O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, relatou nesta quarta-feira (12) em uma conversa com jornalistas um episódio envolvendo uma viatura da Polícia Militar que, segundo ele, acompanhou seu carro na noite anterior, quando retornava para casa após um evento.
O caso, de acordo com o relato do ex-ministro, teria começado por volta das 22h30 e se prolongado depois que ele já havia entrado em sua residência.
Haddad afirmou que, inicialmente, não atribuiu importância à presença da viatura. Segundo ele, uma abordagem rápida poderia ser resultado de uma ronda policial ou de algum tipo de confusão. A preocupação surgiu posteriormente, quando seu motorista contou que continuou sendo acompanhado pelos policiais.
“Eu estava chegando na minha casa depois do evento do Lago São Francisco, e o meu carro foi abordado por uma viatura da Polícia Militar de uma forma um pouco ostensiva, mas rápida.”, disse Haddad.
Ainda segundo Haddad, a primeira abordagem ocorreu quando ele ainda estava chegando à residência. O político afirmou que entrou em casa sem considerar a situação anormal naquele momento.
“Eu estava chegando em casa, eu entrei em casa, achei um episódio relativamente normal. Acontece, né, de você estar fazendo uma ronda”, ponderou.
O que teria ocorrido depois, porém, chamou a atenção do candidato petista. De acordo com o relato, após deixá-lo em casa, o motorista teria sido acompanhado pela mesma viatura por determinado período.
“Mas o meu carro, depois que me deixou em casa, foi acompanhado por essa viatura da polícia durante muito tempo, e de uma forma um pouco ostensiva e intimidadora”
Haddad fez questão de evitar uma acusação definitiva contra os policiais. Ao longo da declaração, repetiu que não sabe qual teria sido a motivação da abordagem e afirmou trabalhar, neste momento, com a possibilidade de um engano.
“Eu não sei o que aconteceu. Quero crer que possa ter havido alguma confusão. Espero que tenha havido uma confusão”, explicou.
A preocupação, segundo o candidato, está relacionada principalmente à segurança do motorista e das pessoas que o acompanham durante a campanha.
“Mas o meu motorista ficou muito assustado pela maneira como isso aconteceu.”
Motorista teria sido acompanhado após deixar Haddad
Haddad explicou que só tomou conhecimento da dimensão do episódio posteriormente. O motorista teria relatado o ocorrido ao advogado do candidato, Hélio, que orientou o profissional a registrar uma descrição detalhada dos fatos.
“O motorista depois me relatou para o doutor Hélio, que é meu advogado, e nós estamos levando as informações para o governo do estado, para as autoridades competentes, para saber o que aconteceu.”
Segundo Haddad, a situação não teria se limitado a uma abordagem convencional. Ele descreveu uma sequência de movimentos da viatura que, na avaliação do motorista, teria causado preocupação.
“Quando você está com o carro, você emparelha o carro, você chega muito perto, você chega muito perto atrás. Quando você estaciona, a pessoa estaciona também.”
O candidato também afirmou que houve uma aproximação visual dos policiais ao veículo.
“Sabe aquela luz que você põe assim no para-brisa para ver quem está dentro? Sim, teve uma abordagem desse tipo.”
Haddad destacou, entretanto, que uma abordagem policial convencional não seria, por si só, motivo de reclamação.
“Porque uma coisa é você pedir para o cara parar, né. Pede para parar, normal, a pessoa para, pergunta quem é, tem documento. Se é uma abordagem, uma blitz, é normal.”
Para o candidato, a diferença estaria justamente no comportamento posterior.
“Se fosse uma abordagem padrão, não tem nada a ver. Bate no ombro, todo mundo vai lá, boa sorte, acabou. Não foi uma abordagem padrão.”
Três fuzis teriam causado preocupação
Em determinado momento do relato, Haddad afirmou que o motorista ficou especialmente abalado porque teria percebido a presença de três fuzis dentro da viatura.
“Ele estava abalado até agora, porque tinham três fuzis dentro da viatura, as pessoas olhando para ele. Ele é um trabalhador, ele é uma pessoa.”
O candidato disse que não pretende divulgar a identidade do motorista para preservá-lo.
Haddad também afirmou que a viatura teria acompanhado o motorista até a região onde ele próprio reside.
“A viatura foi até a casa dele, até o final acompanhou ele até o final.”
O motorista teria entrado em um estacionamento para tentar compreender o que estava acontecendo, segundo o candidato. Haddad ressaltou que não interpretou a atitude necessariamente como uma tentativa de fuga.
“Não para despistar, para buscar saber o que estava acontecendo. O que que você faria no lugar dele, entendeu?”
Haddad evita acusar policiais e admite possibilidade de engano
Apesar de classificar o comportamento como fora do padrão, Haddad evitou afirmar que houve perseguição deliberada ou ação política. O candidato disse não saber se os policiais tinham conhecimento de que aquele era o seu veículo.
“Eu não sei, eu não sei se sabia.”
