O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, colocou a segurança pública no centro de sua campanha nesta segunda-feira (10). Em entrevista à CNN Brasil, acompanhada pelo Radar Brasileiro, durante o lançamento do programa SP Que Protege, Haddad apresentou uma série de propostas para a área e aproveitou para criticar a política de segurança adotada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), especialmente pela resistência à integração com as forças federais.
“Ao convidar um capitão para assumir a segurança publica, desarrumando a casa. Ele nomeou coronéis que acabaram fazendo com que vários coronéis experientes se aposentassem, fossem pra reserva. Nós perdemos a inteligência por conta das nomeações que foi um dos pecados que esse governo cometeu. Ele baratinou a hierarquia da PM, uma desvantagem muito grande pra cadeia de comando, nós perdemos muito a cadeia de comando”, afirmou.
O plano apresentado por Haddad tem como principal eixo o combate à impunidade e prevê a criação de uma Agência Estadual Antifacção, a utilização de inteligência artificial para prevenção e investigação de crimes, a integração entre polícias e órgãos de controle e a divulgação trimestral de indicadores de criminalidade.
Durante a entrevista à CNN, Haddad defendeu que o combate ao crime organizado não pode ficar restrito às forças estaduais. Segundo ele, a cooperação entre União e Estado deveria ser permanente.
“Se nós quisermos levar a segurança publica a serio, precisamos colocar na mesma mesa as maiores autoridades dos órgãos de combate ao crime. Eu duvido que qualquer que seja o presidente, deixe de indicar um membro da PF em SP para não participar de um gabinete criado pelo governador. O que tem acontecido são os governadores de extrema direita recusarem o apoio federal”, disse Haddad.
O candidato também criticou o que classificou como resistência de governos estaduais de direita à participação federal na segurança.
“Os governadores de extrema direita recusarem o apoio federal”, disse Haddad durante a entrevista.
A declaração retoma uma crítica que o petista já havia feito diretamente a Tarcísio. Em maio, Haddad acusou o governador de rejeitar ajuda federal para enfrentar o avanço do crime organizado e afirmou que São Paulo não conseguiria combater sozinho as facções.
Na ocasião, disse que o presidente Lula havia se colocado à disposição para ajudar o Estado e que Tarcísio teria recusado a cooperação.
“Sozinho não se faz nada”, diz Haddad
Em uma das críticas mais diretas ao governador, Haddad afirmou anteriormente que o combate ao crime organizado exige atuação conjunta entre diferentes instituições.
“O Comando Vermelho já está em São Paulo. O que Tarcísio está fazendo? O que pode fazer sozinho? Nada. Sozinho não se faz nada”, declarou.
Segundo Haddad, o governo federal deveria ser tratado como parceiro, e não como adversário político na área da segurança.
“Ele precisa do apoio federal”, afirmou o candidato, acrescentando que considera um “absurdo” um governador rejeitar uma oferta de cooperação da Presidência da República.
Na entrevista Haddad voltou ao argumento e defendeu a participação da Polícia Federal em uma estrutura estadual permanente de combate ao crime organizado.
Agência Estadual Antifacção
A principal novidade apresentada pelo candidato é a criação de uma Agência Estadual Antifacção. A estrutura reuniria Ministério Público, polícias, Receita Estadual e órgãos de controle, sob coordenação estratégica do governador.
A proposta tem como foco atingir não apenas os integrantes das organizações criminosas, mas também o patrimônio e os mecanismos financeiros utilizados pelas facções.
Haddad pretende usar como referência operações que atacaram a estrutura econômica do crime organizado, como a Operação Carbono Oculto.
A ideia é bloquear patrimônios, identificar empresas e mecanismos utilizados para inserir dinheiro ilícito na economia formal e, posteriormente, destinar socialmente bens confiscados.
Durante o lançamento, Haddad resumiu a estratégia em uma frase:
“Nós vamos prender o contador, o ‘laranja’ e também aquele que lava dinheiro para as facções.”
O candidato afirma que o objetivo é alcançar o chamado “andar de cima” do crime organizado, atingindo aqueles que financiam e dão sustentação econômica às organizações criminosas.
Inteligência artificial para combater crimes

Outra frente do programa é o uso de inteligência artificial na segurança pública.
A proposta prevê cruzar imagens de câmeras, boletins de ocorrência e chamadas para o telefone 190 para identificar regiões e horários com maior concentração de crimes.
Com essas informações, o governo poderia criar mapas de calor e orientar o patrulhamento policial de acordo com os locais de maior incidência criminal.
O sistema também seria utilizado durante as ocorrências. Chamadas feitas ao 190 poderiam ser cruzadas em tempo real com imagens de câmeras para localizar o endereço do chamado e acionar a viatura mais próxima.
