Depois de 7 anos e 2 meses à frente do Governo de Minas Gerais, Romeu Zema deixa o Estado com uma dívida bilionária. Enquanto construiu nacionalmente a imagem de gestor austero e defensor do equilíbrio das contas públicas, sua administração terminou cercada por questionamentos sobre incentivos fiscais, favorecimento a grupos empresariais, investigações, articulações políticas e a baixa efetividade das medidas adotadas para sanear as finanças do Estado.
- Dívida consolidada total do Estado: cerca de R$ 205 bilhões no início de 2026, segundo o Boletim da Dívida Pública da Secretaria de Estado da Fazenda.
- Dívida com a União: aproximadamente R$ 179,3 bilhões, valor refinanciado com a adesão de Minas ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), com data-base de 1º de dezembro de 2025.
Dívida de Minas Gerais antes da Gestão Zema
- Dívida Consolidada Líquida (indicador fiscal oficial): R$ 106,5 bilhões ao final de 2018, segundo o Relatório de Gestão Fiscal do Estado.
- Dívida bruta (estoque total dos débitos): cerca de R$ 114,7 bilhões em janeiro de 2019. Esse é o indicador mais utilizado nas comparações ao longo da gestão Zema.
Ao longo dos dois mandatos de Romeu Zema, a dívida bruta de Minas Gerais aumentou em aproximadamente R$ 86,4 bilhões, passando de R$ 114,7 bilhões, em janeiro de 2019, para R$ 201,09 bilhões ao fim de 2025 — um crescimento nominal de 75,3%, segundo dados da Secretaria de Estado de Fazenda.
Benefícios concedidos à própria família
Um dos principais pontos de desgaste envolve a política de benefícios tributários concedidos durante sua gestão. O caso que mais repercutiu foi a autorização de incentivos à Eletrozema, empresa pertencente ao grupo fundado pela família do então governador.
Empresa da família Zema recebeu R$ 2,28 milhões em benefício fiscal durante governo do ex-governador.
A informação veio à tona após a divulgação da relação de empresas beneficiadas por incentivos fiscais, determinada pela Justiça depois de uma disputa sobre a transparência desses dados. A publicação revelou que mais de quatro mil empresas receberam regimes especiais de tributação, entre elas a Eletrozema.
Segundo registros da Receita Federal, a Eletrozema continua ligada ao núcleo familiar do ex-governador. A empresa tem Romero Zema, irmão de Romeu Zema, como presidente, enquanto Ricardo Zema Neto, sobrinho do ex-governador, ocupa cargo de direção. Romeu Zema permanece como sócio do grupo empresarial.
Zema abandonou aliados para beneficiar amigos
Na Assembleia Legislativa, a oposição também passou a questionar a ampliação da base política do governador. Parlamentares afirmam que, ao longo do segundo mandato, Zema abandonou parte do discurso de renovação que marcou sua primeira eleição e intensificou negociações para acomodar partidos e lideranças em cargos estratégicos da administração estadual, consolidando uma base de sustentação para aprovar projetos considerados prioritários pelo Palácio Tiradentes.

Na área fiscal, embora o governo tenha defendido avanços na contenção de despesas e nas negociações com a União para reestruturar a dívida mineira, Minas Gerais encerra o ciclo administrativo ainda convivendo com um dos maiores passivos financeiros do país.
A dívida do Estado com a União permanece na casa de centenas de bilhões de reais, enquanto projeções orçamentárias elaboradas pela própria administração indicavam déficit nas contas públicas e necessidade de manutenção de medidas de ajuste fiscal nos anos seguintes.
Zema ficou mais rico depois que virou governador
O patrimônio declarado de Romeu Zema aumentou durante o período em que ele era governador, segundo as declarações de bens entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A situação financeira contrasta com o discurso adotado por Zema desde 2019, quando assumiu o governo prometendo recuperar as contas do Estado, modernizar a administração pública e eliminar privilégios.
Apesar de avanços apontados pelo governo em áreas como atração de investimentos privados e equilíbrio entre receitas e despesas correntes, especialistas ressaltam que a recuperação estrutural das finanças mineiras permaneceu incompleta e dependente da renegociação da dívida com a União.
Outro tema que gerou críticas foi a política de incentivos fiscais adotada para grandes empresas. Entidades ligadas ao funcionalismo e parlamentares da oposição argumentam que o Estado abriu mão de arrecadação bilionária ao mesmo tempo em que mantinha restrições orçamentárias para investimentos e reajustes salariais de servidores.
O governo sempre rebateu essas críticas afirmando que os benefícios tributários são instrumentos de desenvolvimento econômico, preservação de empregos e atração de novos empreendimentos.
Com a entrada definitiva de Romeu Zema no cenário nacional e sua movimentação como um dos nomes da direita para a disputa presidencial, o legado de sua administração em Minas Gerais tende a ganhar protagonismo no debate eleitoral. De um lado, aliados destacam indicadores de investimentos privados, simplificação administrativa e reformas estruturais.
De outro, adversários prometem explorar o passivo fiscal, os incentivos tributários concedidos durante sua gestão e os episódios que levantaram questionamentos sobre conflitos de interesse envolvendo empresas ligadas à família do ex-governador.
Procurado em diferentes ocasiões para comentar as críticas relacionadas aos incentivos fiscais e à condução das contas públicas, o aumento patrimonial, o governo de Romeu Zema afirmou que todas as medidas seguiram a legislação vigente, foram embasadas por pareceres técnicos e tiveram como objetivo fortalecer a economia mineira, preservar empregos e garantir a sustentabilidade fiscal do Estado.