Documentos internos revelam que Prefeitura de São Paulo e Governo do Estado respondiam por 85% da carteira de convênios do Digimais. Tanto o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes e o Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sabiam das movimentações e dos acordos firmados. A investigação aponta que ambos tinham conhecimento, já que se tratava de operações complexas que envolviam uma grande parte dos ativos financeiros com consignados. Estratégia de crescimento ocorreu pouco antes de rebaixamento de risco, apontamentos do Banco Central e investigação da Polícia Federal.
O Banco Digimais, instituição financeira ligada ao empresário e líder religioso Edir Macedo, fez do funcionalismo público paulista o principal motor de sua expansão no mercado de crédito consignado. Documentos internos obtidos pela reportagem mostram que a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado concentravam, juntos, 85% da carteira de convênios do banco, responsável por viabilizar empréstimos com desconto direto na folha de pagamento dos servidores.
Os dados indicam que a administração municipal da capital respondia por 60% dessa carteira, enquanto o governo estadual representava outros 25%. A concentração ocorreu durante uma profunda mudança na estratégia de negócios do Digimais, que decidiu reduzir sua atuação no financiamento de veículos para apostar no crescimento do crédito consignado, modalidade considerada mais previsível e rentável.
A forte dependência da folha de pagamento dos servidores paulistas ganha relevância porque, poucos meses depois, o banco passou a enfrentar uma sequência de problemas. A instituição foi rebaixada pela Moody’s Local Brasil, recebeu apontamentos do Banco Central sobre sua contabilidade e tornou-se alvo de investigação da Polícia Federal por suspeitas de gestão fraudulenta e operações financeiras irregulares.
Os 85% mencionados nos documentos referem-se exclusivamente à carteira de convênios do próprio Digimais, e não à participação da instituição no mercado de crédito consignado destinado aos servidores públicos paulistas.
São Paulo virou a principal aposta do banco
Uma apresentação estratégica elaborada pelo próprio Digimais mostra que o banco mantinha 69 convênios com órgãos públicos e projetava ultrapassar a marca de 100 acordos até o fim de 2025.
O documento revela que a expansão do consignado ocupava posição central no novo planejamento da instituição e que São Paulo se transformava no principal mercado da operação.
A Prefeitura da capital concentrava a maior fatia da carteira de convênios, seguida pelo Governo do Estado. Os demais contratos apareciam com participação significativamente menor.
Na prática, o crescimento previsto pelo banco estava diretamente associado ao acesso à folha de pagamento de milhares de servidores públicos paulistas.
Expansão alcançou municípios paulistas
Além dos convênios com o Estado e a capital, a reportagem identificou credenciamentos, autorizações ou convênios firmados pelo Digimais em pelo menos oito municípios paulistas, entre eles São Sebastião, Ubatuba, Praia Grande, Pindamonhangaba, Tupã, Tambaú e Guarulhos.
Os processos seguiram procedimentos administrativos próprios de cada prefeitura. A maior parte dessas cidades, entretanto, era administrada por prefeitos filiados ao PL, Republicanos e MDB ou por partidos que integram a base política do governador Tarcísio de Freitas.
Mudança de rumo coincidiu com sinais de fragilidade
As demonstrações financeiras de 2025 mostram que o Digimais alterou significativamente seu modelo de negócios ao priorizar a expansão do crédito consignado.
Ao mesmo tempo em que ampliava essa carteira, porém, começaram a surgir sinais de deterioração financeira.
Em abril de 2026, a Moody’s Local Brasil rebaixou a classificação de risco da instituição e atribuiu perspectiva negativa ao banco.
Segundo a agência, o Digimais havia elevado sua exposição a fundos de investimento alternativos, que somavam R$ 4,2 bilhões, equivalente a 42,6% dos ativos totais e a 5,4 vezes o patrimônio líquido.
O relatório também apontou que o índice de Capital Nível I caiu para 8%, abaixo do mínimo regulatório de 8,5%, exigindo novos aportes dos controladores.
Outro alerta foi o avanço dos chamados ativos problemáticos, que atingiram 16,6% da carteira de crédito no fim de 2025.
A agência ainda registrou ressalvas sobre R$ 3,1 bilhões em fundos de investimento mantidos pelo banco, destacando limitações de informações para avaliar esses ativos.
Foi justamente nesse período, segundo a documentação analisada, que o Digimais intensificou a celebração de novos convênios com órgãos públicos para ampliar sua atuação no consignado.
Banco Central apontou irregularidades
Os problemas financeiros foram seguidos por medidas adotadas pelos órgãos de fiscalização. Representação apresentada pela Polícia Federal à Justiça Federal afirma que o Banco Central identificou indícios de inserção de informações falsas em demonstrações contábeis e operações vedadas envolvendo empresas ligadas ao grupo controlador. Entre os fatos descritos está o registro contábil de ativos ligados ao Hermon FIDC-NP por cerca de R$ 741 milhões, embora o custo estimado de aquisição fosse de aproximadamente R$ 71 milhões.
Segundo a representação, mesmo após determinações do Banco Central para corrigir os registros, operações posteriores teriam permitido a manutenção desses valores nas demonstrações financeiras. A Polícia Federal requereu o bloqueio de aproximadamente R$ 670 milhões, além da realização de buscas e apreensões e da quebra de sigilos.
Respostas do Governo de SP e Prefeitura
Em nota, o Governo de São Paulo informou que o ingresso de instituições financeiras no sistema estadual de consignações ocorre por meio de credenciamento público, conforme as regras do Decreto nº 60.435/2014, sem contratação direta ou escolha discricionária.
Segundo o Executivo, o Digimais preenchia todos os requisitos legais e regulatórios quando foi habilitado. O governo acrescentou que, em maio de 2026, o banco respondia por 1,57% do volume mensal das consignações realizadas pelos servidores estaduais e que acompanha permanentemente a situação das instituições credenciadas.
A Prefeitura de São Paulo informou, por meio da Secretaria Municipal de Gestão, que o Digimais integra o grupo de 57 instituições financeiras habilitadas a operar crédito consignado para servidores municipais.
De acordo com a administração, a participação da instituição representa atualmente menos de 3% das consignações em folha realizadas pelos servidores da capital.