A campanha eleitoral de Fernando Haddad ao governo de São Paulo começou oficialmente neste domingo (16) ao lado do presidente Lula, no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, antigo palco das assembleias operárias da Vila Euclides.
Haddad buscou transformar a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes em um confronto direto com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O local escolhido para a largada não foi casual. Foi ali que Lula ganhou projeção nacional durante as greves do ABC no fim dos anos 1970.
Neste domingo, o estádio voltou a receber um ato político de grandes dimensões, estimado pelo PT em dezenas de milhares de pessoas.
A escolha também reforçou a estratégia de associar a candidatura de Haddad à história política de Lula e ao discurso de defesa dos trabalhadores.
Haddad subiu ao palanque para fazer uma longa defesa da trajetória de Lula. Mas, por trás da homenagem ao presidente, está o eixo central da campanha petista.
A estratégia anunciada pelo PT é explorar as diferenças entre os dois projetos e fazer da eleição uma espécie de plebiscito sobre o governo estadual.

A própria campanha pretende enfatizar a avaliação da gestão Tarcísio e mobilizar principalmente o eleitorado da Grande São Paulo, região em que Haddad teve desempenho mais forte em 2022.
O discurso de Haddad, entretanto, começou longe da disputa eleitoral direta. O petista abriu sua fala dirigindo-se a Ana Estela e destacando a dificuldade de resumir em poucos minutos a trajetória de Lula.
“Ana Estela, é muito difícil falar em cinco minutos sobre a trajetória de um homem que tem cinquenta anos de vida pública.”
Na sequência, Haddad apresentou Lula como uma figura excepcional da política brasileira.
“Presidente Lula é uma figura incomum, uma figura incomum no Brasil, uma figura incomum no mundo.”
E passou a enumerar aquilo que considera os principais resultados do atual governo federal.
“Eu poderia falar dos seus últimos feitos, poderia falar da retomada do crescimento, poderia falar da retomada do emprego.”
“Poderia falar de como o presidente Lula, pela segunda vez, coloca a inflação de joelhos, como fez no seu segundo mandato.”
“Ele já era o recordista e bateu o próprio recorde.”
Haddad também explorou um dos temas que pretende transformar em marca de sua campanha: educação e mobilidade social. Filho de comerciante que não teve oportunidade de estudar, afirmou que encontrou nos livros uma forma de compreender o mundo.
“Eu sou filho de comerciante que nunca pisou numa escola, porque veio do campo, veio da agricultura, nunca pode se alfabetizar sequer.”
“E eu me apaixonei pelos livros.”
“E eu, como eu não conhecia os livros, que na minha casa não tinha, eu achei que me dedicar aos livros me daria a condição de conhecer o mundo.”
A partir daí, o candidato vinculou sua própria trajetória à política educacional defendida por Lula.
“É muito importante ler e estudar, é muito importante diploma.”
“Por isso, o presidente teve a obsessão de abrir a porta das universidades para o filho do trabalhador, como nunca se abriu no passado.”
Haddad citou ainda cotas, ProUni, universidades e ciência como instrumentos de transformação social.
“Muita gente aqui fez escola pública, fez universidade pública por cota, fez ProUni, fez ciência, porque tinha um homem com a sensibilidade do Lula, que também não pode estudar, para garantir a todos nós mais oportunidades.”
Mas o momento mais político da fala veio quando Haddad recuperou a história de Lula no próprio local do evento.
“O nome do Lula apareceu aqui nesse estádio quarenta e sete anos atrás, e as pessoas queriam saber quem é esse homem.”
“Na verdade, um menino de trinta e três anos que já surgia como uma liderança excepcional, já chamava atenção e já punha medo em gente poderosa.”
A construção narrativa serviu para estabelecer uma ponte entre o passado e a eleição de 2026. Haddad apresentou Lula como alguém que teria enfrentado interesses poderosos ao longo de décadas e afirmou que sua relação com o presidente foi construída durante sucessivos governos.
“Eu fui ministro presidente nos seus três governos, assim como a Marina Silva, assim como Luiz Marinho.”
Em seguida, veio a parte mais emocional do discurso.
Haddad descreveu Lula como um governante permanentemente preocupado com pessoas em situação de vulnerabilidade.
“O que eu quero testemunhar para vocês nesses últimos dois minutos é a vida de uma pessoa que todos os dias queria saber de quem precisava, de quem tava desassistido, de quem não tinha dente na boca, de quem não tinha filho na escola, da mãe que não tinha creche, da mãe que sofria violência dentro de casa.”
“Todo santo dia era um assunto diferente, era um ministro sendo convocado para saber o que que ele tava fazendo naquele dia pela nossa república, pelo nosso país.”
O petista também descreveu a relação pessoal com Lula como marcada por cobranças e conflitos, mas, segundo ele, sempre acompanhada pela convicção de que o presidente representava um projeto de transformação.
“E as cobranças vinham como um amigo, como um companheiro, como um parceiro, com quem a gente chorava, com quem a gente brigava, com quem a gente discutia.”
“Mas nós não tínhamos dúvida de que nós estávamos diante de uma pessoa que ia mudar o Brasil.”
No discurso, Haddad encerrou retomando justamente a simbologia da estrela do PT e da trajetória de Lula.
“Essa estrela chamada Lula, e essa estrela que nasceu aqui na Vila Euclides, é uma estrela que muita gente cansou de apagar.”
E atacou aqueles que, segundo ele, desejam o fim da trajetória política do presidente:
“O sonho, infelizmente, o sonho de muita gente no Brasil é ver essa estrela apagar.”
Para Haddad, entretanto, o ato deste domingo demonstra o contrário.
“Mas nesse domingo, essas imagens estão correndo o mundo, estão correndo as redes, e eles vão saber que mais uma vez a nossa estrela vai ficar acesa.”
O discurso terminou com uma frase que funciona:
“Para subir mais uma vez a rampa do Palácio do Planalto e dizer que quem manda no Brasil é o povo, não é o dinheiro, e não é o poder, mas é o suor de cada trabalhador e de cada trabalhadora.”
E, diante da militância, Haddad encerrou:
“Vamos à vitória.”