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Haddad: omissão do governo Bolsonaro com as bets ‘daria improbidade administrativa’

Política

Em entrevista ao canal Cortes 247, Fernando Haddad afirma que parlamentares bolsonaristas têm vínculos políticos com as casas de aposta, cobra responsabilização pela falta de regulamentação e diz que o setor abusa do 'direito de aliciamento'.

Fernando Haddad durante entrevista – Reprodução: Cortes 247 / YouTube

Fernando Haddad afirmou que a ausência de regulamentação das casas de apostas on-line durante o governo de Jair Bolsonaro configuraria, “no mínimo”, improbidade administrativa, e sustentou que parlamentares bolsonaristas mantêm vínculos políticos com o setor. As declarações foram dadas ao jornalista Thiago Suman e divulgadas pelo canal TV 247, em entrevista publicada no dia 12 de Julho de 2026.

Na conversa, Haddad — que comandou o Ministério da Fazenda — reconstitui o histórico legal do setor, defende que as investigações em curso são “caso de polícia” e diz esperar que a eleição amplie a pressão sobre as empresas. Ele também critica a condução da segurança pública em São Paulo.

Assista ao trecho abaixo:

Corte publicado pelo canal Cortes 247, sob o título “Haddad e bets: Bolsonaro e Guedes em apuros”. Pergunta conduzida por Thiago Suman.

“O Bolsonaro não fez absolutamente nada”

Haddad situa a origem do problema na legalização das apostas de quota fixa, sancionada durante o governo Michel Temer, que previa prazo de até quatro anos — “dois mais dois”, nas palavras dele — para que a atividade fosse regulamentada. Segundo Haddad, o prazo correu sem que o governo seguinte agisse.

O Bolsonaro não fez absolutamente nada durante o governo dele. Deixou todo mundo jogar. Todo mundo podia jogar. O governo não era com o governo, não era assunto do governo. E criou um ecossistema no Brasil em torno disso.Fernando Haddad

Ele afirma que, à época, beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família e o Auxílio Brasil não encontravam qualquer barreira para apostar.

Vínculos políticos com o setor

Ao explicar por que, na sua avaliação, o governo anterior não avançou na regulamentação, Haddad aponta ligações políticas entre parlamentares e as empresas de apostas. Ele faz questão de delimitar a acusação: fala em vínculos políticos, e não econômicos.

Muitos bolsonaristas têm vínculos, pelo menos políticos. Eu não vou afirmar que são econômicos também, porque isso a polícia é que tem que fazer. Mas políticos eu posso assegurar que são. Eu não sei até onde vai isso, nem quero saber, porque de novo, isso é assunto para a polícia apurar. E eu acho que é caso de polícia mesmo.Fernando Haddad

As medidas que o governo diz já ter adotado

Haddad cita uma operação recente contra apostas ilegais e afirma que outras virão. Segundo ele, o trabalho envolve Ministério da Fazenda, COAF, Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público.

O governo atual, o governo Lula, desbaratou uma quadrilha de bets ilegais no Nordeste, com ramificações no Rio e em São Paulo. […] E outras operações virão.Fernando Haddad

Entre as travas já em vigor, ele lista:

  • Restrição por CPF para beneficiários de programas sociais, que ficam impedidos de apostar;
  • Bloqueio de menores de 18 anos, também pelo CPF;
  • Botão de autoexclusão, que permite a quem se sinta dependente retirar o próprio CPF do ecossistema de apostas.

Haddad afirma ainda que a legislação atual, ao alcançar fintechs e big techs envolvidas com apostas ilegais, “vai ajudar muito a polícia a atuar de forma decisiva”.

Publicidade e aliciamento: “isso tem que acabar”

O ponto em que Haddad admite que o próprio governo está aquém é o da propaganda. Ele classifica o volume de publicidade como “uma coisa absurda” e diz que o tema precisa ser atacado com mais força.

Essas casas de aposta abusam muito do direito de publicidade, do direito de aliciamento. Isso tem que acabar.Fernando Haddad

Para ele, a campanha eleitoral tende a acelerar o debate e pode “turbinar as ações repressivas” sobre o setor, ao permitir que a população cobre responsabilidade também do governo anterior.

Impostos: “uma padaria paga imposto; as bets não pagavam”

A crítica mais dura de Haddad é sobre a arrecadação. Ele contrapõe a situação das apostas à de qualquer pequeno negócio formal e diz não compreender a inércia dos órgãos de controle no período.

Todos nós aqui pagamos impostos. As bets não pagavam. Uma padaria, uma farmácia, um supermercado paga imposto. As bets não pagavam. Por que ninguém ligou para isso?Fernando Haddad

É nesse ponto que ele levanta a hipótese de responsabilização administrativa:

Isso, em qualquer lugar civilizado, daria improbidade administrativa. No mínimo. No mínimo, improbidade administrativa. Nem isso aconteceu.Fernando Haddad

Haddad cita nominalmente Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas ao questionar por que não são cobrados pela omissão do período.

Segurança pública: críticas a Tarcísio e a Derrite

No mesmo corte, Haddad trata da articulação entre União e estados no combate ao crime organizado. Sua principal objeção ao governador de São Paulo, diz, é a recusa da parceria federativa em torno da PEC da Segurança Pública e da chamada lei antifacção.

Foi um erro da parte do governo do estado de São Paulo não abraçar a tese de que a organização dos órgãos de segurança no país é o ingrediente mais saudável para combater o crime organizado.Fernando Haddad

Ele afirma que o deputado Guilherme Derrite cumpriu “um papel muito deletério” ao retirar o crime de colarinho branco do texto da lei antifacção, e cita o caso do empresário Daniel Vorcaro para questionar o alcance da proposta. Para Haddad, a definição de crime organizado que sai desse desenho é estreita:

Os chefes do crime organizado não moram na comunidade, não moram na periferia. Alguns não moram no Brasil, alguns moram em Miami, estão lavando dinheiro em Delaware.Fernando Haddad

Transparência

As declarações reproduzidas nesta matéria foram feitas por Fernando Haddad em entrevista ao jornalista Thiago Suman, publicada em corte pelo canal Cortes 247. As citações foram transcritas do áudio do vídeo e receberam ajustes mínimos de pontuação e concordância, sem alteração de sentido.

As afirmações são de responsabilidade do entrevistado. Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite não participam do corte e, portanto, não se manifestam sobre as acusações nele contidas. O Radar Brasileiro mantém seus canais abertos para manifestação das partes citadas.

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

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