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Haddad abre o jogo sobre erros, escolhas arriscadas e lado pessoal: “A gente tenta errar menos”

Brasil

Candidato ao governo de São Paulo fala sobre erros na política, relembra decisão que poderia ter custado sua carreira, conta histórias da família e revela um lado mais descontraído longe dos palanques

Fernando Haddad quer apresentar ao eleitor paulista uma versão diferente de si mesmo. O Radar Brasileiro acompanhou a entrevista “Frente a Frente com o Candidato”.

Em uma entrevista marcada por perguntas pessoais, lembranças da infância, escolhas difíceis e episódios pouco conhecidos de sua trajetória, o candidato do PT ao governo de São Paulo deixou de lado, por alguns minutos, o discurso tradicional de campanha para falar como professor, filho, amigo e político que reconhece que também erra.

A entrevista acontece em um momento em que Haddad se coloca como alternativa para mudar os rumos do Estado. Oficializado candidato ao governo paulista em julho, ele afirmou que pretende “recuperar e restituir São Paulo para os paulistas” e vem construindo sua campanha em torno da ideia de mudança na administração estadual.

A diferença, segundo a mensagem que Haddad tenta transmitir, está também na disposição de reconhecer falhas.

Enquanto critica a atual administração de Tarcísio de Freitas e cobra do governo estadual respostas sobre problemas de gestão, Haddad afirma que não acredita em governos infalíveis.

“Governo erra, né. A gente tenta errar menos. Um governo é como uma pessoa, você comete erros”, afirmou.

A declaração dá o tom de uma entrevista na qual o candidato procurou mostrar um lado menos conhecido do público.

Em vez do Haddad ministro, ex-prefeito ou candidato, apareceu o professor que fala dos pais, o homem que admite ter pressa em algumas decisões e o político que reconhece que determinadas escolhas poderiam ter colocado sua carreira em risco.

O político que admite que já errou

Questionado sobre algum erro cometido no início da carreira política que tenha servido de lição para o resto da vida, Haddad não tentou construir uma imagem de político perfeito.

Segundo ele, uma das principais lições foi entender que, na política, não basta avaliar se uma decisão está certa ou errada. Também é preciso saber qual é o momento adequado para colocá-la em prática.

“Muitas vezes, eu tive pressa em fazer as coisas. Então, se eu fosse reavaliar algumas decisões que eu tomei, seria menos por questão de mérito de tá certo ou errado e mais por questão do momento mais correto”, explicou.

A frase sintetiza uma característica que Haddad tenta levar para sua candidatura: a experiência como aprendizado.

“Erros e acertos”, resumiu.

Para o candidato, reconhecer que governos podem errar não significa aceitar a permanência dos problemas. Ao contrário, a experiência deveria servir justamente para corrigir rumos e evitar que os mesmos erros sejam repetidos.

A decisão que poderia ter custado sua carreira

Entre todas as revelações da entrevista, uma das mais importantes foi a lembrança de uma decisão tomada quando Haddad estava à frente do Ministério da Educação: a mudança do sistema de acesso às universidades e a aposta na reformulação do Enem.

Haddad classificou a decisão como a mais arriscada de sua carreira pública.

“Eu acho que a decisão mais arriscada que eu tomei foi a decisão de acabar com o vestibular. Quase falei: nós vamos reformar o Enem e vamos acabar com o vestibular.”

Ele lembrou que a mudança aconteceu em um período particularmente delicado. No ano em que tomou a decisão, houve o furto da prova do Enem dentro da gráfica responsável pela impressão.

“Podia ter me custado a carreira política porque a operação, inclusive porque houve um furto da prova dentro da gráfica no ano em que eu decidi acabar com o vestibular. Então, foi a decisão mais arriscada que eu tomei.”

Mesmo diante do episódio, Haddad afirma que não se arrepende.

“Não me arrependo de ter tomado, mesmo sabendo o que aconteceu, porque livrar os estudantes brasileiros do vestibular é uma coisa que tinha que ser feita. Mas foi muito arriscado, cara. Muito arriscado.”

A lembrança é significativa porque mostra como Haddad pretende apresentar sua trajetória política: não como uma sequência de decisões sem riscos, mas como uma história de escolhas em que algumas poderiam ter tido consequências eleitorais graves.

“Tem certeza que você quer entrar na política?”

Se pudesse voltar aproximadamente 20 anos no tempo, Haddad faria uma pergunta ao próprio jovem que estava começando sua trajetória pública.

“Tem certeza que cê quer entrar na política?”

A resposta imaginária ganha ainda mais peso diante da avaliação que ele faz do cenário político atual.

Haddad diz que não imaginava que o país chegaria a um momento em que “fanatismo, extremismo, fake news” e desinformação ocupariam espaço tão grande no cotidiano da política.

“A política tem que ser uma coisa mais séria do desafio que é melhorar a vida das pessoas”, afirmou.

A fala se conecta diretamente ao discurso que Haddad vem construindo para a disputa pelo governo paulista.

No lançamento oficial de sua candidatura, ele afirmou que pretende transformar a eleição em um debate sobre os problemas concretos do Estado e criticou o que considera “desleixo” da atual administração.

O filho de um comerciante e de uma professora

A entrevista também revelou um Haddad distante dos discursos eleitorais.

Ao lembrar dos pais, ele conta que o pai, que havia sido agricultor no Líbano, tornou-se comerciante depois de chegar ao Brasil. E carregava uma preocupação que acabou sendo incorporada pelo filho.

“Meu pai tinha uma obsessão: honrar teu nome.”

A mãe, professora de formação, não chegou a exercer a profissão. Segundo Haddad, dedicou a vida à filantropia e ao trabalho em uma associação de ajuda às pessoas.

