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O CANDIDATO BBB: FLÁVIO BOLSONARO É DOS BANCOS, DAS BETS E DOS BILIONÁRIOS

Política

Cortes de até R$ 300 bilhões apresentados ao mercado financeiro, propostas que podem enfraquecer direitos trabalhistas, promessa de privatizar 95% das estatais e relações com empresários investigados compõem o retrato de uma candidatura que levanta uma pergunta central: quem pagará a conta do projeto econômico de Flávio Bolsonaro?

Reportagem especial | Radar Brasileiro

Flávio Bolsonaro é o candidato BBB: bom para as bets, bom para os bilionários e bom para os bancos. Para o trabalhador, a promessa é outra: jornada flexível, exaustiva, remuneração por hora, redução do papel dos sindicatos e um ajuste fiscal que pode atingir a Previdência, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), a saúde e a educação.

O slogan BBB resume a principal contradição da candidatura: enquanto Flávio procura conquistar a confiança de banqueiros, grandes empresários e investidores, suas propostas econômicas podem transferir parte dos custos do ajuste para quem depende do salário, da aposentadoria, dos serviços públicos e da proteção da legislação trabalhista.

Não se trata apenas de retórica eleitoral. O histórico de votações do senador, as medidas que sua equipe econômica apresentou ao mercado e as propostas divulgadas durante a campanha permitem examinar os efeitos concretos desse projeto.

Em paralelo, reportagens sobre suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro e o advogado Willer Tomaz levantaram questões que exigem esclarecimentos públicos — sem que isso autorize transformar suspeitas em condenações antecipadas.

A investigação a seguir está organizada em três frentes: bancos, bets e bilionários. Em cada uma delas, o ponto central é confrontar o discurso de Flávio com suas propostas, decisões políticas e relações empresariais documentadas.

O AJUSTE PRA SAIR DO BOLSO DO TRABAHADOR

O primeiro B do candidato BBB está na política econômica apresentada por sua equipe a empresários e representantes do mercado financeiro. O plano discutido prevê um corte de despesas públicas estimado em R$ 250 bilhões a R$ 300 bilhões.

O valor não aparece como uma medida detalhada e formalmente assumida em todos os seus aspectos no programa registrado, e a campanha ainda precisa esclarecer como executaria o ajuste.

As alternativas discutidas incluem mudanças nas regras de reajuste da Previdência e do BPC e alterações nos pisos constitucionais de saúde e educação. Essas medidas atingiriam áreas que sustentam a vida cotidiana de milhões de brasileiros.

O BPC garante um salário mínimo mensal a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência que atendem aos critérios legais. A Previdência protege aposentados e pensionistas. Os pisos constitucionais ajudam a assegurar recursos para serviços públicos essenciais.

Se o objetivo é cortar centenas de bilhões, a pergunta que Flávio precisa responder é direta: quais despesas serão reduzidas, quem perderá recursos e quais serviços deixarão de receber investimentos?

A RELAÇÃO COM A FARIA LIMA E A TROCA DE FAVORES

A agenda não surgiu isoladamente. Em fevereiro de 2026, Flávio apresentou suas propostas econômicas em evento do BTG Pactual, diante de empresários e investidores, e afirmou que pretendia privatizar 95% das empresas estatais.

Em agosto, o senador também participou de um jantar com banqueiros e empresários em São Paulo, organizado para aproximar sua candidatura de setores do mercado financeiro. A movimentação demonstra a prioridade dada à construção de apoio entre grandes agentes econômicos.

Candidato a presidência da república, Flávio Bolsonaro, em almoço com banqueiros e empresários da Faria Lima 

E é aí que surge a contradição política: o mercado recebe promessas de cortes expressivos, enquanto aposentados, trabalhadores e usuários dos serviços públicos ainda não têm uma explicação completa sobre como o plano afetaria sua renda e seus direitos.

Flávio praticamente ‘vendeu a alma’ para a Faria Lima. Ofereceu tudo e mais um pouco para banqueiros e empresários.

O projeto também remete às políticas de austeridade defendidas pelo presidente argentino Javier Milei. A experiência da Argentina mostra por que o resultado de um ajuste não pode ser medido apenas pelo comportamento dos indicadores financeiros.

De acordo com dados do próprio governo Milei, a pobreza argentina subiu para 32,3% no primeiro semestre de 2026, ante 28,2% no período anterior comparável, enquanto o desemprego aumentou e o emprego privado recuou. O país também enfrentou dificuldades das famílias para pagar despesas essenciais.

O próprio histórico do governo Jair Bolsonaro oferece elementos para avaliar as prioridades da família. Em 2021, o orçamento destinado à faixa de menor renda do Minha Casa, Minha Vida foi drasticamente reduzido, levando o setor da construção a alertar para a paralisação de obras habitacionais.

O programa havia sido substituído pelo Casa Verde e Amarela, com mudanças que atingiram a política habitacional voltada às famílias mais pobres.

Naquele mesmo governo, o Farmácia Popular também sofreu cortes orçamentários.

BANCO MASTER E R$ 134 MILHÕES PARA O FILME DARK HORSE

A denúncia revelada nesta quarta-feira (14) pela Polícia Federal aponta que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) figurava como “usuário master” de uma conta bancária vinculada à Alcazar Holdings, empresa offshore registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, território conhecido por seu regime fiscal favorável.

Segundo informações divulgadas com base em documentos analisados pela Polícia Federal (PF), o registro bancário foi encontrado em dados extraídos do iCloud do advogado Willer Tomaz, investigado no caso de fraudes em descontos de aposentadorias e pensões do INSS.

