Tarcísio de Freitas disse que a segurança no Estado de São Paulo está controlada. Mentira! O Radar Brasileiro mostra a partir de agora como o crime organizado chegou ao interior paulista.
“Não há um levantamento oficial que determine quantas cidades do interior paulista estão sob domínio direto de facções criminosas. Mas investigações do Ministério Público já identificaram uma disputa territorial entre PCC e Comando Vermelho em pelo menos quatro importantes regiões do interior — Sorocaba, Campinas, Piracicaba, Limeira, Araras e Rio Claro — enquanto operações policiais alcançaram ao menos mais nove municípios ligados à investigação.”, disse Paulo Sérgio de Oliveira e Costa procurador-geral de Justiça.
O mapa do tráfico de drogas em São Paulo mudou. Durante décadas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) consolidou uma posição dominante no mercado ilegal paulista e transformou o interior do Estado em uma das principais áreas de circulação, armazenamento e distribuição de entorpecentes. Agora, porém, a hegemonia deixou de ser absoluta.
O Comando Vermelho (CV), uma das maiores organizações criminosas do país, avançou sobre áreas estratégicas e passou a disputar território, rotas e negócios com o PCC. O fenômeno é particularmente evidente no interior paulista, onde investigações do Ministério Público apontam uma disputa territorial violenta entre as duas facções.
O resultado é uma equação que desafia a propaganda oficial de segurança feita por Tarcísio de Freitas e Derrite: mais drogas apreendidas, operações policiais frequentes com pouco efetivo, investigações contra grandes organizações criminosas paralisadas ou a passos lentos e, simultaneamente, uma guerra cada vez mais sofisticada pelo controle das rotas do tráfico no interior do Estado.

O Radar Brasileiro obteve uma informação oficial não repassada pela própria SSP. Segundo dados da própria Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, 79 toneladas das 115,8 toneladas de drogas apreendidas no Estado no primeiro semestre de 2025 foram encontradas no interior. Isso representa aproximadamente 70% de todo o volume apreendido em território paulista.
Uma notícia que o governador de São Paulo prefere não falar, justamente, para não virar teto de vidro durante a campanha eleitoral.
A Rota Caipira: o corredor que vale bilhões de dólares
O interior paulista ocupa uma posição estratégica na logística nacional do tráfico.
A chamada “Rota Caipira” conecta regiões de fronteira, especialmente áreas próximas ao Paraná e ao Paraguai, ao interior de São Paulo, à capital e, posteriormente, ao Porto de Santos.
Segundo a SSP, uma das rotas identificadas parte de cidades fronteiriças, passa pelo Paraná e chega ao interior paulista. Em um caso investigado em Campinas, um caminhão teria sido fretado em Ciudad del Este, no Paraguai, e carregado com drogas em Foz do Iguaçu antes de seguir para São Paulo.
O interior, portanto, não é apenas uma área de passagem. É uma peça central da logística do tráfico.
É por essas rodovias que grandes carregamentos de maconha e cocaína entram no Estado, são armazenados, distribuídos e, em alguns casos, encaminhados para a capital e posteriormente para o Porto de Santos.
A dimensão internacional do negócio ajuda a explicar a importância estratégica dessas rotas: a própria SSP afirma que parte da droga que passa por São Paulo segue para o porto e depois para mercados da África, Ásia e Europa.
O PCC já não está sozinho
O PCC continua sendo uma das organizações criminosas mais estruturadas do país e mantém forte presença em São Paulo. O que mudou é a existência de uma concorrência mais agressiva.
Investigações do Ministério Público de São Paulo identificaram uma disputa entre PCC e Comando Vermelho por áreas do interior e do litoral paulista.

Em janeiro de 2026, uma operação do GAECO denominada Keravnos foi deflagrada contra integrantes das duas facções envolvidos em uma disputa territorial nas regiões de Piracicaba, Limeira, Araras e Rio Claro.
O próprio Ministério Público classificou a situação como uma “violenta disputa territorial”. As investigações envolveram episódios de extrema violência, incluindo homicídios e corpos carbonizados.
O dado é relevante porque desmonta a ideia de que o interior paulista seria apenas uma zona operacional controlada por uma única organização. Errado! O então secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, foi avisado sobre o avanço das duas facções e pouco fez para conter o avanço criminoso.
A realidade é mais complexa: diferentes grupos disputam mercados, rotas, fornecedores, pontos de distribuição e capacidade de influência.
Piracicaba, Limeira, Araras e Rio Claro no centro da disputa
A região de Piracicaba tornou-se um dos exemplos mais claros dessa transformação.
A Operação Keravnos, conduzida pelo Ministério Público, teve como alvo lideranças do PCC e do Comando Vermelho relacionadas à disputa pela Rota Caipira.
Não se trata, portanto, de uma hipótese baseada apenas em rumores ou relatos policiais isolados. A disputa territorial foi objeto de investigação formal do Ministério Público paulista.