Nas investigações, a inteligência artificial seria utilizada para relacionar diferentes ocorrências, identificar padrões, cruzar imagens e reunir informações que atualmente ficam dispersas em diferentes sistemas.
“Placar da Segurança”
Haddad também propõe a criação do chamado Placar da Segurança, mecanismo de transparência que divulgaria a cada três meses os índices de resolução de crimes.
Os dados seriam apresentados por região e incluiriam roubos, furtos, homicídios e feminicídios, acompanhados de metas públicas.
A proposta pretende mudar a forma como o desempenho da segurança pública é apresentado à população, permitindo que os resultados sejam acompanhados periodicamente.
O programa estabelece como prioridade o aumento da quantidade de crimes esclarecidos, e não apenas a redução das ocorrências registradas.
Câmeras corporais com gravação contínua
Outra promessa apresentada pelo candidato é a retomada da gravação contínua das câmeras corporais utilizadas pelos policiais militares.
Haddad afirma que, se eleito, os equipamentos deverão registrar todo o período de serviço dos agentes, sem depender do acionamento voluntário do policial.
A medida é uma diferença clara em relação ao modelo adotado atualmente pelo governo Tarcísio.
Segundo o programa apresentado pela campanha, as câmeras têm dupla função: proteger a população durante as abordagens e também resguardar os próprios policiais diante de acusações injustas.
Mulheres, crianças e idosos
A proposta de Haddad também dedica uma frente específica à violência dentro de casa.
O candidato afirma que pretende utilizar tecnologia para identificar situações de risco envolvendo mulheres e permitir que o Estado atue antes que agressões evoluam para crimes mais graves.
Uma das ideias é cruzar informações de diferentes serviços públicos, inclusive registros hospitalares, para identificar padrões que possam indicar violência doméstica.
Haddad também promete fortalecer as Delegacias da Mulher e criar mecanismos de atendimento especializado.
Para crianças e adolescentes vítimas de violência, o plano prevê atendimento especializado e realização de perícia em até 48 horas.
Para idosos, a proposta é criar um canal específico de denúncias, com acompanhamento dos casos.
Porto de Santos e interior também entram no plano
O programa não se limita à capital.
Para o interior paulista, Haddad propõe patrulhamento permanente dos principais corredores logísticos, com foco em roubos de cargas, furto de gado, máquinas agrícolas, defensivos e insumos.
A proposta também prevê atenção à receptação, considerada pela campanha uma das engrenagens que financiam esses crimes.
No Porto de Santos, o candidato quer criar uma força-tarefa permanente envolvendo forças estaduais e federais, Receita Federal, Polícia Federal, autoridade portuária e Marinha.
A estrutura teria orçamento e mandato próprios e seria voltada ao combate ao tráfico internacional e a outros crimes relacionados à utilização do porto.
“Governador da segurança”
Durante o lançamento, Haddad afirmou que pretende assumir pessoalmente a coordenação política da segurança pública caso seja eleito.
A proposta é criar um gabinete institucional dedicado exclusivamente ao tema e aproximar as diferentes corporações.
“Quando o Estado se organiza, o crime não pode com ele”, afirmou.
Haddad também defendeu o fim do que chamou de disputa permanente entre as instituições policiais.
Segundo ele, a falta de coordenação favorece conflitos entre as corporações e prejudica o trabalho de inteligência e investigação.
O candidato resumiu sua proposta ao afirmar que pretende ser o “governador da segurança pública” e trabalhar para “devolver a rua às pessoas e proteger as mulheres e as famílias”.
Segurança vira um dos principais campos de disputa eleitoral
O lançamento do SP Que Protege ocorre um dia depois do primeiro debate entre Haddad e Tarcísio, realizado pela Band, no qual a segurança pública esteve entre os principais temas do confronto.
A estratégia de Haddad procura deslocar o debate da simples presença ostensiva da polícia para três frentes: prevenção e patrulhamento nas ruas, proteção dentro das casas e combate à estrutura financeira do crime organizado.
Ao mesmo tempo, o candidato tenta estabelecer uma diferença política em relação ao atual governador: enquanto Tarcísio enfatiza a autonomia estadual e uma política de enfrentamento mais ostensiva, Haddad coloca a integração com órgãos federais como um dos pilares de sua proposta.
Na entrevista à CNN, acompanhada pelo Radar Brasileiro, Haddad voltou a defender essa integração e afirmou que, se eleito, pretende colocar diferentes instituições na mesma mesa.
Para o petista, o combate às facções exige justamente o contrário do isolamento entre governos: cooperação permanente, compartilhamento de informações e atuação conjunta para atingir tanto os criminosos nas ruas quanto a estrutura financeira que sustenta as organizações.
A segurança pública, portanto, passa a ocupar posição central na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, com Haddad apresentando seu plano como uma tentativa de combinar tecnologia, inteligência, transparência, integração institucional e combate ao crime organizado.