O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) está na mira da Polícia Federal pra responder uma pergunta que permanece sem resposta até o momento:
O quê aconteceu com R$ 1 milhão de emenda PIX enviado pela União ao Governo de São Paulo para um projeto audiovisual que nunca saiu do papel, ligado à empresária Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment?
O dinheiro foi destinado pelo deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) por meio da emenda nº 44200010, no valor de R$ 1 milhão.
A finalidade apresentada era financiar a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”, projeto associado à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina da Gama. A empresária é a mesma responsável pela Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”.
A pergunta ganha peso porque o próprio governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sabia e tomou conhecimento de tudo e ainda participou da tramitação do projeto junto ao deputado do PL.
A série, porém, nunca foi produzida.
E é justamente a partir daí que começa a parte mais nebulosa da história que Tarcísio tenta fugir de todo jeito.
O trecho está na parte que lista as emendas por autor. Procure por “Autor: (Deputado Federal) Marcos Pollon”. Logo abaixo aparece:
A cronologia do dinheiro que chegou a São Paulo e sumiu
A emenda de Pollon foi uma transferência especial da União para o Estado de São Paulo. O parlamentar informou ao Supremo Tribunal Federal que pretendia utilizar o recurso para viabilizar a produção da série por intermédio da estrutura ligada a Karina da Gama.
O projeto não era desconhecido da administração estadual. Pelo contrário, houveram tratativas entre Pollon, Karina da Gama e Tarcísio de Freitas e Marília Marton, Secretária de Estado da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo.
Em parecer técnico, a Secretaria da Cultura do governo Tarcísio considerou a proposta da série “em plena sintonia com os interesses institucionais” da pasta e manifestou-se favoravelmente ao mérito do projeto.
Ou seja: o governo estadual analisou o projeto, avaliou positivamente sua finalidade e o recurso federal estava dentro da estrutura financeira do Estado.
Mas a produção não aconteceu.
O encontro
No dia 25 de fevereiro de 2024, o acordo da emenda PIX para a produção do filme começou a ser costurado após um ato político na avenida Paulista, em São Paulo.
Tarcísio e Pollon estiveram no mesmo ato político. Depois jantaram em São Paulo.
Nos meses de outubro e novembro de 2024, Pollon passou a atuar diretamente em defesa de Tarcísio no episódio envolvendo as acusações sobre suposta orientação do PCC nas eleições paulistanas.
Em 1º de novembro, por exemplo, foi noticiado que Pollon queria levar o ministro Ricardo Lewandowski à Câmara para tratar das declarações feitas por Tarcísio sobre o caso.
O parlamentar levantou as provas da Polícia Civil paulista com a ajuda de Tarcísio de Freitas sobre os bilhetes de presos aos familiares com orientação de votos em Guilherme Boulos (PSOL), adversário do prefeito Ricardo Nunes.
O registro do dinheiro

A emenda de Pollon (nº 44200010 – Ação 0EC2) foi registrada pelo governo federal como “Transferência Especial da União”, a chamada “emenda Pix”, modalidade que permite a transferência de recursos a estados e municípios sem a definição prévia de uma finalidade específica.
Obtido com exclusividade pelo Radar Brasileiro, o Parecer Técnico nº 0047451126, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, mostra como o recurso foi analisado e aprovado dentro do governo paulista.
A proposta da ANC para o projeto “Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rende” passou pela Unidade de Difusão Cultural, Bibliotecas e Leitura da Secretaria e recebeu parecer “expressamente favorável”.
O projeto previa três documentários de até 56 minutos cada, em 4K, sobre:
- “Portugal: Luz para o Brasil”,
- “José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil”
- “Dom Pedro I: o Libertador”.
As produções seguiam uma abordagem histórica de viés conservador.
O cronograma estabelecia 12 meses de execução, com duas pré-estreias previstas: uma em Brasília e outra em São Paulo.
Nunca saiu do papel.
Outro despacho, de julho de 2025, mostra que o IPHAN foi consultado sobre o projeto, mas concluiu que ele não se enquadrava em suas atribuições.
O caso envolve a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade privada sem fins lucrativos sediada em São Paulo, que recebeu as emendas destinadas ao projeto.
Além dos R$ 1 milhão atribuídos a Marcos Pollon (PL-MS), a ANC também foi beneficiária de recursos indicados pela ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), atualmente presa na Itália, pelo deputado cassado Alexandre Ramagem (PL-RJ) e por Bia Kicis (PL-DF). Somadas, as emendas destinadas ao projeto chegaram a R$ 2,65 milhões.
O dinheiro, porém, não chegou à produtora responsável pela produção. A série não saiu do papel e nunca foi produzida.
O dinheiro seguiu outro caminho até sumir

