O caso Banco Master começa a revelar uma rede de relações que vai muito além do banqueiro Daniel Vorcaro.
Depois de mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro virem a público, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça passou a ocupar o centro de uma nova controvérsia.
Mendonça vem tentando blindar Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e outros integrantes políticos da extrema-direita.
O Radar Brasileiro mostrou que no meio de novas conversas reveladas pela Polícia Federal, Flávio Bolsonaro apareceu novamente no jogo criminoso. Em novas conversas, a Polícia Federal afirma que ele recebeu muito mais dinheiro do que se imagina.
Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro em março de 2025, no Instituto ITER, em São Paulo, entidade fundada pelo próprio ministro. O encontro não ocorreu nas dependências do Supremo e, segundo o magistrado, durou entre 20 e 30 minutos.
A versão apresentada por Mendonça é que Vorcaro o procurou para tratar de uma questão envolvendo precatórios. O ministro afirma que se limitou a ouvir o banqueiro e nega que tenha discutido assuntos relacionados ao Banco Master.
Mas as mensagens e os áudios revelados pela Polícia Federal contam uma história que merece ser investigada.
Flávio Bolsonaro aparece pedindo dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Flávio chegou a negar ter pedido dinheiro a Vorcaro
A aproximação não foi casual
Segundo o material divulgado, o encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira.
Em uma das mensagens, Ciro informa a Vorcaro:
“André quer te receber.”
Em outra gravação, o advogado afirma que teria conversado previamente com Mendonça sobre a situação envolvendo o Banco Central e diz:
“Acho que dei uma balançada nele naquele assunto.”
A expressão é politicamente explosiva.
Porque mostra, segundo o conteúdo divulgado, que havia uma tentativa deliberada de convencer ou sensibilizar o ministro antes de Vorcaro ser recebido.
E não se tratava de um desconhecido tentando marcar uma audiência.
Era o advogado do banqueiro fazendo a ponte entre o empresário e um ministro do Supremo.
“Trabalhando por você”
Há outro episódio ainda mais revelador da intimidade entre os envolvidos.
Em fevereiro de 2025, Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia na qual aparece ao lado de André Mendonça.
A mensagem que acompanhava a foto dizia:
“Trabalhando por você.”
Em outro áudio, o advogado aparece mencionando uma visita com Mendonça a uma alfaiataria:
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.”
O material não prova, por si só, que Mendonça tenha recebido qualquer benefício ou praticado irregularidade.
Mas levanta uma pergunta inevitável:
por que o advogado de um banqueiro estava tão empenhado em aproximar seu cliente de um ministro do Supremo?
E, principalmente:
qual era exatamente o interesse que estava sendo defendido?
O encontro aconteceu — e Mendonça confirmou
As mensagens indicam que a reunião foi marcada previamente.
Segundo o material divulgado, Cezinha de Madureira teria avisado Vorcaro que o ministro já o esperava.
Vorcaro foi ao Instituto ITER.
A existência do encontro, inicialmente revelada pelas mensagens e registros, acabou confirmada pelo próprio Mendonça.
A controvérsia, portanto, não está mais em saber se o encontro ocorreu.
O encontro ocorreu.
A questão central passou a ser outra:
o que Daniel Vorcaro foi fazer na sala de André Mendonça?
E é exatamente aí que aparecem as versões conflitantes.
A pauta é o ponto mais sensível
Mendonça afirma que o assunto foi uma questão relacionada ao pagamento de precatórios e à Suspensão de Tutela Provisória 976.
O material apreendido no celular de Vorcaro aponta para conversas anteriores nas quais o Banco Master e problemas envolvendo o Banco Central aparecem no contexto da aproximação.
O advogado Ciro Soares teria dito a Vorcaro que Mendonça conhecia a situação envolvendo o Banco Central.
Mendonça sustenta que apenas ouviu o banqueiro e que não houve tratamento de assuntos relacionados ao Master.
Essa diferença precisa ser esclarecida.
Porque existe uma diferença enorme entre:
“um banqueiro procurou um ministro para relatar um problema jurídico”
e
“um advogado atuou para aproximar seu cliente de um ministro depois de previamente discutir com ele problemas relacionados ao banco”.
A segunda hipótese exige explicações muito mais detalhadas.
Quem é André Mendonça nessa história?
André Mendonça não chegou ao Supremo por concurso, eleição ou escolha interna da magistratura.
Ele foi indicado diretamente por Jair Bolsonaro.
O próprio STF registra oficialmente que Mendonça foi indicado pelo então presidente da República e teve seu nome aprovado pelo Senado em dezembro de 2021.
Antes de chegar ao Supremo, Mendonça havia sido ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro e advogado-geral da União.
A relação política de origem, portanto, é um fato público.
E Flávio Bolsonaro entra onde?
Flávio se negou a dar detalhes sobre o dinheiro que recebeu de Daniel Vorcaro.
É aqui que o caso fica ainda mais delicado.
Daniel Vorcaro tornou-se uma figura central na campanha presidencial de 2026 depois que vieram a público conversas com Flávio Bolsonaro envolvendo o projeto Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
O áudio divulgado em maio de 2026 revelou uma cobrança milionária feita por Flávio a Vorcaro para financiar o projeto cinematográfico. A conversa provocou forte repercussão política e passou a ser utilizada contra o candidato do PL.
Desde então, decisões judiciais envolvendo conteúdos que relacionam Flávio e Vorcaro passaram a ganhar enorme peso político.
E dois ministros indicados por Bolsonaro aparecem nesse capítulo:
André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
Nunes Marques e a pesquisa que incomodava Flávio
Em junho de 2026, Nunes Marques, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a suspensão de uma pesquisa da AtlasIntel depois de um pedido apresentado pelo PL.
O levantamento havia apresentado aos entrevistados informações relacionadas ao áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Nunes Marques apontou possível comprometimento da neutralidade metodológica pela sequência das perguntas. A decisão ainda seria submetida ao plenário do TSE.
Mas o episódio produziu um resultado objetivo:
uma pesquisa eleitoral que expunha aos entrevistados a associação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro foi suspensa por decisão do ministro.
Mendonça também entrou em cena
Meses depois, André Mendonça determinou a retirada de uma peça eleitoral produzida com inteligência artificial que associava Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.
O ministro classificou preliminarmente o conteúdo como deepfake e aplicou a legislação eleitoral que restringe material sintético destinado a prejudicar ou favorecer candidaturas.
até onde vai a coincidência?
O problema não é a indicação de Flávio Bolsonaro. É o conjunto
A crítica mais fácil seria dizer:
“Bolsonaro indicou Mendonça, portanto Mendonça protege Bolsonaro.”
Isso seria uma conclusão sem prova.
O que torna o episódio relevante é o conjunto de acontecimentos.
De um lado:
Jair Bolsonaro indica André Mendonça para o STF.
De outro:
Daniel Vorcaro é alvo de uma articulação para chegar até Mendonça.
No meio:
um advogado do banqueiro conversa previamente com o ministro e depois envia ao cliente uma fotografia ao lado de Mendonça com a frase “trabalhando por você”.
Depois:
Vorcaro é recebido pelo ministro em encontro fora da sede do STF.
E, paralelamente:
decisões de Mendonça e Nunes Marques atingem conteúdos eleitorais relacionados a Flávio Bolsonaro e Vorcaro.