Ele também apresentou hipóteses que poderiam explicar a presença da viatura, incluindo eventual confusão com outro veículo ou uma operação policial em andamento.
“Às vezes, a pessoa está cumprindo o dever dela, tem razão para ter feito essa abordagem, confundiu a placa do carro, estava procurando um suspeito, qualquer coisa. É possível.”
E reforçou:
“Eu estou presumindo boa-fé.”
A cautela é importante porque, até o momento, não há informação pública que permita afirmar qual foi a motivação dos policiais ou se a viatura efetivamente tinha como alvo o veículo de Haddad.
Pedido de esclarecimento ao governo estadual
O candidato afirmou que decidiu tornar o episódio público porque pretende comunicar formalmente o caso ao governo paulista. Segundo ele, o objetivo não é transformar o episódio em uma disputa política, mas garantir que exista um registro caso novos acontecimentos venham a ocorrer.
“Eu estou cumprindo a minha obrigação de levar ao conhecimento do governo do estado um episódio que não foi agradável e que pode ter sido apenas um mal-entendido.”
Haddad explicou por que decidiu falar publicamente sobre o caso:
“Mas se eu não dou a público isso, amanhã acontece alguma coisa e você não tem nem por onde começar uma investigação, né.”
O candidato também rejeitou a ideia de transformar o episódio em um confronto político com a administração estadual.
“Eu não quero fazer disso cavalo de batalha.”
A opção, segundo ele, foi comunicar diretamente o ocorrido e aguardar esclarecimentos das autoridades.
“Eu só estou informando que, como vou entrar com uma informação no governo do estado, eu não quero que vocês saibam por terceiros o que aconteceu.”
Segurança durante a campanha entra no centro da discussão
O episódio ocorre em meio à campanha eleitoral para o governo de São Paulo, na qual Haddad disputa diretamente com o atual governador, Tarcísio de Freitas. Por isso, o candidato foi questionado se teme que o episódio possa ter relação com a disputa eleitoral ou representar uma preocupação para os próximos meses.
Haddad, novamente, evitou fazer uma acusação sem evidências.
“Eu não posso deixar de reportar o que aconteceu, porque sou um cidadão como qualquer um de vocês, que tem seus direitos e que não pode se sentir inseguro na sua cidade.”
O candidato afirmou ainda que conhece a rotina de policiamento na região onde mora e que nunca havia enfrentado situação semelhante.
“Eu convivo com… Eu tenho o bairro onde eu moro, é muito bem guardado, patrulhado, tenho boa relação com todos ali, nunca tive nenhum tipo de problema.”
E completou:
“Espero continuar não tendo nenhum tipo de problema.”
Governo de Tarcísio ainda não havia apresentado explicação
Até o momento do relato de Haddad e da publicação das primeiras informações sobre o episódio, não havia sido divulgada resposta pública do governo de São Paulo ou da Secretaria da Segurança Pública explicando a atuação da viatura ou informando se a ocorrência será investigada.
A ausência de uma explicação oficial deixa em aberto a principal questão do caso: por que uma viatura da Polícia Militar teria abordado o veículo em que Haddad chegava à sua residência e, segundo o relato apresentado, posteriormente acompanhado seu motorista?
Essa resposta dependerá da identificação da equipe policial, da localização da viatura, dos registros operacionais e, eventualmente, de imagens de câmeras públicas ou privadas existentes no trajeto.
O próprio Haddad afirmou que pretende aguardar uma explicação antes de tirar conclusões.
“Eu espero que não seja nada.”
E resumiu a razão pela qual decidiu registrar publicamente o episódio:
“Não é um procedimento habitual, né.”
O caso, portanto, permanece sem uma conclusão sobre a motivação da abordagem. O relato apresentado até agora é o de Haddad e de seu motorista, repassado também ao advogado do candidato.
A versão dos policiais envolvidos e a posição oficial do governo estadual serão fundamentais para esclarecer se houve uma abordagem de rotina, um erro de identificação, uma operação específica ou alguma outra circunstância ainda desconhecida.
Enquanto não houver essa explicação, qualquer conclusão sobre a intenção dos agentes seria prematura. O que está formalmente colocado é um pedido de esclarecimento diante de uma abordagem que, segundo o candidato Fernando haddad, “não foi uma abordagem padrão”.
SSP informou que vai investigar o caso
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) determinou que a Polícia Militar identifique as equipes que circulavam pela região onde o carro de campanha do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), foi seguido por uma viatura da corporação na noite dessa terça-feira (11/8).
O episódio veio a público nesta quarta-feira (12/8), quando Haddad relatou, durante entrevista a jornalistas, que o motorista do veículo teria sido abordado por policiais militares armados com fuzis após deixar o candidato em sua residência, na zona sul da capital.
A determinação da SSP busca esclarecer quais policiais estavam na região, identificar os agentes envolvidos e apurar as circunstâncias da abordagem. A investigação deverá apontar o que motivou a ação e se houve alguma irregularidade na conduta dos PMs.