Flávio Bolsonaro deu a largada oficial à campanha presidencial neste domingo (16), em Copacabana, no Rio de Janeiro, mas o evento ficou muito distante da mobilização que o senador havia prometido nas redes sociais.
A expectativa de um grande ato, apresentado antecipadamente pelo próprio candidato como um possível “recorde de público”, não se confirmou na dimensão esperada.
Flávio Bolsonaro chegou a se comparar com o filho do Pelé:
“Sei que pareço com ele [Jair Bolsonaro]. Mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”, discursou.
A praia de Copacabana é um dos principais símbolos políticos do bolsonarismo e foi escolhida justamente para tentar reproduzir a atmosfera das grandes manifestações que marcaram a trajetória de Jair Bolsonaro.
“Eu te pergunto: quem tem soberania aqui no Complexo do Alemão? O governo ou o Comando Vermelho? Um governo que não tem a capacidade e não tem também a vontade de defender a soberania de quem mora aqui no Brasil não tem condições de manter a soberania sobre o seu próprio território. Ou tá fechado com o crime organizado, ou é muito incompetente.”
Reportagens que acompanharam o lançamento, porém, registraram uma mobilização bem menor do que a associada aos grandes atos do ex-presidente. Muita gente acabou se dispersando e indo embora durante o discurso de Flávio Bolsonaro.

O contraste chama atenção porque o lançamento de Flávio ocorre em um momento em que a campanha tenta transformar o filho mais velho de Jair Bolsonaro no herdeiro eleitoral do pai.
Em vez de apresentar uma imagem completamente própria, o evento foi construído em torno dos símbolos, discursos e referências ao ex-presidente.
Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado, voltou a ocupar o centro da campanha do filho.
Flávio reproduziu inclusive uma mensagem gravada pelo pai durante o ato. A estratégia reforça a tentativa de manter mobilizada a base bolsonarista em torno do sobrenome da família.
Ataques ao STF e defesa do pai
O discurso de Flávio teve como um dos principais alvos o Supremo Tribunal Federal. O candidato voltou a explorar a narrativa de perseguição contra o pai e procurou apresentar Jair Bolsonaro como vítima do sistema político e judicial brasileiro.
A defesa do ex-presidente tornou-se um dos eixos centrais da candidatura. Em julho, na convenção que oficializou seu nome pelo PL, Flávio já havia definido o pai como “o maior e mais injustiçado líder político brasileiro” e prometido honrar seu legado.
A campanha, portanto, começa com uma equação política bastante clara: Flávio tenta disputar a Presidência apresentando-se como continuidade do bolsonarismo, ao mesmo tempo em que precisa convencer o eleitor de que é capaz de construir uma identidade própria.
Trump como símbolo eleitoral
Outro elemento recorrente na estratégia de Flávio é a relação com Donald Trump. O senador transformou o relacionamento com o presidente americano em uma das marcas de sua campanha e tenta se apresentar como o candidato brasileiro mais próximo do líder republicano.
Antes mesmo do início oficial da campanha, Flávio já havia afirmado que o Brasil tinha, segundo ele, um presidente que havia perdido a confiança de Trump.
“Temos sentado hoje na cadeira de presidente alguém que simplesmente conseguiu ganhar a desconfiança do governo americano”, declarou em junho.
A associação com Trump voltou a aparecer no discurso eleitoral como uma tentativa de diferenciar Flávio dos demais candidatos da direita. A mensagem é a de que, entre os nomes que disputam o Planalto, ele seria o político com maior capacidade de interlocução direta com Washington.
Segurança no centro do discurso
Apesar da dimensão nacional da candidatura, o lançamento também foi fortemente concentrado em segurança pública. Flávio prometeu endurecer o combate ao crime organizado e defendeu medidas como classificar organizações criminosas como terroristas.
O discurso, entretanto, ficou mais concentrado em críticas ao governo Lula, ao STF e na defesa do legado de Jair Bolsonaro do que na apresentação detalhada de uma agenda de governo.
É importante fazer uma distinção: Flávio já possui um plano de governo protocolado e tem 76 páginas. O que não ocorreu no ato de Copacabana foi uma apresentação desse programa ao público. Flávio esqueceu completamente das propostas para o País.
Um lançamento que expõe o desafio da campanha
O início oficial da corrida presidencial deixa evidente o principal desafio de Flávio Bolsonaro: transformar a força do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura presidencial capaz de ultrapassar a militância mais fiel e alcançar o eleitorado que não participa dos atos bolsonaristas.
A escolha de Copacabana foi simbólica. Na largada tímida e com o carro quase parando, o candidato apresentou menos um novo projeto político para o país e mais uma promessa de continuidade: o pai como referência, o STF como adversário, Trump como aliado internacional e a segurança pública como principal bandeira.