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“Uma porra de uma sauna para lavar”: ex-chefe da Fazenda de TARCÍSIO é preso e gravação revela plano

Brasil

André Weiss, um dos homens de confiança do governador Tarcísio de Freitas, que ocupava um dos cargos mais altos da Secretaria da Fazenda, teria discutido entre fiscais uma estratégia para movimentar dinheiro em espécie sem levantar suspeitas. Em outra conversa, demonstrou temor de aparecer com uma Mercedes de R$ 250 mil e “sair no jornal”.

Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como "PP", se aposentou em 2024, mas durante a carreira na secretaria, ocupou cargos de destaque na Receita Estadual de São Paulo. PP era um dos homens de confiança do governador Tarcísio de Freitas.

A prisão do ex-diretor-geral da Administração Tributária de São Paulo André Weiss, nesta quinta-feira (3), ganhou um elemento ainda mais explosivo: uma gravação obtida pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) na qual o ex-dirigente da Secretaria da Fazenda fala abertamente sobre uma possível forma de lavar dinheiro por meio de uma sauna.

O áudio foi gravado em julho de 2023 durante um almoço entre fiscais e posteriormente localizado no celular do auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso na Operação Ícaro, em agosto de 2025.

Segundo a transcrição apresentada pelo MPSP, Weiss teria colocado sobre a mesa a ideia de comprar um estabelecimento que movimentasse grandes quantidades de dinheiro vivo justamente para facilitar a lavagem de valores.

“Eu pensei em pegar dinheiro e comprar uma sauna em São Paulo… pra fazer reunião… vamos juntar uma grana e vamos pegar uma porra de uma sauna, né? E para lavar também é bom.”

A declaração é particularmente grave porque, de acordo com o Ministério Público, não aparece como uma discussão abstrata sobre crimes financeiros. Weiss fala em primeira pessoa sobre uma possível estrutura para receber dinheiro em espécie e fazê-lo circular por um negócio.

E ele próprio apresenta a justificativa:

“Quantas pessoas entram em sauna e pagam em dinheiro? Quase todas, cara.”

Na sequência, segundo a transcrição, completa:

“Pô, quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém.”

O MPSP interpreta o diálogo como a descrição de uma possível estratégia de lavagem de dinheiro através de um estabelecimento com elevada circulação de valores em espécie. Os documentos, porém, não apontam que a sauna tenha efetivamente sido comprada ou que o plano tenha sido executado.

O medo não era só gastar. Era ser descoberto

Em outro momento da mesma conversa, Weiss demonstra preocupação com a aparência de riqueza e com a possibilidade de que uma aquisição chamasse a atenção das autoridades.

O exemplo escolhido foi uma Mercedes de aproximadamente R$ 250 mil.

“Se eu comprar uma Mercedes… 250 pau uma Mercedes, né… se você aparece na Delegacia, cara… isso aí vai sair no jornal.”

E então vem uma frase ainda mais reveladora, segundo a transcrição:

“Você é algemado… chega um promotor pra me prender na hora lá.”

De um lado, a preocupação com a ostentação e com aquilo que poderia chamar a atenção da imprensa e das autoridades; de outro, a discussão sobre uma forma de movimentar dinheiro vivo por meio de um negócio que, na avaliação do MP, poderia servir para ocultar sua origem.

Do alto escalão da Fazenda e conselheiro de Tarcísio

Ele ocupou a Diretoria Executiva da Administração Tributária (DEAT), uma das posições mais importantes da Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo. Documentos oficiais da própria Fazenda registram Weiss como titular da DEAT em 2025, durante a gestão Tarcísio.

Weiss ficou na cúpula da Fazenda durante praticamente toda a gestão Tarcísio, até maio deste ano. A dimensão do caso aumenta porque Weiss não era um funcionário qualquer. Era um dos homens de confiança do governador do Estado.

Ele ocupou até maio deste ano o terceiro posto mais alto da Secretaria da Fazenda de São Paulo, abaixo apenas do subsecretário da Receita Estadual e do secretário da Fazenda.

Para o Ministério Público, Weiss seria responsável pelo núcleo público da organização criminosa investigada, o que coloca as suspeitas no coração da máquina responsável pela administração tributária paulista.

A gravação ocorreu em 27 de julho de 2023, poucas semanas antes da primeira entrega de propina relatada pelo ex-delegado regional tributário do Butantã Paulo Sérgio Siqueira Prado, que posteriormente firmou acordo de .

O áudio tem mais de duas horas e passou por perícia do Núcleo de Computação Forense do Centro de Apoio Operacional à Execução (Caex), que atestou sua integridade.

A Justiça também considerou válida a utilização da gravação como prova, já que ela foi realizada por um dos próprios participantes da conversa, e não por investigadores infiltrados ou por uma interceptação clandestina.

“Rateio”: quando a corrupção vira conversa de almoço

O episódio é especialmente perturbador porque a conversa não aparece, segundo a investigação, como uma negociação formal ou uma operação policial. É um almoço entre fiscais, em que dinheiro, propina, patrimônio e formas de ocultação de valores teriam sido discutidos com aparente naturalidade.

A expressão “rateio”, mencionada no contexto da investigação, ganha ainda mais peso diante das suspeitas de que uma estrutura envolvendo agentes públicos e interesses privados teria funcionado para beneficiar determinados grupos.

Se as suspeitas forem confirmadas pela Justiça, o escândalo não será apenas sobre dinheiro. Será uma bomba na campanha do governador Tarcísio de Freitas. 

E a história da “porra de uma sauna” resume, de maneira quase caricatural, a gravidade das suspeitas: um homem de confiança do governador Tarcísio de Freitas no topo da estrutura tributária do Estado discutindo, segundo uma gravação incorporada à investigação do MPSP, como transformar dinheiro vivo em dinheiro aparentemente legítimo — enquanto temia que uma Mercedes de R$ 250 mil pudesse fazê-lo parar nas manchetes e algemado.

Outro nome que já integrou o alto escalão da Fazenda paulista também entrou na mira da investigação. Vitor Manuel dos Santos Alves Jr., ex-comandante da Diretoria Executiva da Administração Tributária (Deat), foi alvo de mandados de busca e apreensão em sua residência e em seu escritório.

Após deixar o serviço público, Vitor passou a atuar justamente no setor de recuperação de créditos tributários, área diretamente relacionada ao esquema investigado pelo Ministério Público. Ele não foi preso.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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