Tarcísio de Freitas subiu ao palanque da Avenida Paulista nesta segunda-feira, 7 de setembro, para fazer aquilo que se tornou uma marca de sua atuação política: falar em nome de Deus para atacar instituições, usa o nome de Deus essencialmente de forma eleitoral para atacar o PT, invoca Deus novamente para legitimar seu candidato e ainda se apresenta como defensor da lei.
O problema é que, quando o discurso é colocado diante dos fatos, a embalagem começa a descolar do conteúdo. Esse é Tarcísio de Freitas.
Ao lado de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, Tarcísio declarou que “ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei” e defendeu que as recentes revelações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes sejam investigadas institucionalmente.
Até aí, trata-se de uma posição política legítima. O problema começa quando o governador transforma uma cobrança dirigida ao STF em uma espécie de discurso malicioso de defesa da democracia, enquanto o próprio palanque no qual estava instalado era usado para promover a candidatura de Flávio Bolsonaro e defender o legado político de Jair Bolsonaro.
No mesmo palanque Tarcísio de Feitas, Sérgio Moro, Eduardo Cunha, Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Valdomiro Santiago, Silas Malafaia, Valdemar Costa Neto, Sóstenes Cavalcante, Bia Kicis, Marco Feliciano, Deltan Dallagnol, Douglas Ruas e Rogéria Bolsonaro.

SÓ TINHA SANTO NESSE PALANQUE. A maioria já teve passagem pela polícia, foi preso, investigado ou condenado pela justiça.
Tarcísio ainda recorreu diretamente à religião. Ele teve a audácia de dizer que, em 2018, “Deus levantou Jair Messias Bolsonaro” para lutar contra o sistema e, em seguida, afirmou que agora “Deus levanta Flávio Bolsonaro”. Um tremendo fariseu.
Não é apenas uma declaração de apoio eleitoral. É a tentativa de revestir uma escolha política de uma espécie de hipocrisia chancela divina — como se a candidatura de Flávio deixasse de ser uma decisão eleitoral e passasse a representar uma missão determinada por Deus.
Isso é Tarcísio de Freitas. Um político raso e oportunista.
Mas a realidade não se curva ao palanque.
O governador também falou em independência, corrupção e na necessidade de libertar o país daqueles que, segundo ele, querem destruí-lo. Declarou independência do PT, de Lula e de uma “corja”. Só que existe uma pergunta que Tarcísio não respondeu na Paulista: independência de quê, exatamente, se ele próprio está pedindo votos para o herdeiro político de Jair Bolsonaro e transformando seu mandato de governador em instrumento de mobilização eleitoral?
Um governador que deixou a secretaria da fazenda com dívida bilionária, funcionários em esquema criminoso e ativos dos Estado quebrados.
A contradição fica ainda mais evidente quando Tarcísio fala em lei.
“Ninguém está acima da Constituição”, disse o governador, citando banqueiros, senadores, magistrados, ministros, governadores e presidentes. É uma frase bonita. E o próprio Tarcísio em São Paulo, está?
O problema é que discurso sobre igualdade perante a lei precisa valer para aliados e adversários. Tarcísio não pode exigir rigor institucional de um lado enquanto participa de um movimento político que transformou a defesa de Jair Bolsonaro e de seus aliados em uma de suas principais bandeiras. A cobrança por investigação deve ser universal, não seletiva.
E é justamente aí que a retórica começa a bater de frente com o histórico de hipocrisia do próprio governador.
A hipocrisia de Tarcísio é posar de paladino da moral enquanto tenta vender a imagem de homem acima de qualquer suspeita.
Aponta o dedo para adversários, mas se irrita quando alguém aponta a lupa para seu próprio governo e suas escolhas.
Fala em ordem, transparência e responsabilidade como se essas palavras fossem propriedade particular dele.
Mas governante que exige cobrança dos outros precisa aceitar a mesma cobrança sobre si — sem chilique e sem narrativa.
Porque discurso de moralista perde toda a força quando a realidade começa a bater na porta.
Tarcísio tenta vender a imagem de gestor técnico, eficiente e capaz de entregar resultados. Mas, quando o assunto é educação, os números não autorizam a propaganda triunfalista.
Em checagem recente, a Agência Lupa mostrou que Tarcísio errou ao afirmar que São Paulo havia mantido determinadas posições no ranking do Ideb.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, por exemplo, a rede estadual saiu da 4ª posição em 2023 para a 7ª em 2025. Nos anos finais, caiu da 6ª para a 7ª posição. No ensino médio, considerando o ensino técnico, passou da 6ª para a 8ª posição.
Mais grave: o desempenho do ensino médio estadual, segundo a mesma checagem, caiu de 4,4 em 2021 para 4,3 em 2025. São Paulo, que já esteve atrás apenas de Paraná e Goiás, terminou na 10ª posição naquele recorte. Ou seja: enquanto o governador tenta apresentar sua gestão como uma máquina de resultados, a posição relativa do Estado na educação não acompanhou a propaganda.
