Fernando Haddad partiu para o confronto direto com Tarcísio de Freitas e acusou o governador de São Paulo de mentir ao tentar atribuir ao ex-governador João Doria a cobrança de ICMS sobre compras internacionais. Em entrevista à CBN, Haddad afirmou que Tarcísio tenta escapar da responsabilidade por uma cobrança que, segundo ele, foi adotada pelo governo paulista em 2023.
“É uma demanda muito grande. A taxa da blusinha quem cobra é o Tarcísio”, disparou Haddad.
O candidato petista deixou claro que os eleitores do interior do Estado estão sendo enganados com as narrativas do governador Tarcísio de Freitas. E, que por isso, é preciso pesquisar o que o candidato do republicanos fala.
“Eu estou levando ao conhecimento da população de São Paulo, de uma maneira geral, e do interior em particular, que nós não estamos sendo bem governados. Eu sei que os governos estaduais passam abaixo do radar da imprensa. Isso é histórico e não é só em São Paulo”, disse.
Conferência por inteligência artificial
Haddad afirmou que o eleitor não deve aceitar passivamente as informações apresentadas por candidatos e sugeriu o uso de ferramentas de inteligência artificial para conferir dados e declarações.
Entre os exemplos citados estão Gemini, ChatGPT e Claude, que, segundo ele, podem ser utilizados pelos eleitores como instrumentos adicionais de pesquisa e checagem antes de tirar suas próprias conclusões.
A acusação atinge uma das narrativas que Tarcísio vem utilizando para atacar o governo Lula: a associação da chamada “taxa das blusinhas” ao governo federal.
Haddad, porém, sustenta que o governador paulista mistura deliberadamente impostos diferentes e, ao tentar explicar a origem da cobrança, ainda atribuiu a Doria uma medida que, segundo os registros oficiais, não havia sido adotada daquela forma pelo governo anterior.
“Ele falou que o Dória cobrava das remessas postais, dizendo que não foi ele que começou a cobrar, que o Dória já cobrava. Não é verdade”, afirmou Haddad.
O petista foi além e fez questão de dizer que não está defendendo Doria por qualquer proximidade política.
“Eu não tenho nada a ver com o Dória, não sou amigo do Dória, não converso com o Dória. O Dória não cobrava por remessa fiscal.”
Na sequência, Haddad apontou diretamente para Tarcísio como responsável pela instituição da cobrança paulista:
“Quem começou a cobrar ICMS das blusinhas foi o Tarcísio, em agosto de 2023.”
A declaração coloca o governador diante de uma contradição objetiva. Em setembro de 2023, Tarcísio assinou o Decreto nº 67.967, que alterou as regras do ICMS incidente sobre determinadas remessas internacionais e estabeleceu uma carga tributária equivalente a 17%. O texto produziu efeitos a partir de agosto daquele ano.
Para Haddad, portanto, não há espaço para transferir a responsabilidade para Doria.
“E ele disse: não, não fui eu que comecei, isso já vem de longa data. Ele mentiu. O Dória nunca cobrou por remessa fiscal”, afirmou.
A crítica ganhou ainda mais força porque Rodrigo Garcia, que foi vice-governador de Doria e depois comandou o Estado, atualmente integra o grupo político de Tarcísio.
Haddad fez questão de lembrar esse detalhe ao dizer que o governador estaria cometendo uma injustiça contra uma administração pública que hoje, inclusive, tem integrantes próximos de seu próprio campo político.
“E eu repito: eu não sou amigo do Dória, não tenho nada a ver com o Dória. Ele é de outro partido, ele é de outra linha política. Mas ele cometeu uma injustiça com o governo anterior do Dória e do Rodrigo Garcia, que inclusive auxilia ele hoje.”
O que é a “taxa das blusinhas”
A expressão “taxa das blusinhas” se tornou popular para designar a tributação aplicada às compras internacionais de pequeno valor feitas por consumidores brasileiros em plataformas estrangeiras.
O problema é que o debate político costuma misturar dois impostos diferentes.
O Imposto de Importação é federal e incide sobre a entrada da mercadoria estrangeira no país. Já o ICMS é estadual, sendo cobrado pelos Estados.
Foi justamente essa diferença que Haddad utilizou para rebater Tarcísio.
Em São Paulo, o governo estadual alterou em 2023 as regras do ICMS aplicáveis a determinadas remessas internacionais. O Decreto nº 67.967, assinado por Tarcísio, estabeleceu uma carga tributária equivalente a 17% para essas operações, com efeitos a partir de 1º de agosto de 2023.
Portanto, quando Tarcísio tenta colocar toda a discussão sobre a “taxa das blusinhas” na conta do governo federal, a história fica incompleta. Existe uma tributação federal e existe o ICMS estadual — e São Paulo passou a aplicar sua própria regra durante a gestão Tarcísio.
É nesse ponto que Haddad concentra sua ofensiva.
“Quem começou a cobrar ICMS das blusinhas foi o Tarcísio, em agosto de dois mil e vinte e três.”
A frase também serve como resposta ao discurso político que transformou a tributação das compras internacionais em uma das principais armas contra Haddad. O ex-ministro foi alvo de forte campanha nas redes sociais por causa da política tributária federal, enquanto Tarcísio passou a explorar o tema para atacar o governo Lula.
Agora, Haddad tenta devolver o ataque mostrando que o governador paulista também cobra ICMS sobre essas operações e que a regulamentação estadual foi assinada durante sua própria administração.
Haddad acusa Tarcísio de tentar reescrever a história
A crítica mais dura do ex-ministro, porém, não foi dirigida à cobrança em si, mas à tentativa de Tarcísio de atribuí-la a governos anteriores.
“Ele mentiu”, afirmou Haddad.
Para o petista, o governador não apenas errou ao citar Doria como responsável pela cobrança, mas tentou construir uma narrativa para escapar do desgaste político provocado pelo imposto.
“O Dória nunca cobrou por remessa fiscal”, repetiu.
Haddad também procurou blindar sua acusação de qualquer tentativa de aproximação com Doria, repetindo que os dois pertencem a campos políticos diferentes.
“Eu não sou amigo do Dória, não tenho nada a ver com o Dória. Ele é de outro partido, ele é de outra linha política.”
E encerrou o ataque com uma provocação política direta:
“Mas ele cometeu uma injustiça com o governo anterior do Dória e do Rodrigo Garcia, que inclusive auxilia ele hoje.”
O embate expõe uma disputa que vai muito além da tributação de roupas e produtos baratos comprados pela internet. A “taxa das blusinhas” se transformou em munição eleitoral, e Haddad agora tenta colocar Tarcísio no outro lado da equação: o governador que critica a cobrança federal também administra um Estado que cobra ICMS sobre remessas internacionais e teve seu próprio decreto sobre o tema publicado em 2023.