A tentativa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) de nacionalizar o debate e deslegitimar as pré-candidaturas de Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB) ao Senado por São Paulo surtiu o efeito oposto ao desejado. Além de deflagrar uma contundente reação das ex-ministras — que acusaram o chefe do Executivo paulista de misoginia e incoerência —, a declaração abriu fissuras internas em seu próprio partido, o Republicanos, e gerou forte desconforto no comitê político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
As reações das pré-candidatas subiram o tom, explorando as contradições do governador. Durante agenda em Campinas nesta quinta-feira (9), Marina Silva sublinhou o que chamou de política de “dois pesos e duas medidas” adotada pelo Palácio dos Bandeirantes, apontando um viés de gênero na postura de Tarcísio.
“Ele acha que para ele vir fazer política aqui é natural, e para mim e a Simone, não. E eu acho que tem também uma atitude de preconceito contra as mulheres, de se acharem os donos do mundo”, disparou Marina em entrevista ao G1. “As mulheres vão ser sempre vistas como estrangeiras, como ‘devem ficar do lado de fora’.”
Simone Tebet adotou uma ironia ainda mais ácida, mirando diretamente na fragilidade do histórico eleitoral do governador, que precisou registrar o endereço de um cunhado em São José dos Campos para poder disputar a eleição de 2022.
“Sou corintiana, não flamenguista, e pago imposto em São Paulo há dez anos. Não precisei dar endereço alheio para me candidatar”, rebateu Tebet à CNN Brasil.
Simone Tebet também se posicionou nas redes sociais.
Ao sugerir que Marina e Tebet escolheram São Paulo por terem recebido “cartão vermelho” em seus estados de origem (Acre e Mato Grosso do Sul), Tarcísio tentou blindar seus aliados na disputa — André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) —, mas acabou por expor seu próprio calcanhar de Aquiles: o fato de ele mesmo ser carioca e ter transferido o domicílio eleitoral para São Paulo em meio a questionamentos judiciais.
O movimento considerado como “agressivo” do governador foi recebido com alarmismo nos bastidores do Republicanos. Interlocutores da legenda avaliam, sob reserva, que o ataque frontal foi um “erro tático rudimentar” que confere palanque gratuito a duas figuras de projeção nacional, unindo frentes que poderiam atuar dispersas. A avaliação interna é de que o tom bélico usado por Tarcísio foi “desnecessário” e arranha ainda mais a imagem do político visto como “moderado”.
O mal-estar cruzou as fronteiras partidárias e atingiu o núcleo duro do bolsonarismo. No QG de Flávio Bolsonaro, a declaração de Tarcísio caiu “pessimamente”, segundo interlocutores. Aliados do senador fluminense enxergaram a fala como “desastrada”, argumentando que o ataque de gênero e a linha de argumentação territorialista dão munição desnecessária à oposição em um momento em que a prioridade deveria ser a consolidação de alianças ao centro, e não o isolamento precoce.
O peso dos números e a opinião das legendas

O nervosismo que emana do Palácio dos Bandeirantes encontra explicação na última pesquisa Datafolha, divulgada na segunda-feira (6). O levantamento aponta o fracasso inicial da estratégia de Tarcísio em transferir capital político para seus apadrinhados.
Marina Silva e Simone Tebet lideram a corrida ao Senado com 18% e 16% das intenções de voto, respectivamente. Já os candidatos governistas patinam na casa de um dígito ou no limite dos dois dígitos: André do Prado (PL) aparece com 11%, seguido de perto pelo deputado licenciado Guilherme Derrite (PP), que soma 10%.
Diferente do que sugeriu o governador, o eleitorado paulista já referendou a presença de Marina no estado, elegendo-a deputada federal em 2022 com votação expressiva. Ao tentar criar uma barreira geográfica, Tarcísio de Freitas não apenas ignorou a própria biografia, como acabou por catalisar uma crise interna que expõe a fragilidade de sua articulação política para a sucessão no Legislativo.