O avanço das investigações sobre contratos públicos envolvendo o Instituto Conhecer Brasil (ICB) colocou no centro do debate político uma rede de relações construída pela empresária Karina Ferreira da Gama, presidente da entidade e sócia da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Reportagens investigativas, documentos públicos e procedimentos instaurados por órgãos de controle mostram que Karina consolidou, ao longo dos últimos anos, uma intensa aproximação com integrantes do campo bolsonarista, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o prefeito da capital, Ricardo Nunes, e o deputado federal Mário Frias.
Essas relações políticas, por si só, não configuram irregularidade. Porém, apresenta um teor íntimo entre os envolvidos. Ainda mais se tratando de um governador e de um prefeito, ambos de SP, declarados bolsonaristas. Entretanto, elas passaram a ser examinadas paralelamente ao crescimento de contratos públicos, emendas parlamentares e projetos culturais ligados à empresária.
Além disso, projetos ligados à Academia Nacional de Cultura passaram a depender de análise administrativa da Secretaria da Cultura. Os cerca de R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares destinadas à Academia Nacional de Cultura (ANC) pelos deputados federais Alexandre Ramagem (PL-RJ), Carla Zambelli (PL-SP), Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS) passaram a ser alvos de apuração por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida foi adotada no âmbito das investigações sobre a transparência e a destinação de recursos provenientes das chamadas “emendas Pix”, após o ministro determinar a adoção de providências para esclarecer a aplicação desses valores. a paulista para eventual liberação de recursos estaduais provenientes de emendas parlamentares.
Crescimento institucional
Levantamento publicado pela Agência Pública mostra que Karina Gama passou a frequentar gabinetes ministeriais, secretarias estaduais, eventos oficiais e encontros com lideranças políticas conservadoras enquanto expandia as atividades da Go Up Entertainment e da Academia Nacional de Cultura (ANC), organização que também preside.
Segundo a reportagem, a empresária tornou-se uma das principais articuladoras de projetos audiovisuais ligados ao campo bolsonarista, entre eles Dark Horse, produção que retrata Jair Bolsonaro.
Nesse período, registros públicos mostram encontros e fotografias com Mário Frias — ex-secretário especial de Cultura e atualmente deputado federal —, além de agendas com Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas.
Emendas sob investigação
Outro eixo das apurações envolve recursos destinados por parlamentares bolsonaristas.
De acordo com documentos citados pela Agência Pública, a Academia Nacional de Cultura recebeu aproximadamente R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares encaminhadas por deputados federais aliados de Jair Bolsonaro.
Esses recursos passaram a ser investigados por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, dentro das apurações sobre o uso das chamadas “emendas Pix”. Segundo a reportagem, os valores seriam utilizados na produção da série Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem, dependendo posteriormente de aprovação da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para formalização do termo de fomento.
Não há informação pública de que Tarcísio de Freitas seja investigado nesse procedimento.
Contrato com a Prefeitura de São Paulo
As investigações mais avançadas concentram-se, até o momento, no contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil para implantação de pontos de internet gratuita.
Segundo a Polícia Civil, há suspeitas de irregularidades na execução contratual, incluindo possíveis fraudes, pagamentos indevidos e eventual desvio de recursos públicos.
Uma das linhas investigativas busca esclarecer se parte desses recursos teria beneficiado a Go Up Entertainment, produtora responsável por Dark Horse. A suspeita é objeto de investigação e não representa conclusão definitiva das autoridades.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos tanto na sede do Instituto Conhecer Brasil quanto em repartições da Prefeitura de São Paulo.
Defesa de Ricardo Nunes
Após a operação policial, o prefeito Ricardo Nunes saiu publicamente em defesa de Karina Gama.
Ele afirmou considerar a empresária uma “pessoa decente” e sugeriu que a investigação poderia ter motivação política em razão da produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, declarou desconhecer qualquer irregularidade nos contratos celebrados pela Prefeitura e afirmou que toda a documentação já havia sido entregue aos investigadores.
O papel de Mário Frias
Mário Frias aparece como uma das figuras políticas mais próximas da empresária.
Segundo a Agência Pública, a aproximação ocorreu desde o período em que Frias ocupava a Secretaria Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro. A partir dessa relação, Karina ampliou sua atuação em projetos audiovisuais voltados ao segmento conservador, culminando na produção de Dark Horse.
Tarcísio aparece na rede de relações, mas não é investigado
Encontros públicos e interlocução entre Karina Gama e o governador Tarcísio de Freitas aconteceram em mais de uma oportunidade.
Até o momento, contudo, não existe informação pública de que Tarcísio de Freitas seja investigado, indiciado ou denunciado em qualquer procedimento relacionado ao contrato do Instituto Conhecer Brasil, à produção de Dark Horse ou às investigações conduzidas pela Polícia Civil, pelo Ministério Público ou pelo Supremo Tribunal Federal.
Investigações continuam
As investigações permanecem em andamento e buscam esclarecer se houve fraude em contratos administrativos, utilização irregular de recursos públicos e eventual financiamento cruzado entre entidades privadas e produções audiovisuais.
Até a conclusão dos procedimentos, os fatos apurados permanecem sob análise das autoridades competentes. Nenhuma decisão judicial definitiva reconheceu responsabilidade criminal dos investigados, e as pessoas citadas têm direito à ampla defesa e ao contraditório.