Durante a convenção partidária que reuniu aliados do governador Tarcísio de Freitas, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, voltou a atacar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao afirmar que ele teria criado um suposto “bolsa crack”.
A declaração, feita em tom de deboche, retoma uma narrativa amplamente difundida por adversários políticos, mas que já foi desmentida por inúmeras agências independentes de checagem de fatos. O Radar Brasileiro mostra como a narrativa de Derrite é ultrapassada e mentirosa.
O programa mencionado era o De Braços Abertos, implantado pela Prefeitura de São Paulo na gestão Haddad em 2014. A iniciativa oferecia moradia provisória, alimentação, atendimento de saúde e oportunidades de trabalho para pessoas em situação de extrema vulnerabilidade e dependência química na região da Cracolândia.
Em nenhum momento o programa previa pagamento para compra ou consumo de drogas, como sugere a expressão “bolsa crack”, considerada uma distorção do seu funcionamento.
Especialistas em saúde pública ressaltam que o programa seguia a política de redução de danos, estratégia adotada em diversos países para enfrentar a dependência química.
Embora sua eficácia tenha sido objeto de debate e críticas legítimas, não há base factual para afirmar que se tratava de um benefício destinado ao consumo de drogas.
Ao recorrer novamente a uma acusação já contestada por verificadores de fatos, Derrite privilegia um discurso de impacto político mentiroso em detrimento da precisão das informações.
Em vez de discutir os resultados, os méritos ou as limitações das políticas públicas implementadas na época, a declaração simplifica um tema complexo e contribui para a disseminação de desinformação.
Também é incorreto afirmar que a prefeitura simplesmente “pagava usuários para consumir drogas”. A remuneração estava vinculada à participação em frentes de trabalho e integrava um conjunto de ações sociais e de saúde. O programa previa acompanhamento permanente por profissionais da rede pública e encaminhamento para tratamento quando aceito pelo beneficiário. (Prefeitura de São Paulo)
O episódio evidencia um padrão recorrente no debate político brasileiro: a substituição da discussão baseada em evidências com fatos reais por slogans e acusações que geram repercussão imediata, mas pouco contribuem para o esclarecimento da população.
Em um ambiente democrático, críticas a adversários são legítimas, porém devem ser acompanhadas de fatos verificáveis e contextualização adequada, especialmente quando envolvem temas sensíveis como saúde pública e segurança.
Independentemente das divergências políticas, o compromisso com a verdade é indispensável para que o debate público seja pautado por informações corretas, e não por narrativas que distorcem políticas públicas para produzir efeito eleitoral. O Radar Brasileiro mantém o compromisso com a verdade.