A visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao Brasil para participar da convenção nacional do Partido Liberal (PL) a convite de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, provocou uma forte reação de parlamentares, movimentos sociais e entidades que defendem o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a soberania brasileira.
A presença do chefe de Estado argentino no ato que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República é tratada por esses setores como uma tentativa de dar dimensão internacional à oposição brasileira e como uma afronta às instituições nacionais.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a expectativa de que Milei utilizasse sua passagem pelo país para atacar o governo federal já era considerada praticamente certa.
Auxiliares de Lula acompanharam a agenda do presidente argentino desde o anúncio da viagem e prepararam o governo para possíveis declarações de confronto. A avaliação era de que Milei manteria a postura adotada desde o início do terceiro mandato de Lula, marcada por críticas frequentes ao presidente brasileiro.
O que ampliou a repercussão política, no entanto, foi a presença, ao lado de Milei, de lideranças como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), e o senador Flávio Bolsonaro.
Para integrantes da própria base governista paulista, o gesto ultrapassa uma demonstração de apoio eleitoral e representa a associação de importantes figuras da política brasileira a um chefe de Estado estrangeiro que tem feito ataques públicos ao governo legitimamente eleito no Brasil. A vinda de Milei a São Paulo gerou também nas bases do republicanos e PL um racha ainda mais na base da direita.
A leitura entre aliados do Planalto é de que o episódio fortaleceu uma mobilização em defesa da soberania nacional. Parlamentares e lideranças políticas passaram a sustentar que a participação de Milei em um evento partidário brasileiro, ao lado de nomes que disputam ou influenciam diretamente a sucessão presidencial, representa um desrespeito à autonomia política do país e ao princípio da não interferência nas questões internas do Brasil.
Nos bastidores do Congresso Nacional, a expectativa é de que o episódio seja explorado politicamente nas próximas semanas. Governistas avaliam que a imagem de Tarcísio, Ricardo Nunes e Flávio Bolsonaro ao lado de Milei reforça o discurso de alinhamento da oposição brasileira a interesses externos, justamente em um momento em que cresce entre setores da sociedade uma mobilização em defesa das instituições democráticas, da soberania nacional e do governo Lula.
Integrantes desse movimento afirmam que a defesa da soberania brasileira deve prevalecer sobre divergências partidárias e classificam como “inaceitável” a utilização de um presidente estrangeiro para conferir legitimidade política a um projeto eleitoral no Brasil. Na avaliação desses grupos, a participação de Milei ao lado de Tarcísio, Ricardo Nunes e Flávio Bolsonaro transformou um evento partidário em um símbolo da disputa política em torno da defesa das instituições e da independência do Estado brasileiro.
Pesquisa Genial/Quaest mostra o apoio ao presidente Lula
A reação ganhou ainda mais força após a divulgação da mais recente pesquisa Genial/Quaest, que mostrou um desgaste significativo para Flávio Bolsonaro na opinião pública.
Segundo o levantamento, 51% dos brasileiros concordam com a versão apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o senador teve responsabilidade pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, enquanto 30% concordam com a versão de Flávio de que ele tentou evitar a medida.
Nos bastidores do governo e entre parlamentares da base aliada, o resultado da pesquisa é interpretado como um indicativo de que parte expressiva da população atribui ao senador responsabilidade por uma ação que acabou atingindo interesses econômicos brasileiros.
A leitura desses grupos é de que a percepção pública reforça o discurso de defesa da soberania nacional e amplia a resistência a iniciativas que possam ser interpretadas como articulações políticas no exterior com potencial de gerar prejuízos ao país.
Na avaliação de lideranças governistas, a presença de Javier Milei na convenção do PL, ao lado de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, ocorre justamente em um momento em que pesquisas de opinião apontam uma crescente rejeição a atitudes percebidas como prejudiciais aos interesses nacionais.
Para esses interlocutores, o episódio tende a reforçar a mobilização em defesa da soberania brasileira e a ampliar o debate sobre o papel de lideranças políticas na condução das relações internacionais e na defesa dos interesses do país.
Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes criticados por apoiadores e lideranças
A participação de Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes ao lado de Javier Milei também provocou incômodo e irritação entre integrantes de seus próprios grupos políticos e de setores do empresariado paulista.
Nos bastidores, aliados questionaram o espaço concedido ao presidente argentino em uma agenda que acabou transformando uma visita oficial em um ato de forte conotação político-eleitoral.
A avaliação de parte desses interlocutores é que ambos assumiram o desgaste de associar São Paulo à imagem de um líder estrangeiro que nunca manteve uma agenda de investimentos ou iniciativas concretas voltadas ao desenvolvimento do estado.
As críticas se intensificaram ainda mais após Tarcísio conceder a Milei a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do Estado de São Paulo. Pela legislação paulista, a condecoração é destinada a brasileiros e estrangeiros que tenham prestado “serviços de excepcional relevância” ao estado e à sua população.
Nos bastidores, parlamentares e lideranças políticas passaram a questionar quais ações concretas do presidente argentino justificariam a homenagem. O argumento recorrente é que Milei jamais desenvolveu projetos, investimentos ou políticas públicas voltadas diretamente para São Paulo, tornando a escolha alvo de críticas de adversários e também de parte de aliados, que consideraram a homenagem predominantemente política, e não baseada em contribuições objetivas ao estado.
A presença de Ricardo Nunes também incomodou
A presença de Ricardo Nunes na cerimônia também foi alvo de questionamentos internos. Integrantes do MDB avaliaram reservadamente que o prefeito acabou sendo associado a um episódio de elevado custo político, ao dividir o protagonismo com Milei em um momento de forte polarização nacional.
Para esses interlocutores, o gesto reforçou a percepção de alinhamento a uma estratégia liderada por Tarcísio e Flávio Bolsonaro, deslocando o foco de pautas administrativas da capital para uma agenda de disputa política nacional.