O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mudou o tom quando o assunto é vacinação. Mudou de novo? Sim, de novo.
Em 2022, durante a campanha que o levou ao Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio fazia questão de se apresentar como defensor das vacinas, mas também sustentava que o Estado não deveria obrigar a população a se imunizar. Em cima do carro de som, na Paulista, pegou o microfone e falou que as pessoas não eram obrigadas a se vacinar porque ninguém sabia ao certo se a vacina protegia mesmo a população.

Agora, em 2026, em plena disputa eleitoral e diante do retorno do sarampo ao Estado, a vacina passou a ocupar outro lugar no discurso do governador: virou argumento para apresentar sua gestão como responsável pelo aumento da cobertura vacinal.
Em entrevista à CNN, Tarcísio afirmou:
Tendencioso “Vamos pegar a tríplice viral, que tem a vacina do sarampo. A gente saiu de 78% de cobertura em 2022 para 94%, 95% agora em 26.”
A declaração é conveniente politicamente. O governador compara o índice de 2022 — ano em que assumiu o governo — com o cenário atual para apresentar a vacinação como uma conquista de sua administração. E nunca foi. Tarcísio de Freitas foi um dos milhares negacionistas espalhados pelo país.
O problema é que o próprio histórico de Tarcísio mostra que, quando o tema era politicamente sensível, seu discurso era outro.
Em 2022, Tarcísio dizia que vacina não deveria ser obrigatória
No debate entre Tarcísio e Fernando Haddad realizado pela Band durante a eleição de 2022, o então candidato foi questionado diretamente sobre sua posição em relação à vacinação.
A resposta é clara.
Tarcísio disse:
Tendencioso Mentiu “Nós acreditamos sim na vacina.”
Mas, logo depois, estabeleceu uma condição política importante:
Tendencioso Enganoso “Entendo que a vacina não deve ser obrigatória, a gente deve despertar essa consciência, e assim que nós vamos trabalhar.”
A declaração consta da íntegra do debate publicada pelo UOL.
A questão é outra: ele se posicionou contra a obrigatoriedade da imunização e defendeu que a decisão deveria ser por conscientização, não por exigência.
Essa diferença se tornou particularmente relevante quando o assunto chegou às crianças e adolescentes.
A carteira de vacinação também entrou na disputa

São Paulo já possuía, desde 2020, uma legislação que exige a apresentação da carteira de vacinação para matrícula de crianças e adolescentes nas escolas públicas e privadas.
A Lei Estadual nº 17.252 determina a apresentação da carteira no ato da matrícula e estabelece que ela deve estar atualizada com as vacinas obrigatórias previstas nos calendários infantil e adolescente.
A questão ganhou força durante a campanha de 2022, quando Tarcísio foi confrontado sobre a política de vacinação infantil.
A discussão não era meramente burocrática. A carteira de vacinação é justamente o instrumento que permite às escolas e ao poder público verificar se crianças e adolescentes estão com o calendário de imunização em dia.
E é aí que o discurso de “liberdade” utilizado por Tarcísio entra em choque com uma questão básica de saúde pública: criança não é um indivíduo isolado. Uma criança não vacinada pode se tornar elo de transmissão de doenças para outras crianças, inclusive aquelas que ainda não têm idade para receber determinadas doses ou que possuem contraindicações médicas.
Em 2023, Tarcísio sancionou lei contra exigência de comprovante
Já como governador, Tarcísio sancionou a Lei nº 17.629, de fevereiro de 2023, que proibiu a exigência de comprovante de vacinação contra a Covid-19 para acesso a locais públicos ou privados em São Paulo.
A medida voltou a circular nas redes sociais posteriormente com interpretações de que o governador teria acabado com a obrigatoriedade da vacinação infantil.
Não foi isso que a lei fez.
Uma checagem da AFP mostrou que a legislação proibiu a exigência do comprovante contra Covid-19 para acesso a determinados locais, mas não eliminou a obrigatoriedade da vacinação infantil nem a exigência da carteira para matrícula escolar. Tarcísio, inclusive, vetou um dispositivo que permitiria às famílias decidir exclusivamente se vacinariam ou não seus filhos.
Ainda assim, o gesto político foi significativo.
Ao sancionar a lei, Tarcísio afirmou:
Enganoso “Tomei a vacina, defendo sua importância e também defendo a liberdade.”
E prometeu:
Enganoso “Vamos reforçar as campanhas de conscientização e garantir que as doses sejam disponibilizadas a todos.”
Ou seja, novamente o governador procurava equilibrar a defesa da vacina com a bandeira da liberdade individual. Sempre por interesse próprio.