A empresa detinha participação de 33,33% na estrutura societária de uma aeronave executiva utilizada por Flávio em uma viagem aos Estados Unidos, em janeiro de 2025. Os investigadores buscam esclarecer a natureza da ligação entre o senador, a offshore e as empresas relacionadas ao avião.

A relação de Flávio com o sistema financeiro também ganhou destaque por causa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cuja trajetória passou a ser alvo de investigações.

Em maio de 2026, mensagens, áudios e documentos apontavam uma negociação entre Flávio e Vorcaro para financiar Dark Horse, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.

Segundo a reportagem, a negociação envolvia US$ 24 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época. Documentos apresentados pelo veículo indicavam que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, haviam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

O segundo B do candidato BBB envolve a indústria de apostas on-line, um mercado que movimenta bilhões de reais e cujo funcionamento levanta questões sobre endividamento das famílias, fiscalização, tributação e prevenção à lavagem de dinheiro.

Flávio tem defendido posições que mudaram ao longo do debate público. Em declarações sobre as bets, criticou a política do governo Lula e distinguiu os cassinos on-line das apostas esportivas, admitindo que estas poderiam continuar sob regras específicas.

WILLER TOMAZ, AMIGO DE FLÁVIO E AMANTE DO TIGRINHO

Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro, registrou cifras bilionárias em jogos na Blaze

Em outubro, e-mails obtidos pelo Radar Brasileiro revelados pela Polícia Federal que indicariam que uma conta bancária no Santander, identificada com o nome de Flávio, estava vinculada à estrutura bancária do advogado Willer Tomaz.

Segundo a reportagem, uma funcionária do advogado solicitou ao banco a desvinculação de Flávio em maio de 2025. Ambos negaram ter mantido relação financeira.

A informação é relevante porque Tomaz é investigado em apurações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes relacionadas ao INSS.

A existência de uma vinculação bancária, por si só, não comprova que Flávio tenha participado de qualquer fraude. Mas é legítimo cobrar esclarecimentos sobre a natureza da conta, as autorizações existentes, o período da vinculação e as operações eventualmente realizadas.

documentos judiciais relacionados à plataforma Blaze registram movimentações de apostas de bilhões de reais. Uma das apurações apontou R$ 6,6 bilhões em apostas ao longo de 18 meses.

Outra frente envolve a RioPag, empresa de intermediação de pagamentos ligada, segundo a PF, à cadeia empresarial associada a Tomaz.

A companhia acumulou R$ 187,8 milhões em receitas de intermediação de pagamentos de apostas vinculadas à Loterj entre junho de 2023 e agosto de 2026. A PF atribuiu à empresa 80,6% das receitas de intermediação apuradas no período. Tomaz nega ser sócio ou gestor da RioPag.

MAIS DINHEIRO PARA BILIONÁRIOS

O terceiro B do candidato BBB é o que conecta as demais peças do projeto: uma política econômica que amplia o espaço do setor privado, promete privatizações em larga escala e propõe mudanças nas relações de trabalho.

O discurso é de liberdade econômica. A pergunta é se essa liberdade será distribuída igualmente entre patrões e empregados.

Privatizar 95% das estatais: quem ganha e quem perde?

Em fevereiro de 2026, durante um evento do BTG Pactual, Flávio Bolsonaro afirmou que pretendia privatizar 95% das empresas estatais. A promessa foi noticiada pelo NeoFeed e pela Exame como parte de uma agenda de redução da presença do Estado na economia.

O percentual é expressivo, mas há uma lacuna importante: o candidato não apresentou, nas informações divulgadas, uma lista completa das empresas que seriam vendidas, um cronograma de desestatização ou uma estimativa detalhada dos valores envolvidos.

Em maio de 2026, Flávio classificou a discussão sobre o fim da escala 6×1 como inoportuna e eleitoreira e defendeu uma alternativa baseada no pagamento por hora trabalhada. Em outubro, continuou criticando a proposta de redução da jornada sem perda salarial e defendeu o modelo alternativo articulado pelo senador Rogério Marinho, do PL.

Paulo Skaf representa a resistência do empresariado à redução da jornada de trabalho. Ao se posicionar contra o fim da escala 6×1, ele se coloca ao lado dos patrões que querem preservar o modelo atual, no qual milhões de trabalhadores passam seis dias por semana trabalhando e têm apenas um dia de descanso.

Na prática, essa posição protege os interesses de quem lucra com a força de trabalho alheia, enquanto o trabalhador continua sacrificando o tempo com a família, o lazer e a própria saúde.

A proposta de redução da jornada defendida pelo governo Lula prevê passar de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial.

Já a PEC alternativa defendida por Flávio permite contratos com remuneração proporcional às horas efetivamente trabalhadas e prevê a possibilidade de o contrato individual prevalecer sobre instrumentos de negociação coletiva, tirando os benefícios do trabalhador e garantias já conquistadas.

Na prática, o trabalhador vai ganhar menos, trabalhar mais e não terá os dois dias de descanso, além de perder praticamente os direitos trabalhistas.

Um trabalhador com contas fixas, aluguel, alimentação e filhos não tem necessariamente a mesma liberdade de negociação de uma empresa que decide quantas horas de serviço precisa contratar.

Flávio Bolsonaro construiu uma candidatura que busca o apoio do mercado financeiro, defende uma ampla redução da presença do Estado na economia e apresentou propostas que alterariam profundamente as relações de trabalho. Por isso, o slogan BBB resume uma crítica política que precisa ser julgada à luz dos fatos: bom para as bets, bom para os bilionários e bom para os bancos — mas quais garantias concretas o projeto de Flávio oferece a quem vive do salário, depende da aposentadoria e precisa dos serviços públicos?

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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