A relação entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o círculo empresarial de Daniel Vorcaro e personagens ligados ao filme Dark Horse ganhou novos contornos diante das revelações recentes sobre o Banco Master.
Uma das conexões mais objetivas está no financiamento eleitoral. Em 2022, Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, doou R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo, sendo o maior doador individual da candidatura. Zettel também destinou R$ 3 milhões à campanha de Jair Bolsonaro. Os valores constam dos registros eleitorais.
Dois anos depois, em maio de 2024, Tarcísio esteve em Nova York no Summit Valor Econômico Brazil-USA, evento realizado pelo Valor Econômico e apresentado e bancado pelo Banco Master. Daniel Vorcaro fez o discurso de abertura do encontro, que reuniu empresários, autoridades e governadores brasileiros.
A presença de Tarcísio naquele palco ganha outra dimensão diante do que veio depois: em novembro de 2025, o Banco Central decretou a do Banco Master, controlado por Vorcaro.
A conexão com Karina da Gama
Outro capítulo envolve Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, e presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC). O Radar Brasileiro mostrou o que Tarcísio tenta esconder da imprensa.
A ANC recebeu indicações de emendas parlamentares que somaram cerca de R$ 2,6 milhões para a produção da série documental Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende. Entre os parlamentares estavam Marcos Pollon, Bia Kicis, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem. Os recursos passaram pelo governo paulista.
Mais do que simplesmente receber o dinheiro, a entidade de Karina teve seu projeto analisado pela Secretaria de Cultura do governo Tarcísio, que emitiu parecer favorável, afirmando que a proposta estava em sintonia com os interesses institucionais da pasta.
A série, porém, não foi executada.
No caso específico dos R$ 1 milhão indicados por Marcos Pollon, há versões conflitantes. A assessoria do deputado afirma que o recurso acabou sendo redirecionado para uma instituição oncológica, enquanto o governo paulista informou que as emendas destinadas à série estavam sem execução por causa de pendências técnicas e documentais.
Até agora, não apareceu documentação pública suficiente para comprovar que aquele R$ 1 milhão específico efetivamente chegou ao Hospital de Amor, em Barretos.
Tarcísio ainda não respondeu qual o destino final de cada parcela da emenda e por que um projeto ligado à empresária responsável por Dark Horse recebeu parecer favorável do governo paulista antes de não sair do papel.
E onde entra Daniel Vorcaro?

A conexão com Vorcaro não se resume ao evento de Nova York.
O banqueiro financiou Dark Horse por meio de uma estrutura privada ligada à produção. Reportagens recentes apontam que os repasses de Vorcaro ao projeto chegaram a dezenas de milhões de reais, enquanto a Polícia Federal passou a investigar a origem e o destino dos recursos. A própria produtora confirmou posteriormente um novo repasse de US$ 1,6 milhão feito em 2025.
Ao mesmo tempo, a rede empresarial de Karina passou a ser alvo de investigações envolvendo contratos públicos e emendas parlamentares. A Polícia Federal e outras autoridades apuram possíveis irregularidades relacionadas às organizações ligadas à empresária.
É nesse emaranhado que Tarcísio aparece: um governador que recebeu R$ 2 milhões do cunhado de Vorcaro, esteve em um evento internacional apresentado pelo Banco Master e cujo governo analisou favoravelmente um projeto ligado à empresária de Dark Horse.
André Mendonça: decisão favorável a Tarcísio

Outro ponto sensível envolve o ministro do STF André Mendonça.
Em janeiro de 2026, Mendonça acolheu pedido do governo Tarcísio e garantiu a São Paulo as condições do acordo de renegociação da dívida do Estado com a União no âmbito do Propag.
A decisão impediu, naquele momento, a cobrança imediata de quase R$ 1 bilhão por mês e reconheceu o cumprimento dos requisitos para adesão ao programa.
A decisão foi, portanto, concretamente favorável ao governo paulista.
Mas há outra conexão que tornou Mendonça um personagem central no caso Master: o ministro confirmou nesta semana que recebeu Daniel Vorcaro em março de 2025, em uma reunião realizada no Instituto Iter, fundado pelo próprio magistrado.
O encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira.
Segundo Mendonça, ele apenas ouviu Vorcaro e o assunto teria sido uma disputa envolvendo precatórios. Já mensagens e relatos obtidos pela imprensa indicam que o advogado que intermediou o encontro conhecia a situação do Banco Master e havia tratado de problemas do banco no Banco Central.
De um lado, Tarcísio recebeu uma contribuição milionária do círculo familiar de Vorcaro e participou de um evento internacional apresentado pelo Banco Master.
De outro, uma entidade presidida por Karina da Gama, empresária ligada a Dark Horse, teve projetos analisados favoravelmente pelo governo paulista, enquanto recursos públicos destinados à iniciativa permaneceram cercados de dúvidas sobre sua execução e destino.
E, no Judiciário, André Mendonça tomou uma decisão de forte impacto financeiro favorável ao governo Tarcísio, ao mesmo tempo em que se tornou conhecido o encontro reservado que manteve com Vorcaro durante o período em que o banqueiro enfrentava problemas crescentes com o Banco Central.