Diante da impossibilidade de execução do projeto, Pollon afirmou que pediu o cancelamento do empenho financeiro e o redirecionamento do dinheiro para outra finalidade, mencionando o Hospital de Amor, em Barretos.
Aí, a história ganha contornos obscuros.
Não foi localizado, até agora, documento público que comprove que a Fundação Pio XII, mantenedora do Hospital de Amor, efetivamente recebeu aquele R$ 1 milhão específico.
Existe a versão do parlamentar.
Existe o registro de que o dinheiro foi enviado ao Governo do Estado de São Paulo.
Existe o fato de que a série não foi produzida.
Mas não aparece, de forma pública, a ordem bancária que permita dizer quem foi o destinatário final do R$ 1 milhão.
É justamente essa lacuna que precisa ser esclarecida.
O Radar Brasileiro buscou informações junto ao Hospital de Amor, em Barretos. Até o momento, não deram retorno sobre a origem do dinheiro.
Tarcísio de Freitas sabe, mas não fala

O dinheiro foi transferido para São Paulo, e a Secretaria de Cultura do governo Tarcísio participou da análise do projeto.
Em parecer técnico, a pasta declarou que a proposta da série estava “em plena sintonia com os interesses institucionais” da Secretaria e manifestou-se expressamente favorável ao mérito do projeto.
Portanto, há uma sequência objetiva que liga o governador Tarcísio de Freitas ao dinheiro:
Pollon destina R$ 1 milhão → dinheiro chega ao Governo de São Paulo → Secretaria de Cultura analisa o projeto → governo dá parecer favorável → projeto não é executado.
E é justamente depois disso que começam as perguntas mais incômodas.
Primeiro: o dinheiro de Pollon foi destinado ao Governo de São Paulo para um projeto que tinha como destino uma estrutura ligada a Karina da Gama.
Segundo: a Secretaria da Cultura do governo Tarcísio emitiu parecer favorável ao projeto da série.
Terceiro: depois que a produção não saiu do papel, a trilha pública do R$ 1 milhão indica que o dinheiro caiu no Palácio dos Bandeirantes, precisamente na secretaria de Cultura. E, de lá, não saiu.
Karina da Gama
A mulher que aparece nessa história não é uma produtora desconhecida.
Karina Ferreira da Gama preside a Academia Nacional de Cultura e é sócia da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”.
A ANC era a entidade indicada como responsável pela série que receberia as emendas.
A produção para a qual Pollon destinou o R$ 1 milhão não aconteceu.
E aqui está o ponto que exige uma explicação detalhada do governo paulista.
Em maio, o próprio Governo de São Paulo informou que as emendas destinadas à série estavam sem execução, por causa de pendências técnicas e documentais relacionadas ao beneficiário.
O dinheiro que deveria ir para um hospital, nunca foi. E, Tarcísio tenta abafar o caso da imprensa.
Portanto, uma coisa está documentada:
A ANC não teria recebido o R$ 1 milhão.
A Go Up também não teria recebido esse dinheiro.
E a série não foi produzida.
Aqui aparece a contradição que precisa ser esclarecida.
A assessoria de Marcos Pollon afirmou que, depois de o projeto não cumprir os requisitos necessários, sua emenda de R$ 1 milhão foi redirecionada para uma instituição oncológica.
Em outras declarações, o destino apontado foi o Hospital de Amor, em Barretos.
Mas existe um problema enorme:
não apareceu, até agora, a documentação pública capaz de demonstrar que aquele R$ 1 milhão específico efetivamente chegou à Fundação Pio XII, mantenedora do Hospital de Amor.
E o próprio Governo de São Paulo havia informado que os recursos permaneciam retidos e sem execução.
Tarcísio na mira na Polícia Federal
O caso deixou de ser uma simples disputa sobre uma emenda.
O ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar provas coletadas pela Polícia Civil de São Paulo em investigação envolvendo a Go Up Entertainment e entidades ligadas a Karina da Gama.
Tarcísio tratou o caso como “Desrespeito”. O Radar Brasileiro mostrou o incômodo de Tarcísio com a Polícia Federal no encalço.
A investigação paulista nasceu de suspeitas relacionadas a contratos públicos do Instituto Conhecer Brasil, outra organização ligada à empresária.
Tarcísio afirmou que a Polícia Civil de São Paulo cumprirá a decisão de Dino e compartilhará as provas com a PF.
Ou seja: o governador diz que a polícia paulista deve colaborar com a investigação.
Perguntas sem respostas
Se foi, onde está o documento?
Qual foi o novo empenho?
Qual foi a data?
Qual foi a ordem bancária?
Qual foi o CNPJ do beneficiário?
Se foi para o Hospital de Amor, por que o comprovante não aparece de forma clara na trilha pública do recurso?
Se não foi, onde estão os R$ 1 milhão hoje?
Por quê o dinheiro está retido, Tarcísio?