das reuniões do conselho antes de 2026.

A sequência coloca Sultani em uma posição institucional particularmente relevante para entender a operação:

Isso, por si só, não prova irregularidade, mas levanta suspeitas que estão sendo investigadas. E ajuda a explicar por que a participação de Sultani na articulação do encontro entre Tarcísio e Peixoto e sua presença na estrutura da Prodesp precisam ser examinadas conjuntamente.

Uma empresa de dois anos e uma ascensão meteórica

A cronologia empresarial também chama atenção.

A Paladium Corp Desenvolvimento de Tecnologia Ltda. foi aberta em 22 de julho de 2024. David Peixoto dos Santos aparece como administrador, e posteriormente a Paladium Holdings LLC, registrada nos Estados Unidos, passou a integrar o quadro societário.

Em 2025, a empresa já aparecia em operações públicas relevantes.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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