A expansão da inteligência artificial no ambiente corporativo começa a provocar uma reação organizada, especialmente entre os mais jovens. Em vez de enxergar a tecnologia apenas como sinônimo de inovação, integrantes da chamada Geração Z têm manifestado preocupação com os efeitos da automação sobre o mercado de trabalho, denunciando demissões, redução de oportunidades para profissionais iniciantes e até cobranças internas relacionadas ao uso de ferramentas de IA.
O descontentamento ganhou as ruas de São Francisco, na Califórnia, onde mais de 300 pessoas participaram, no último sábado (11), de uma manifestação contra o avanço acelerado da inteligência artificial. O protesto foi liderado pelo ativista Michaël Trazzi, de 30 anos, que há anos alerta para os impactos sociais e econômicos provocados pela crescente automação.
A mobilização é mais um capítulo de uma campanha iniciada pelo ativista em setembro do ano passado, quando ele e outros dois integrantes do movimento realizaram uma greve de fome diante das sedes da Anthropic e do Google DeepMind. A iniciativa recebeu o nome de “Stop the AI Race” (“Parem a corrida da IA”) e tinha como objetivo chamar a atenção para o desenvolvimento desenfreado da tecnologia.
Em entrevista ao Estadão, Trazzi afirmou que pretende ampliar a mobilização internacionalmente.
“Espero que vire um movimento global. As empresas de IA têm o objetivo de automatizar o humano. Meu amigo está tendo de trabalhar em dois empregos porque os pais foram desligados por causa da IA.”
Apesar de ter nascido na França, Trazzi possui fortes vínculos com o Brasil. Sua mãe é filha de Eunice e Rubens Paiva, cuja trajetória inspirou o filme Ainda Estou Aqui.
Mercado mais difícil para quem está começando
O ativista tornou-se um dos principais porta-vozes de um grupo de jovens que vê a inteligência artificial como um fator determinante para o encolhimento das oportunidades de trabalho, principalmente para profissionais em início de carreira.
Segundo ele, a automação vem reduzindo postos considerados de entrada, justamente aqueles tradicionalmente ocupados por recém-formados. O cenário tem afetado até estudantes das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos.
“Uma pessoa que estudou em Stanford ou Berkeley, que são universidades renomadas, está com dificuldade de achar um trabalho quando sai da faculdade.”
Os números ajudam a explicar a preocupação. Levantamento da consultoria Oxford Economics aponta que a taxa de desemprego entre norte-americanos de 22 a 27 anos com diploma universitário chegou a aproximadamente 5,8% em 2025, o maior índice registrado para esse grupo desde 2012, desconsiderando os efeitos excepcionais da pandemia de covid-19.
Outro levantamento, produzido pela organização americana Alliance for Secure AI, estima que quase 120 mil postos de trabalho tenham sido eliminados nos Estados Unidos desde 2025 em processos associados à adoção da inteligência artificial.
Embora especialistas ressaltem que diversos fatores econômicos também influenciam o mercado de trabalho, a percepção entre parte da Geração Z é de que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma concorrente direta na disputa por vagas, alimentando um movimento de contestação que começa a ganhar força em diferentes países.