“Quando nomeei, eu achei que pudesse. Quando você pega a definição de parentesco do Código Civil, concunhado não aparece, mas uma decisão do Fachin, de 2019, inclui o concunhado. É coisa que acontece.”
O governador de São Paulo e ex-ministro da Infraestrutura do governo Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas (Republicanos), viu familiares ocuparem cargos e funções na administração pública durante sua passagem pelo governo federal e, posteriormente, na gestão paulista.
Algumas dessas nomeações provocaram questionamentos sobre possível favorecimento e, em um dos casos, resultaram na revogação do ato após repercussão pública. A denúncia foi feita pelo portal DCM, pelo repórter Vinícius Segalla.
O Radar Brasileiro conseguiu mais informações sobre o QG de Nepotismo comandado pelo governador Tarcísio de Freitas.
O primeiro caso envolve Matheus Ferreira de Freitas, filho mais velho de Tarcísio. Ele ingressou, em março de 2020, como estagiário do então Ministério da Economia, atualmente Ministério da Fazenda, onde permaneceu até março de 2022, período em que Paulo Guedes comandava a pasta. Na época da contratação, Matheus tinha 21 anos e conciliava o estágio com atividades de consultoria no Grupo Gestão, organização vinculada à Universidade de Brasília (UnB), instituição onde iniciava o curso de Engenharia de Produção.
A experiência profissional consta no currículo público de Matheus. Além disso, documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto ao Ministério da Fazenda confirmam sua participação no programa de estágio curricular não obrigatório entre 11 de março de 2020 e 11 de março de 2022.
Segundo informações registradas no Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos (SIAPE), o estágio foi realizado sob supervisão da Coordenação-Geral de Fortalecimento Institucional da Diretoria de Gestão Estratégica (CGFOR/DGE) do extinto Ministério da Economia. O programa previa jornada de 30 horas semanais e bolsa mensal de R$ 1.125.
De acordo com o plano de atividades formalizado no momento da contratação, o estagiário era responsável por auxiliar em rotinas administrativas, acessar e organizar arquivos, apoiar a análise de relatórios gerenciais, colaborar na criação de processos de produção e no desenvolvimento de projetos, além de contribuir para a elaboração de documentos técnicos.
Após a saída de Tarcísio de Freitas do governo federal, Matheus Ferreira de Freitas deixou o estágio no Ministério da Economia e passou a atuar na iniciativa privada. Ele foi contratado pelo BTG Pactual, banco controlado pelo empresário André Esteves. A informação foi publicada, em agosto de 2024, pelo site O Bastidor, do jornalista Diego Escosteguy.
Na ocasião, o caso teve pouca repercussão na grande imprensa. Procurados sobre a contratação, tanto o BTG Pactual quanto o Governo de São Paulo evitaram comentar o mérito da informação e afirmaram que se tratava de um tema relacionado à vida privada do filho do governador.
Cerca de um ano depois, o assunto voltou à tona em reportagem do jornalista Joaquim de Carvalho, do portal Brasil 247. Na ocasião, o Governo de São Paulo respondeu oficialmente aos questionamentos e afirmou que a contratação de Matheus Ferreira de Freitas ocorreu com base em critérios técnicos, descartando qualquer irregularidade. O posicionamento, entretanto, teve pouca repercussão na imprensa.
Em nota, a gestão Tarcísio sustentou que a contratação não envolveu favorecimento e atribuiu a escolha à qualificação profissional do filho do governador.
ESPOSA DE TARCÍSIO RECEBEU R$18 MIL DE SALÁRIO

A esposa de Tarcísio de Freitas também passou a ocupar um cargo na administração federal durante o período em que o hoje governador comandava o Ministério da Infraestrutura no governo Jair Bolsonaro. Entre setembro de 2020 e, pelo menos, abril de 2022, Cristiane Ferreira da Silva Freitas atuou como coordenadora de Integridade e Integração da Embratur, função com remuneração mensal de R$ 18.375,37.
À época, Cristiane integrava a estrutura da agência subordinada à gerente Catiane dos Santos Monteiro Seif, esposa de Jorge Seif, então secretário de Aquicultura e Pesca do governo Bolsonaro e atual senador pelo PL de Santa Catarina. Catiane ocupava um cargo de gerência com salário de R$ 25.767,50.
A nomeação ocorreu em um período em que diferentes integrantes do governo Bolsonaro passaram a ocupar postos estratégicos na Embratur, órgão vinculado ao Executivo federal e responsável pela promoção internacional do turismo brasileiro.
A “BONDADE” DE TARCÍSIO DEU EMPREGO ATÉ PRO CUNHADO

Já no início de seu mandato como governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas nomeou o militar da reserva Maurício Pozzobon Martins, marido da irmã de sua esposa, para o cargo de assessor especial do governador II. A nomeação foi publicada no Diário Oficial do Estado em 11 de janeiro de 2023 e previa remuneração mensal de R$ 21.017,85.
Depois de Tarcísio revogar, em janeiro de 2023, a nomeação de seu concunhado Maurício Pozzobon Martins para o Palácio dos Bandeirantes, ele voltou ao setor público. Em 2025, passou a atuar como assessor no gabinete do deputado estadual Danilo Campetti (Republicanos), aliado de primeira hora de Tarcísio e ex-integrante de sua equipe de campanha. O cargo foi perdido apenas em abril de 2026, em razão da troca de parlamentares na Alesp decorrente da desincompatibilização para as eleições, e não por decisão relacionada ao episódio de nepotismo.
No mesmo ato administrativo, o governador também nomeou Diego Torres Dourado, irmão da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, para exercer o cargo de assessor especial do governador I, com salário de R$ 19.204,22 por mês.
As duas nomeações ocorreram nos primeiros dias da nova gestão e chamaram atenção por envolverem pessoas com vínculos familiares com integrantes do núcleo político do governador e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Posteriormente, a nomeação de Maurício Pozzobon Martins foi revogada após questionamentos sobre a aplicação das regras de vedação ao nepotismo.