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Justiça Eleitoral tenta barrar aliado de Tarcísio acusado de ligação com o PCC

Brasil

MP Eleitoral aponta risco à “soberania popular e à integridade das instituições democráticas” e pede ao TRE-SP que impeça Ney Santos de disputar vaga na Câmara; ex-prefeito de Embu das Artes acumula prisões, investigações e condenação em primeira instância

A Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo (PRE-SP) protocolou uma ação para impugnar o registro da candidatura de Claudinei Alves dos Santos, o Ney Santos (Republicanos), que pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições deste ano.

Ex-prefeito de Embu das Artes, na Grande São Paulo, o político é aliado e amigo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e acumula, ao longo de sua trajetória, prisões, investigações e processos judiciais.

O Radar Brasileiro já mostrou a relação próxima de Ney Santos e Tarcísio de Freitas. Enquanto Tarcísio critica Haddad nos debates, o governador esquece que além de dividir palco com condenado pela justiça, dá fácil acesso a Ney Santos ao Palácio dos Bandeirantes. 

A ação é assinada pelo procurador regional eleitoral Paulo Taubemblatt e será analisada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). Segundo a Procuradoria, a permanência da candidatura representaria risco à “soberania popular e à integridade das instituições democráticas”.

Ney Santos apoiou abertamente Tarcísio e Bolsonaro, principalmente no segundo turno das eleições.

O caso também envolve acusações de suposta ligação de Ney Santos com o Primeiro Comando da Capital (PCC). É importante, porém, distinguir as acusações de fatos já reconhecidos definitivamente pela Justiça: um inquérito que investigava o ex-prefeito por suposta lavagem de dinheiro para a facção foi trancado e arquivado em 2023 por decisão judicial, após quase 11 anos de investigação, sob o entendimento de que não haviam sido reunidos elementos suficientes para demonstrar autoria e materialidade.

Em nota, Ney Santos afirma que “não integra, não representa e não mantém qualquer vínculo com facção, grupo ou organização criminosa”. Segundo ele, acusações dessa natureza voltam a circular em períodos eleitorais e transformariam “alegações e narrativas antigas em verdades estabelecidas”.

Relação política com Tarcísio

Ney Santos não é apenas um integrante do mesmo partido de Tarcísio. Os dois já apareceram juntos em eventos públicos e registros de campanha.

Se dizem bons amigos nas redes sociais. E o mesmo Tarcísio, elogia Ney Santos dizendo que “se não fosse ele, ele jamais conheceria São Paulo”.

O ex-prefeito de Embu das Artes chegou a atuar como um dos principais articuladores políticos do governador na região metropolitana durante a campanha de 2022.

O próprio Tarcísio já se referiu a Ney Santos como uma espécie de “embaixador da Região Metropolitana”, em reconhecimento ao trabalho de articulação política realizado durante sua campanha ao governo paulista.

A proximidade entre os dois voltou a chamar atenção nos últimos anos. Em 2022, Tarcísio esteve em Embu das Artes durante a campanha ao governo paulista, quando Ney Santos era prefeito. A relação política entre ambos também foi registrada pela imprensa.

Condenação por posse de arma

Um dos episódios mais recentes envolvendo Ney Santos terminou em condenação pela Justiça de São Paulo.

Em novembro de 2025, a Justiça condenou o ex-prefeito a três anos e nove meses de prisão, em regime semiaberto, por posse de arma de fogo e munição de uso proibido. A decisão foi proferida em primeira instância pela 2ª Vara Criminal de Cosmópolis. A defesa recorreu e ele recebeu o direito de responder ao processo em liberdade.

O caso remonta a fevereiro de 2019. Na ocasião, uma pistola Taurus calibre .380 com numeração suprimida, carregadores e uma mira laser foram encontradas em um Toyota Corolla alugado pela Prefeitura de Embu das Artes. Também foram apreendidas munições.

O veículo era utilizado por Ney Santos e por um agente penitenciário, Lenon Roque Alves Domingos, que também foi condenado no processo. Segundo a sentença, o fato de Santos ocupar o cargo de prefeito à época foi considerado uma circunstância que agravava a gravidade da conduta.

Acusações de ligação com o PCC

A trajetória de Ney Santos também é marcada por investigações relacionadas ao crime organizado.

Durante anos, a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo investigaram a suspeita de que ele utilizasse empresas do setor de combustíveis para lavagem de dinheiro e mantivesse relações com integrantes do PCC.

