A decisão do governador Tarcísio de Freitas de conceder a Ordem do Ipiranga ao presidente da Argentina, Javier Milei, antes da convenção nacional do PL, mostrou a falta de critérios adotados para a concessão da maior honraria do Estado de São Paulo.
Interlocutores do próprio partido viram a condecoração como “ridícula” e “imoral”. O Radar Brasileiro conversou com pelo menos três integrantes do Republicanos. Todos foram unânimes em dizer que Tarcísio “quer impor suas ideias sem ao menos consultar os colegas e lideranças”.
“O que eu posso dizer pra você que, entregar a maior honraria do Estado para um presidente que sequer fez algo por São Paulo, é no mínimo, imoral”, disse um dos integrantes da mesa diretora do Republicanos”.
Criada para reconhecer brasileiros e estrangeiros que tenham prestado serviços relevantes ao povo paulista, a Ordem do Ipiranga historicamente foi destinada a autoridades, cientistas, artistas, empresários, diplomatas e personalidades que mantiveram algum tipo de contribuição institucional, econômica, científica, cultural ou social relacionada ao Estado.
“Quais foram, concretamente, os serviços de excepcional relevância prestados por Javier Milei ao Estado de São Paulo que justificaram a concessão da Ordem do Ipiranga? Era mais fácil pegar um parlamentar nosso que já ajudou São Paulo inúmeras vezes. Eu perguntei pro governador: ‘(…) pra quê isso governador? Milei nem conhece São Paulo, nunca ajudou a gente. Não é melhor pegar alguém do nosso time, do nosso Estado que fez muito por nós?’“, disse um deputado estadual do republicanos inconformado com a condecoração.
No caso de Milei, a homenagem levanta um questionamento inevitável: quais contribuições concretas o presidente argentino prestou ao Estado de São Paulo que justificariam a concessão da principal condecoração paulista?
Até o momento, o governo paulista não apresentou uma relação pública de projetos, investimentos, acordos ou iniciativas lideradas por Milei que tenham produzido benefícios diretos e específicos para a população do estado.
A cerimônia ocorreu poucas horas antes da participação de Milei na convenção nacional do Partido Liberal (PL), evento de natureza eminentemente político-partidária. A proximidade entre os dois compromissos reforçou críticas de que uma honraria institucional do Estado possa ter sido utilizada em um contexto de forte simbolismo político.
A discussão não envolve apenas a figura do presidente argentino, mas também o significado da própria Ordem do Ipiranga. Por ser a maior distinção concedida pelo Governo de São Paulo, espera-se que seu uso esteja associado a contribuições amplamente reconhecidas ao interesse público paulista.
Especialistas em administração pública frequentemente destacam que honrarias oficiais cumprem o papel de reconhecer trajetórias ou serviços excepcionais. Quando a motivação da homenagem não é claramente demonstrada, abre-se espaço para questionamentos sobre eventual esvaziamento de seu valor institucional.
A controvérsia ganha força porque São Paulo possui milhares de pesquisadores, médicos, professores, policiais, bombeiros, lideranças sociais, empreendedores e servidores públicos que dedicam décadas de trabalho à população paulista e raramente recebem reconhecimento equivalente.
Nesse contexto, a homenagem a um chefe de Estado estrangeiro cuja relação direta com políticas públicas paulistas não foi detalhada pelo governo desperta críticas quanto à coerência entre os critérios previstos para a Ordem do Ipiranga e sua aplicação prática.
Mais do que uma homenagem individual, o episódio coloca em discussão o uso de símbolos oficiais do Estado. A principal honraria paulista pertence institucionalmente à população de São Paulo e, justamente por isso, sua concessão exige justificativas transparentes, objetivas e fundamentadas no interesse público.
Enquanto o governo defende a homenagem como um gesto institucional, críticos sustentam que a ausência de uma demonstração clara dos serviços prestados ao povo paulista transforma a condecoração em um ato predominantemente político, enfraquecendo o significado histórico da Ordem do Ipiranga e abrindo um precedente para que distinções de Estado sejam percebidas como instrumentos de alinhamento ideológico, e não como reconhecimento de contribuições efetivas à sociedade paulista.
DESCONFORTO DENTRO DO REPUBLICANOS
As críticas se concentram na finalidade da Ordem do Ipiranga, criada justamente para reconhecer brasileiros e estrangeiros por serviços relevantes prestados ao Estado de São Paulo e à sua população. Para os críticos da decisão, o governo ainda não apresentou quais contribuições concretas de Milei ao povo paulista justificariam a homenagem.
“O que eu posso te dizer é que, só quem concordou com isso aí foi o governador. Uma honraria para quem nunca pisou aqui pra ajudar. A gente precisa entender uma coisa. Apoio político ou ter os mesmos ideais não tem relação nenhuma em conceder a maior honraria do estado. Ele não deveria ter feito isso. Agora, já fez, né? O problema do governador é que ele não escuta as próprias lideranças”, disse mais um parlamentar inconformado.
Nos bastidores, o entendimento é que a cerimônia acabou assumindo um forte simbolismo político. A entrega da medalha ocorreu poucas horas antes da convenção nacional do PL, que oficializa a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, reforçando a percepção de que um ato institucional do Estado foi incorporado a uma agenda de alinhamento político entre lideranças da direita brasileira e argentina.