O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, voltou a mexer no tabuleiro da eleição presidencial de 2026 e fez uma avaliação contundente sobre a disputa: segundo ele, o Centrão está com Luiz Inácio Lula da Silva e a possibilidade de Flávio Bolsonaro (PL) vencer a eleição seria “zero”.
A declaração ganhou repercussão nesta sexta-feira (14) e reforça uma leitura que Kassab vem apresentando ao longo do ano: a de que o eleitorado brasileiro não estaria condenado a escolher entre Lula e um candidato identificado diretamente com o bolsonarismo.
A posição é especialmente relevante porque Kassab é um dos principais articuladores do centro político brasileiro e comanda o PSD, partido que possui forte presença no Congresso e uma ampla rede de prefeitos e lideranças estaduais.
Centrão pode decidir a eleição
A avaliação de Kassab parte de uma característica histórica do chamado Centrão: a capacidade de deslocar suas alianças conforme o cenário de poder.
Nos últimos anos, partidos identificados com esse campo político transitaram entre diferentes governos e candidaturas. O próprio PSD mantém integrantes no governo Lula, embora Kassab tenha sustentado durante boa parte do ano que a legenda deveria apresentar uma candidatura própria à Presidência.
Em fevereiro, por exemplo, Kassab chegou a dizer que o PSD não apoiaria Lula e que a possibilidade de ele próprio ser vice do presidente era “zero”.
A estratégia, naquele momento, era apostar em uma terceira via, com nomes como Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior.
O cenário mudou ao longo da campanha.
Flávio enfrenta resistência fora do núcleo bolsonarista
Kassab já havia afirmado anteriormente que Lula e Flávio Bolsonaro não seriam, na sua avaliação, os nomes capazes de vencer a eleição. Em abril, o presidente do PSD declarou que nenhum dos dois deveria ganhar o pleito e defendeu a candidatura de Ronaldo Caiado como alternativa.
Em outra entrevista, Kassab afirmou que Lula perderia parte de seus votos em um processo eleitoral mais longo, mas que Flávio poderia perder uma parcela ainda maior de seu eleitorado. Segundo ele, Caiado teria maior capacidade de atrair eleitores que hoje aparecem próximos do filho de Jair Bolsonaro.
A declaração desta sexta-feira, portanto, não surge isoladamente. Ela é a continuação de uma linha de discurso que Kassab vem mantendo durante a formação do cenário eleitoral.
O problema de Flávio é o Centrão
O principal efeito político da declaração é mostrar que a candidatura de Flávio Bolsonaro pode enfrentar dificuldades para ampliar sua base para além do eleitorado bolsonarista.
A direita radical possui um eleitorado consolidado, mas uma eleição presidencial exige a construção de alianças mais amplas. E é justamente nesse espaço que o Centrão exerce influência.
Em julho, União Brasil e Progressistas, partidos que formam uma das principais forças do centro político, sinalizaram que não pretendiam acompanhar Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Naquele momento, a candidatura do senador era descrita como isolada e ainda sem vice definido.
Isso cria um problema para o PL: transformar a força eleitoral do sobrenome Bolsonaro em uma coalizão capaz de conquistar eleitores de centro e, principalmente, construir maioria no segundo turno.
Lula ganha espaço no centro?
A declaração de Kassab também mostra que a disputa de 2026 pode estar sendo decidida muito além da polarização entre PT e bolsonarismo.
Pesquisas realizadas ao longo do ano já mostraram Lula à frente de Flávio em determinados cenários de segundo turno. Em levantamento Genial/Quaest divulgado em fevereiro, por exemplo, Lula aparecia com 42% contra 32% de Flávio em uma das simulações.
Mas o dado politicamente mais importante é outro: o Centrão não precisa necessariamente declarar uma adesão ideológica a Lula para favorecer sua candidatura.
Basta não construir uma aliança nacional em torno de Flávio.
Esse movimento pode ser decisivo porque partidos de centro possuem estruturas eleitorais nos estados, acesso a tempo de televisão, bancadas no Congresso, prefeitos e redes políticas capazes de influenciar o resultado de uma eleição presidencial.
Kassab aposta no desgaste do bolsonarismo
A estratégia de Kassab sempre foi apresentar uma alternativa à polarização. Em fevereiro, ele defendia que uma candidatura de centro poderia ultrapassar 15% e chegar ao segundo turno, afirmando que esse eleitorado teria condições de romper a disputa tradicional entre Lula e o bolsonarismo.
O PSD acabou escolhendo Ronaldo Caiado, com Kassab como vice. A chapa passou a ocupar justamente o espaço que o partido pretendia explorar: uma direita de centro capaz de dialogar com setores que não querem votar no PT, mas também não desejam apoiar diretamente o bolsonarismo.
Kassab chegou a afirmar que Lula perderia para Caiado em um eventual segundo turno, mas venceria Flávio Bolsonaro.
É nesse contexto que a declaração de que a chance de Flávio seria “zero” ganha peso.
Mais do que uma previsão eleitoral, a fala funciona como um recado aos partidos que ainda negociam espaço na eleição: o presidente do PSD considera que apostar em Flávio pode significar apostar em um candidato incapaz de construir a maioria necessária para chegar ao Palácio do Planalto.
E, se o Centrão realmente caminhar para Lula — ou simplesmente decidir não embarcar na candidatura de Flávio — o senador terá de enfrentar a eleição com uma base muito mais estreita do que aquela que tradicionalmente sustentou as candidaturas de seu pai.
A eleição, porém, ainda está em movimento. A declaração de Kassab é uma avaliação política, não uma certeza sobre o resultado das urnas. Até outubro, alianças, pesquisas, campanhas e a própria dinâmica do eleitorado ainda podem alterar significativamente o cenário.