A entrada da Polícia Federal no caso Dark Horse abriu uma nova frente de pressão sobre o governador Tarcísio de Freitas. Diante das perguntas da imprensa sobre a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), o governador foi colocado diante de um assunto que seu governo dificilmente conseguirá contornar: por que a investigação que estava nas mãos da Polícia Civil de São Paulo precisou ganhar uma nova dimensão com a participação da PF?
O Radar Brasileiro mostrou essa semana a proximidade de Tarcísio, Karina da Gama e Ricardo Nunes. Tarcísio anda com medo de vazar a relação de amizade da esposa com Karina da Gama. Tarcísio e a esposa Cristiane Freitas frequentavam até pouco tempo a mesma igreja evangélica de Karina da Gama. E a Lobista tinha acesso fácil ao Palácio dos Bandeirantes, participando de agendas públicas. E se reunia com a família de Tarcísio e do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.

Tarcísio não se antecipou para esclarecer o assunto. A resposta veio depois da insistência dos jornalistas, que fizeram exatamente o papel que se espera da imprensa: questionar o governador sobre uma investigação de interesse público e sobre a atuação de uma estrutura policial subordinada ao governo estadual.
Pressionado, Tarcísio saiu em defesa da Polícia Civil e criticou os questionamentos sobre a investigação paulista. O governador chegou a classificar como “desrespeito” as críticas à corporação, enquanto confirmou que os elementos da apuração serão compartilhados com a Polícia Federal.
A cena é reveladora. Em vez de aproveitar a oportunidade para defender transparência absoluta e demonstrar tranquilidade diante da entrada da PF, Tarcísio adotou uma postura de defesa da investigação conduzida em São Paulo.
Politicamente, a reação chama atenção justamente porque a decisão de Dino aumenta o número de olhos sobre um caso que já provoca desconforto no ambiente político paulista.
VEJA A REAÇÃO DE TARCÍSIO:
Dino amplia o alcance da investigação
A decisão de Flávio Dino permite que a Polícia Federal tenha acesso aos elementos apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo. Na prática, isso possibilita aos investigadores federais cruzar documentos, dados e outras provas obtidas na investigação paulista com informações reunidas em sua própria apuração.
A PF investiga uma frente relacionada à utilização de emendas parlamentares no financiamento do filme Dark Horse. A Polícia Civil, por sua vez, conduz investigações relacionadas a contratos e recursos públicos envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e a produtora ligada ao filme.
É justamente aí que está o ponto mais sensível.
A investigação deixa de depender exclusivamente da estrutura policial paulista e passa a contar com uma segunda instituição, com capacidade própria de cruzamento de informações.
E quanto mais informações forem cruzadas, maior será a possibilidade de esclarecer conexões que eventualmente tenham permanecido separadas durante a investigação estadual.
A relação com Karina da Gama aumenta a pressão
O caso ganha uma dimensão política ainda maior por causa das relações de Karina da Gama, ligada à produtora de Dark Horse, com personagens importantes da política paulista.
Reportagens já apontaram vínculos de Karina com Tarcísio de Freitas, Ricardo Nunes e outros integrantes do campo político bolsonarista.
Isso não significa que Tarcísio ou Nunes sejam acusados de participar de qualquer irregularidade. Não há essa conclusão nas informações disponíveis.
Mas a proximidade torna inevitável que jornalistas façam perguntas ao governador. E foi justamente isso que aconteceu.
A imprensa não criou o problema. A imprensa apenas perguntou.
E, diante da pergunta, Tarcísio precisou se posicionar.
O que incomoda politicamente
A decisão de Dino não acusa Tarcísio de nada. Também não retira a investigação das mãos da Polícia Civil. O que ela faz é ampliar o acesso às provas e permitir que a PF avance sobre elementos que já estavam em poder dos investigadores paulistas.
Mas é justamente essa ampliação que cria um problema político para o governador. Tarcísio está com medo de novas revelações. Igual ele mesmo tem medo de novas revelações do Banco Master apareçam durante da campanha.
Agora, não é apenas a estrutura policial do Estado de São Paulo que terá acesso ao material. A Polícia Federal também poderá analisar as provas, cruzar informações e seguir caminhos próprios de investigação.
Para Tarcísio, que preferiu defender publicamente a atuação da Polícia Civil quando pressionado pelos jornalistas, a situação é especialmente delicada.
O governador pode dizer que não há nada a temer. E é exatamente por isso que a entrada da PF deveria ser recebida com naturalidade.
Se não há nada a esconder, quanto mais investigação independente, melhor.
O problema é que a reação de Tarcísio chamou atenção justamente porque ele não tratou o assunto como uma simples questão institucional. Foi necessário que os jornalistas insistissem para que o governador respondesse e, quando respondeu, sua prioridade foi defender a investigação paulista.
A imprensa fez seu papel
O episódio também expõe uma questão que deveria ser óbvia: governadores não escolhem quais perguntas querem responder.
Quando existe uma investigação envolvendo dinheiro público, relações políticas e pessoas próximas ao círculo de poder, cabe aos jornalistas perguntar. Cabe à imprensa insistir quando a resposta não vem. E cabe ao governador prestar esclarecimentos.
Foi sob essa pressão que Tarcísio falou sobre o caso.
E o resultado foi politicamente incômodo: a decisão de Flávio Dino colocou a Polícia Federal dentro de uma investigação que Tarcísio fez questão de defender.
Agora, resta saber o que os investigadores federais encontrarão quando cruzarem as informações.
Porque a entrada da PF não significa uma condenação de ninguém.
Significa apenas que as provas passarão a ser examinadas por mais uma estrutura independente de investigação.
E, em um caso que envolve recursos públicos, contratos e relações políticas, talvez seja justamente isso que mais incomode quem preferia que a história permanecesse restrita aos limites da investigação estadual.