Em 2010, quando disputava uma vaga de deputado federal, a Polícia Civil investigou Santos sob suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis, uma ONG e uma factoring para lavagem de dinheiro. Na época, segundo a investigação divulgada pela Folha de S.Paulo, ele era suspeito de movimentar cerca de R$ 6 milhões por mês por meio dos postos.

Anos mais tarde, em 2016, quando foi eleito prefeito de Embu das Artes, o Ministério Público voltou a investigar suspeitas de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas por meio de postos de combustíveis. A investigação deu origem à Operação Xibalba.

O inquérito, entretanto, não resultou em condenação por esses fatos. Em 2023, a Justiça determinou o trancamento da investigação que havia sido aberta em 2012. O juiz responsável considerou que, após quase 11 anos de diligências, não haviam sido obtidos elementos suficientes para comprovar autoria e materialidade dos crimes investigados.

Prisões e processos anteriores

O histórico judicial de Ney Santos começou antes de sua entrada na política.

Em 1999, quando tinha 19 anos, ele foi preso e posteriormente condenado por receptação e formação de quadrilha. Em 2003, voltou a ser preso sob acusação de participação em um assalto a carro-forte. Segundo registros jornalísticos da época, permaneceu cerca de dois anos preso. Posteriormente, foi absolvido em segunda instância por falta de provas.

Em 2010, durante sua primeira tentativa de chegar à Câmara dos Deputados, Santos foi preso novamente, faltando poucas semanas para a eleição. Na ocasião, era investigado por crimes como lavagem de dinheiro, estelionato, adulteração de combustível, sonegação fiscal e formação de quadrilha.

Na operação, policiais apreenderam máquinas de contar dinheiro, uma Ferrari avaliada em aproximadamente R$ 1,5 milhão e outros bens. Também foram encontrados 34 quilos de maconha em um dos veículos ligados à campanha, segundo reportagens publicadas na época.

Ascensão política e controvérsias eleitorais

Apesar do histórico de investigações, Ney Santos construiu uma carreira política em Embu das Artes. Foi eleito vereador em 2012 e chegou à Prefeitura em 2016, quando venceu a disputa com ampla vantagem.

Naquele ano, sua candidatura chegou a ser questionada pela Justiça Eleitoral com base na Lei da , mas uma decisão liminar permitiu que ele concorresse. Ele terminou eleito.

Posteriormente, sua posse foi ameaçada por uma ordem de prisão relacionada às investigações sobre lavagem de dinheiro e suposta associação com o tráfico de drogas. Santos permaneceu foragido por cerca de 40 dias até conseguir uma decisão liminar que permitiu sua posse.

A trajetória eleitoral voltou a sofrer um revés em 2022. O TRE-SP manteve a cassação da chapa que havia vencido a eleição municipal de 2020, por entender que houve abuso de autoridade relacionado ao uso do nome e da imagem do prefeito em material de propaganda institucional. A decisão também atingiu o vice-prefeito em razão da unidade da chapa. Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral manteve a cassação.

Patrimônio declarado

Outro ponto que chama atenção na trajetória política de Ney Santos são suas declarações patrimoniais.

Em 2016, quando concorreu à Prefeitura de Embu das Artes, ele declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 2,1 milhões. Desse total, cerca de R$ 1,6 milhão aparecia declarado como dinheiro em espécie.

Na declaração apresentada para a atual candidatura a deputado federal, o patrimônio informado é de aproximadamente R$ 2,2 milhões, dos quais cerca de R$ 1,8 milhão aparecem novamente como dinheiro em espécie.

Os valores, por si só, não caracterizam irregularidade, mas fazem parte do conjunto de informações que acompanha a trajetória política e judicial do candidato.

O que está em análise agora

A nova ação apresentada pela Procuradoria Regional Eleitoral coloca novamente a situação de Ney Santos no centro da disputa eleitoral paulista. O TRE-SP terá de analisar os argumentos apresentados pelo Ministério Público Eleitoral e a documentação relacionada ao pedido de registro.

Enquanto a Justiça Eleitoral não decidir o caso, Ney Santos permanece candidato, mas sua situação jurídica está sob questionamento.

O político nega qualquer relação com organizações criminosas e afirma que as acusações são antigas e vêm sendo retomadas em períodos eleitorais.

A principal questão agora será saber se os fundamentos apresentados pela Procuradoria Regional Eleitoral são suficientes para impedir o registro da candidatura de um dos principais aliados políticos de Tarcísio de Freitas na Grande São Paulo.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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