O avanço do CV representa uma mudança importante na dinâmica criminal paulista.
Durante anos, o PCC conseguiu estabelecer mecanismos próprios de controle sobre o comércio de drogas e sobre integrantes de outras organizações. A entrada mais agressiva de um rival nacionalmente poderoso aumenta o potencial de conflitos e dificulta a atuação das forças de segurança.
O número de apreensões revela o tamanho do problema
Existe uma contradição aparente nos números.
De um lado, o governo apresenta grandes apreensões como demonstração de eficiência policial.
De outro, o volume encontrado mostra justamente a dimensão da estrutura que continua operando.
No primeiro semestre de 2025, o interior concentrou cerca de 70% das drogas apreendidas em todo o Estado. Foram 79 toneladas de um total de 115,8 toneladas. O volume apreendido no Estado também cresceu em relação ao ano anterior.
Em janeiro de 2026, o interior voltou a responder por mais da metade das drogas apreendidas no Estado: foram 7,7 toneladas de um total de 13,6 toneladas.
A pergunta que esses números colocam não é apenas quantas toneladas a polícia conseguiu retirar das ruas.
É também: quantas toneladas conseguiram passar?
Polícia enxugando gelo?
Sim. A expressão pode parecer dura, mas traduz uma discussão fundamental.
A polícia consegue apreender toneladas de drogas, prender transportadores e desarticular células criminosas. Porém, enquanto a estrutura financeira e logística das organizações permanece funcionando, novos carregamentos substituem os anteriores.
É o clássico problema de combater o varejo sem destruir a cadeia econômica. A polícia pouco equipada faz o que pode.
Prender o motorista de um caminhão carregado de maconha não significa necessariamente atingir o financiador da operação. Apreender cocaína não significa necessariamente descobrir quem pagou pelo carregamento. Prender um vendedor não significa atingir quem lava o dinheiro.
O combate efetivo ao crime organizado exige chegar ao dinheiro, às empresas utilizadas para lavagem de capitais, aos operadores financeiros, aos fornecedores de armas, aos responsáveis pela logística e às estruturas de corrupção.
O caso do PCC demonstra justamente essa complexidade.
Quando o crime passa a caçar quem o investiga
A situação alcançou um nível ainda mais grave quando integrantes do Ministério Público passaram a ser alvos de planos de execução.
Um dos casos mais conhecidos é o do promotor Lincoln Gakiya, integrante do GAECO e histórico investigador do PCC. Ele recebeu a primeira ameaça de morte em 2005 e vive sob proteção policial há anos.

Em outubro de 2025, uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil revelou um plano do PCC para atacar autoridades. Segundo a investigação, integrantes de uma célula criminosa monitoravam a rotina de possíveis vítimas e realizavam levantamentos sobre seus hábitos e familiares.
Gakiya estava entre os alvos.
O caso revela uma inversão assustadora: o Estado não está apenas perseguindo organizações criminosas; algumas dessas organizações passaram a estudar a rotina de integrantes do próprio Estado para tentar eliminá-los.
Recentemente, outro promotor do GEACO quase foi executado em Campinas por um plano imposto pelo PCC.
Uma emboscada contra um promotor
O problema não ficou restrito a ameaças.
Em agosto de 2025, dois empresários foram presos em Campinas sob suspeita de financiar um plano do PCC para assassinar o promotor Amauri Silveira Filho, do Ministério Público de São Paulo.
Segundo as investigações divulgadas à época, os suspeitos teriam financiado a compra de carros e armas que seriam utilizadas em uma emboscada.
O objetivo, segundo o Ministério Público, seria interromper investigações do GAECO relacionadas à atuação do PCC em Campinas e região, incluindo tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e organização criminosa armada.
Não é apenas uma ameaça contra um indivíduo.
É uma tentativa de intimidar a própria estrutura do Estado encarregada de investigar o crime organizado.
O problema chega ao governo Tarcísio-Derrite
É nesse ponto que a discussão política precisa ser colocada.
A segurança pública é uma das principais bandeiras do governo Tarcísio de Freitas, com Guilherme Derrite à frente da Secretaria da Segurança Pública.
A gestão “tarcisiana” destaca aumento do efetivo, tecnologia, inteligência, integração de bases de dados e programas como a Muralha Paulista. No debate entre Tarcísio e Fernando Haddad, o governador voltou a defender a utilização de tecnologia e inteligência como instrumentos de combate à criminalidade.
Tarcísio usou o mesmo discurso e não convenceu. Ele sempre fala que vai combater, mas a realidade é outra. São Paulo está literalmente sem segurança para conter a Rota Caipira.
O problema é que tecnologia e grandes apreensões não eliminam, por si só, a capacidade operacional das facções.
Os fatos revelados pelo próprio aparato de investigação do Estado mostram uma realidade muito mais preocupante.
Enquanto o governo finge que a segurança está melhorando, o Ministério Público investiga uma guerra territorial entre duas das maiores facções brasileiras no interior paulista.
