O governo brasileiro elevou o tom da crise diplomática com os Estados Unidos nesta quinta-feira (16). O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou como “inaceitáveis” e “ofensivas” as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não negociar “de boa-fé” com Washington durante as tratativas sobre as novas tarifas impostas a produtos brasileiros.
Em pronunciamento no Palácio Itamaraty, Vieira afirmou que Rubio “ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo”, ressaltando que as críticas extrapolam o campo comercial e representam uma afronta ao governo e ao povo brasileiro. Segundo o chanceler, a postura adotada pelo governo norte-americano rompe com o padrão histórico das relações diplomáticas entre os dois países.
— Desde o primeiro momento o presidente Lula buscou dialogo e enfatizou sua disposição de negociar. As declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros— disse Vieira, ressaltando que só com Rubio e o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, foram 11 contatos, incluindo o encontro entre Lula e o presidente Donald Trump na Casa Branca:
— Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.
A reação ocorre horas depois de Rubio publicar, nas redes sociais, que Lula teria colocado “o próprio ego” acima dos interesses da população brasileira ao se recusar a fechar um acordo comercial com os Estados Unidos. Para o chefe da diplomacia americana, a falta de entendimento justificaria a decisão do presidente Donald Trump de impor uma tarifa adicional de 25% sobre grande parte das exportações brasileiras.
O Itamaraty, porém, rejeita essa versão. Mauro Vieira afirmou que o governo brasileiro manteve diálogo permanente com autoridades americanas desde o início das discussões e participou de mais de 30 reuniões em diferentes níveis para buscar uma solução negociada. Segundo ele, o Brasil sempre esteve aberto às conversas, mas sem abrir mão da soberania nacional e do respeito às regras do comércio internacional.
– (Foi) expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro. Foi justamente nessa carta, em que o presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-presidente da República não fosse imediatamente interrompido, que foi dada a instrução ao Representante de Comércio americano para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil
O ministro também revelou que, durante as negociações, representantes dos Estados Unidos apresentaram reivindicações consideradas “desmedidas e irrazoáveis”, chegando, segundo suas palavras, a exigir uma verdadeira “capitulação” do Brasil em temas estratégicos. Para Vieira, foi justamente a recusa brasileira em aceitar essas condições que levou Washington a endurecer as medidas comerciais.
— Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil — afirmou.
Além de rebater Rubio, o chanceler voltou a afirmar que o tarifaço não encontra respaldo técnico nem econômico. Na avaliação do governo brasileiro, as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos “não têm lastro na realidade” e possuem forte componente político, transformando a disputa comercial em mais um capítulo das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.
O episódio marca um dos momentos de maior desgaste recente na relação bilateral. Enquanto o governo dos Estados Unidos sustenta que a medida decorre do fracasso das negociações comerciais, o Brasil insiste que buscou uma solução diplomática até o último momento e que não aceitará pressões que comprometam sua autonomia nas decisões econômicas e comerciais.