O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (21) que considera uma “pena” o enfraquecimento do PSDB, partido que dominou a política paulista por quase três décadas e que, neste ano, deve abrir mão de disputar o Palácio dos Bandeirantes para apoiar a reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Em entrevista ao canal MyNews, Haddad avaliou que o desaparecimento do PSDB como uma força política competitiva deixou um vácuo no campo da centro-direita, cenário que, segundo ele, acabou fortalecendo a extrema direita no país.
“Eu também queria que o PSDB voltasse a existir. Foi realmente uma pena. O PSDB tinha grandes quadros — uma pessoa como Covas, como Alckmin, como Serra, como Fernando Henrique.”
Apesar das históricas disputas eleitorais entre PT e PSDB, Haddad afirmou que havia uma base comum de valores democráticos compartilhada entre os dois partidos. Como exemplo, citou o vice-presidente Geraldo Alckmin, adversário do PT em diversas eleições e hoje integrante do governo Lula.
“São pessoas que pensam diferente da gente do PT, mas que têm um solo comum de conceitos e de valores, que não são dispensáveis num país como o Brasil.”
Segundo Haddad, temas considerados fundamentais para a democracia nunca estiveram em debate entre petistas e tucanos.
“Ninguém ali discutia soberania nacional, democracia. Ninguém discutia a dignidade da pessoa humana, o combate ao preconceito — seja contra a mulher, seja contra o negro. Tinham tantos valores comuns que essas coisas não se discutiam.”
Na avaliação do ex-ministro, as divergências entre os dois partidos concentravam-se nas políticas públicas e na condução econômica.
“Você discutia se ia privatizar ou não, se ia valorizar o salário mínimo ou não. Era outro departamento.”
Crítica à descaracterização do PSDB
Haddad também fez uma retrospectiva do declínio eleitoral dos tucanos em São Paulo e afirmou que o partido perdeu sua identidade antes mesmo das eleições de 2022.
Para ele, tanto João Doria quanto Rodrigo Garcia já não representavam o projeto político tradicional do PSDB.
“Já na eleição passada, todo mundo sabe que o Rodrigo Garcia não tinha nada de tucano. Mas foi o jeito do Doria — que também não tinha nada de tucano — de manter a chama do PSDB de alguma forma viva. Foi uma debacle: Doria, Rodrigo Garcia, e acabou.”
“Fica só a truculência da extrema direita”
Ao concluir a análise, Haddad afirmou que o enfraquecimento de uma centro-direita estruturada produziu consequências negativas para o ambiente político brasileiro.
Segundo ele, a ausência de um campo conservador moderado reduziu o espaço para o debate democrático e abriu caminho para posições mais radicalizadas.
“Eu lamentei como cidadão mesmo. Se não tem uma força de centro-direita organizada, você fica só com a truculência — que é hoje o que existe no país. A truculência da extrema direita.”
As declarações ocorrem em um momento de reorganização do cenário político paulista. Após décadas protagonizando as disputas pelo governo de São Paulo, o PSDB caminha para apoiar a candidatura à reeleição de Tarcísio de Freitas, enquanto lideranças históricas da legenda migraram para outras siglas ou deixaram a vida partidária.