Agora, em ano eleitoral, a vacina virou vitrine
Três anos depois, a comunicação mudou a pedido de um marqueteiro para não perder voto.
A vacinação passou a ser apresentada pelo governador como indicador positivo de sua administração.
A mudança ocorre justamente em um ano eleitoral.
Tarcísio é candidato à reeleição e está estruturando sua campanha para 2026. O Republicanos contratou o publicitário Pablo Nobel, responsável pela campanha vitoriosa do governador em 2022, para trabalhar na estratégia eleitoral.
Nobel assinou contrato com o partido em outubro de 2025 e passou a atuar na análise de cenários e na definição de prioridades para a campanha. A publicação afirma que o trabalho será adaptado conforme a definição do caminho eleitoral de Tarcísio.
A própria CNN noticiou, em novembro de 2025, que o governador havia acertado detalhes da campanha de 2026 com seu marqueteiro.
É nesse contexto que a mudança de discurso precisa ser analisada.
Pablo Nobel teria dado uma ordem específica para que Tarcísio mudasse sua posição sobre vacinação.
Mas existe algo que pode ser comprovado: a mudança de ênfase ocorre em plena construção da campanha eleitoral, sob orientação de uma equipe profissional de comunicação e estratégia que tem entre suas funções justamente definir prioridades e mensagens políticas.
Em 2022, o discurso enfatizava a liberdade e a rejeição à obrigatoriedade.
Em 2026, o governador enfatiza percentuais de cobertura e apresenta a vacinação como resultado de governo.
E o sarampo voltou
A mudança não ocorre no vazio.
São Paulo voltou a enfrentar casos de sarampo.
A doença, altamente contagiosa, havia sido eliminada como circulação endêmica no Brasil, mas voltou a aparecer em razão de surtos e da queda da cobertura vacinal em diferentes períodos.
Em 2026, o cenário paulista voltou a preocupar as autoridades sanitárias, levando à ampliação das ações de vacinação.
Isso torna especialmente relevante o discurso político sobre vacinas.
Quando uma autoridade pública fala sobre imunização, sua responsabilidade não se limita à disputa eleitoral. A mensagem chega a milhões de famílias.
E esse é justamente o ponto mais delicado da atual mudança de Tarcísio.
A extrema direita ajudou a transformar vacina em guerra política
A vacinação infantil passou a ser tratada por parte da extrema direita brasileira como uma questão de liberdade individual e de confronto com o Estado.
Durante a pandemia de Covid-19, esse discurso ganhou enorme dimensão nas redes sociais.
A consequência é que uma questão essencialmente sanitária — proteger crianças contra doenças evitáveis — passou a ser contaminada pela disputa política.
O sarampo não pergunta se uma família é de esquerda ou de direita.
Não pergunta se o pai apoia Lula, Bolsonaro ou Tarcísio.
E também não respeita discursos eleitorais.
A cobertura vacinal precisa ser suficientemente alta para interromper a circulação do vírus. Quando a proteção coletiva cai, doenças que pareciam controladas podem voltar.
O discurso que muda conforme a conveniência
A contradição política, portanto, não está em Tarcísio ter defendido vacinas em 2022 e continuar defendendo-as agora.
Está no fato de que o enquadramento político mudou.
Em 2022, diante de uma eleição em que precisava dialogar com o eleitorado bolsonarista, Tarcísio dizia que a vacina não deveria ser obrigatória e que era necessário “despertar essa consciência”.
Em 2023, já governador, sancionou uma lei que retirou a exigência do comprovante de vacinação contra Covid-19 para acesso a locais públicos e privados.
Em 2026, quando precisa apresentar resultados de governo ao eleitor, passou a destacar que a cobertura da tríplice viral teria saltado de 78% para 94% ou 95%.
É uma mudança de narrativa que coincide com a campanha eleitoral.
E a pergunta que fica não é se Tarcísio é ou não vacinado.
Ele próprio já disse a contragosto: “Tomei a vacina”.Verdadeiro Tendencioso
A pergunta é outra:
por que a vacinação é tratada como questão de liberdade quando a política precisa agradar a um determinado eleitorado e como conquista de governo quando chega a hora de pedir novamente o voto?
Enquanto o debate político muda de acordo com o calendário eleitoral, o sarampo continua sendo uma doença que pode ser evitada com vacinação.
Para as famílias, a questão é muito mais simples do que para os marqueteiros: criança protegida é criança vacinada.
E, diante da volta de doenças que deveriam estar sob controle, transformar vacina em instrumento de guerra ideológica pode custar caro — principalmente para quem não tem idade ou condição de escolher por conta própria.