Enquanto o governo comemora apreensões recordes, o interior concentra aproximadamente 70% das drogas apreendidas.
Enquanto o Estado anuncia pouco monitoramento, integrantes do crime organizado conseguem estruturar planos para monitorar e atacar autoridades.
É justamente essa contradição que precisa ser discutida.
Tarcísio disse que a segurança está sob controle?
Será que está mesmo? No debate eleitoral realizado pela Band, Tarcísio apresentou uma avaliação positiva de sua política de segurança e destacou investimentos em tecnologia, integração de sistemas e melhora na sensação de segurança.
Segundo o governador, a gestão trabalha para devolver a sensação de segurança à população à medida que os indicadores cedem.
Mas dizer que a segurança está “controlada” exige muito mais do que apresentar indicadores positivos de determinados crimes.
O interior paulista mostra uma realidade que não pode ser ignorada.
Existe disputa territorial entre PCC e Comando Vermelho.
Existe uma rota de tráfico que movimenta grandes quantidades de drogas.
Existem operações do GAECO contra as duas facções.
Existem ameaças contra promotores.
Existem planos de execução de autoridades.
Existe uma estrutura criminosa capaz de movimentar drogas, armas, dinheiro e pessoas por centenas de quilômetros.
Por isso, a afirmação de que a situação estaria simplesmente “sob controle” pode ser confrontada pelos próprios acontecimentos investigados pelas autoridades.
Não significa afirmar que todas as modalidades de crime estejam aumentando ou que o Estado tenha perdido completamente a capacidade de resposta. Os dados mostram, inclusive, operações policiais expressivas.
O problema é outro: a capacidade de resposta do Estado não pode ser confundida com controle do território pelo Estado.
O paradoxo da segurança paulista
São Paulo vive um paradoxo.
A polícia apreende mais drogas.
Mas o tráfico continua abastecendo as cidades. Cresce.
A polícia realiza operações contra facções. E o Governador acha que tá tudo ótimo.
Mas novas células continuam aparecendo. E o Governador minimiza a situação.
O Ministério Público prende integrantes do crime organizado.
Mas seus próprios promotores precisam de proteção contra planos de assassinato. O Estado pouco faz.
O governo investe em tecnologia?
Mas organizações criminosas continuam disputando rotas estratégicas.
O interior deixou de ser coadjuvante
Durante muito tempo, o debate sobre segurança em São Paulo ficou concentrado na capital e na região metropolitana.
Os dados da Rota Caipira mostram que isso não é mais suficiente.
Campinas, Piracicaba, Limeira, Araras, Rio Claro, Sorocaba, São José dos Campos e outras regiões do interior estão inseridas em uma engrenagem criminosa muito maior.
Em janeiro de 2026, por exemplo, São José dos Campos e Sorocaba lideraram as apreensões no interior.
O interior paulista não é apenas o lugar onde a polícia encontra drogas.
É parte da infraestrutura logística do crime organizado.
A segurança virou a insegurança de todos
O discurso oficial pode apontar queda de determinados indicadores, aumento de apreensões e expansão da tecnologia.
Mas a segurança pública precisa ser medida também pela capacidade do Estado de impedir que organizações criminosas disputem territórios, controlem rotas e ameacem autoridades.
Quando duas grandes facções passam a disputar uma rota estratégica dentro do Estado mais rico do país, o problema deixa de ser apenas policial.
É institucional.
Quando promotores do GAECO precisam viver sob escolta porque são alvos de planos de assassinato, o problema deixa de ser restrito ao mundo do crime.
É uma ameaça direta ao Estado.
E quando grandes carregamentos continuam percorrendo as rodovias paulistas apesar das operações, fica evidente que prender carregadores e apreender drogas não basta.
A pergunta que fica para o governo Tarcísio de Freitas e para o secretário Guilherme Derrite é simples, mas incômoda:
São Paulo está realmente controlando o crime organizado ou apenas reagindo a ele?
Os números das apreensões mostram uma polícia ativa e quase nada equipada para bater de frente com o armamento das facções.
As operações do GAECO mostram um Ministério Público atuante. Mas a disputa entre PCC e Comando Vermelho, a dimensão da Rota Caipira e os planos de execução contra autoridades mostram que o crime organizado continua tendo capacidade de adaptação, financiamento e reação.
O Mapa do Gaeco mostra que nos últimos três anos da gestão Tarcísio de Freitas as facções conseguiram dominar quase uma centena de cidades do interior paulista.
É por isso que a discussão eleitoral não pode terminar na apresentação de números positivos que não retratam a realidade.
A população precisa saber se o Estado está vencendo a guerra contra o crime organizado — ou se está apenas enxugando gelo.
Porque, quando o crime disputa território, controla rotas, movimenta toneladas de drogas e passa a planejar a morte de quem o investiga, a sensação de segurança deixa de ser uma questão de discurso.
A segurança virou a insegurança de todos.