“Minha mãe era professora, mas não exerceu a profissão. Mas ela fez a vida inteira a caridade, filantropia, trabalhou a vida inteira numa associação pra ajudar as pessoas e pra ela, fazer o bem.”

Haddad diz que sua personalidade acabou sendo formada pela combinação desses dois ensinamentos.

“Eu sou uma mistura dos dois assim. Eu acho que se honrar o teu nome e fazer o bem, cê tá garantido de ser um bom cidadão.”

O Haddad que pouca gente conhece

Talvez uma das maiores surpresas da conversa tenha sido a maneira como o candidato descreveu sua personalidade fora da vida pública.

A imagem pública de Haddad costuma ser associada ao professor, ao economista, ao ministro e ao político de fala mais formal. Mas ele diz que, entre amigos, é muito diferente.

“Fora da vida pública, eu sou muito descontraído, eu sou muito chegado nas pessoas, sabe.”

Segundo ele, a formalidade diante das câmeras pode criar uma imagem que não corresponde completamente à sua personalidade.

“Quando eu tô entre amigos assim, eu sou muito descontraído, piadista. Então, acho que as pessoas têm uma visão de mim pública que, quando me conhecem no particular, se surpreendem.”

Até o violão apareceu na conversa como um talento pouco conhecido do público.

O resultado é um retrato mais humano de um candidato que tenta diminuir a distância entre a figura política e a pessoa que existe por trás dela.

O elogio que veio de um adversário

Haddad também foi questionado sobre o reconhecimento de um adversário político que mais o surpreendeu.

A resposta foi inesperada: Sergio Moro.

Segundo Haddad, o episódio ocorreu no Senado Federal, quando Moro teria dito a ele:

“Eu conheci você e você realmente é um patriota.”

Haddad afirmou ter ficado surpreso com o comentário por vir de Moro, a quem atribui forte oposição ao PT.

“Ouvindo do Moro, que não gosta de nenhum pet, me surpreendeu muito. Vindo dele.”

São Paulo como um “país”

Quando a conversa deixou a política de lado e chegou aos lugares que Haddad apresentaria a um estrangeiro, o candidato aproveitou para mostrar sua relação com o Estado.

“São Paulo é um país, né.”

Na capital, citou Parelheiros, o Centro Histórico e Heliópolis. Para ele, esses locais ajudam a revelar uma cidade que muitas vezes não aparece no roteiro turístico tradicional.

Parelheiros, segundo Haddad, chama atenção pela presença de áreas de manancial e de uma reserva indígena. No Centro, destacou restaurantes, bares e a história da cidade. Já Heliópolis foi lembrada como exemplo de organização comunitária.

“Pega Heliópolis, por exemplo, é um milagre o que aquele povo faz.”

No interior, mencionou a região de Votuporanga e São José do Rio Preto, o litoral norte e o Vale do Ribeira.

“Eu acho o estado de São Paulo uma das coisas mais bonitas do mundo.”

A escolha dos lugares também funciona como uma mensagem política: Haddad tenta demonstrar que sua visão de São Paulo não se limita à capital e aos grandes centros.

Diálogo até o fim

No bate-bola final, algumas respostas reforçaram a imagem que Haddad tentou construir durante toda a conversa.

Entre impor uma decisão de cima para baixo ou negociar pelo diálogo, escolheu:

“Diálogo até o fim.”

Entre ver um problema resolvido no papel ou acompanhar a mudança concreta na vida de alguém, ficou com a segunda opção.

“Quando dá pra mudar a vida da pessoa, mexe, mexe com o coração.”

Também revelou preferência por reunião às 7h da manhã, silêncio para se concentrar, áudio de dois minutos no WhatsApp, café de padaria, almoço com pausa e leitura sossegada.

Praia, e não trilha.

Masp, e não Pinacoteca.

E, para surpresa de quem gosta de café da manhã reforçado, uma restrição categórica:

“Bacon.”

Uma nova tentativa de Haddad

A entrevista acontece em uma fase em que Haddad procura apresentar sua candidatura não apenas como uma disputa contra Tarcísio, mas como uma tentativa de construir uma nova etapa para São Paulo.

O candidato já afirmou publicamente que pretende “recuperar e restituir São Paulo para os paulistas”, apresentando a eleição como uma oportunidade de mudança na condução do Estado.

O contraste que Haddad tenta estabelecer com Tarcísio passa justamente pela responsabilização política. Enquanto o petista procura dizer que governos erram e que o aprendizado faz parte da gestão, sua campanha tem explorado críticas à atual administração e aos resultados apresentados pelo governo paulista.

Em entrevista anterior, por exemplo, Haddad afirmou que a segurança pública do Estado está desorganizada e defendeu uma maior integração das forças de segurança.

É nesse contexto que a entrevista ganha importância.

Mais do que apresentar propostas, Haddad tenta apresentar uma personalidade. Um político que reconhece erros, admite decisões arriscadas, fala dos próprios limites e conta histórias pessoais.

“Governo erra, né. A gente tenta errar menos.”

A frase pode ser lida como uma síntese da imagem que Haddad pretende levar para a campanha: a de alguém que não promete uma administração sem erros, mas que afirma estar disposto a aprender com eles e, sobretudo, a mudar aquilo que considera que não está funcionando em São Paulo.

Agora, a disputa eleitoral coloca essa promessa diante do eleitor paulista. Haddad tenta convencer que sua candidatura representa uma mudança de direção para o Estado — e que, depois de uma longa trajetória política, chega à disputa com uma experiência que inclui não apenas vitórias e decisões consideradas acertadas, mas também erros, riscos e aprendizados.

ASSISTA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

Sobre o autor Redação Radar Brasileiro Redação · Radar Brasileiro

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