Na segurança pública, a situação é mais complexa do que o discurso eleitoral faz parecer.
A própria Lupa confirmou que o Estado registrou, no primeiro semestre de 2026, o menor número de latrocínios para o período desde o início da série histórica, em 2001. Isso precisa ser reconhecido. MAS ELE ESQUECEU QUE DAS 173 CIDADES QUE NÃO TIVERAM CRIMES, SEGUNDO ELE, VÁRIAS TIVERAM CRIMES, ENTENDEU? ELE MENTE… E MUITO PRA VOCÊ CIDADÃO.
Vai lá e pesquisa: teve roubo, estupro, estupro de vulnerável, latrocínio. Uma festa do boi morto.
Mas isso não autoriza Tarcísio a vender São Paulo como líder absoluto em todos os indicadores de segurança. A Lupa classificou como exagerada sua afirmação de que São Paulo teria “o menor indicador do Brasil”. O Estado apresenta desempenho excepcional em determinadas métricas, mas não lidera todas elas.
Essa diferença importa porque propaganda política transforma uma conquista específica em uma suposta prova de excelência geral.
O mesmo acontece quando o governador conta a história dos concursos da Polícia Civil. Tarcísio gosta de apresentar as contratações como realização exclusiva de sua administração.
A checagem mostra que a história é mais complicada: um dos concursos havia sido lançado em 2021, no governo João Doria, e outro conjunto de vagas foi autorizado em setembro de 2022, ainda na gestão Rodrigo Garcia.
Tarcísio ampliou convocações e realizou nomeações importantes — mas não pode apagar as etapas iniciadas antes de assumir.
No saneamento, outra fala de Tarcísio também não resiste bem ao confronto com os números.
O governador afirmou que determinadas cidades da Grande São Paulo tratavam “zero” de esgoto em 2022. Não era zero. Cajamar tratava 0,72%; Franco da Rocha, 3,41%; e Francisco Morato, 0,19%. São índices baixíssimos e representam um problema grave de saneamento, mas dizer “zero” é tecnicamente incorreto.
É assim que funciona a construção da imagem política de Tarcísio: um número ruim vira zero; um avanço específico vira liderança absoluta; uma etapa iniciada em governos anteriores aparece como realização própria; uma melhora em determinado indicador vira prova de que todo o sistema funciona perfeitamente.
E há uma contradição ainda maior no discurso da eficiência.
Tarcísio transformou privatizações e concessões em uma das marcas de sua administração. A Sabesp foi privatizada em julho de 2024, com reduções tarifárias anunciadas para determinadas categorias de consumidores. Esse é um resultado que precisa ser reconhecido.
Mas privatizar não encerra a discussão. Ao contrário: começa outra. Quem ganhou? Quem assumiu os ativos? Qual foi o impacto fiscal? Quais metas foram estabelecidas? Qual foi o investimento realizado? Qual será o custo para o Estado no longo prazo? Quanto do patrimônio público deixou de estar sob controle direto do governo? Essas perguntas são muito mais importantes do que repetir a palavra “eficiência” no palanque.
E existe ainda o problema das contas públicas.
Reportagem da Folha publicada em agosto apontou deterioração gradual das contas paulistas no encerramento do ciclo de Tarcísio, ao mesmo tempo em que o governo ampliou o volume de investimentos e apostou em PPPs. Segundo os números apresentados, considerando as inversões financeiras, o quadriênio de 2023 a 2026 somaria R$ 110,7 bilhões, contra R$ 96,6 bilhões no governo anterior.
Ou seja: a história real é mais complexa do que a caricatura de um governo simplesmente “gastador” ou simplesmente “eficiente”. Há investimentos, há obras e há resultados positivos em determinadas áreas. Mas também há deterioração de indicadores, escolhas controversas, privatizações, problemas de gestão e uma distância entre a propaganda política e aquilo que os dados efetivamente permitem afirmar.
É justamente essa distância que Tarcísio tentou esconder na Paulista.
O governador não subiu ao palco para prestar contas de São Paulo. Não apresentou um balanço detalhado da educação. Não explicou a queda relativa do Estado no Ideb. Não abriu os números completos das concessões. Não discutiu os problemas que permanecem na segurança. Não explicou as contradições das próprias declarações anteriores.
Subiu para falar de Lula.
Falou de PT.
Falou de Moraes.
Falou de Bolsonaro.
E, principalmente, falou de Flávio Bolsonaro.
A frase mais reveladora talvez tenha sido justamente a que menos tem relação com a administração paulista: “Deus levanta Flávio Bolsonaro.” Tarcísio, que deveria estar prestando contas como governador, assumiu o papel de cabo eleitoral de um candidato à Presidência.
Isso ajuda a explicar a verdadeira função daquele palanque.
Não era uma prestação de contas.
Era uma operação política.
Tarcísio tentou transformar sua autoridade institucional de governador em capital eleitoral para Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, utilizou o discurso de defesa da Constituição para atacar adversários e invocou Deus para apresentar a sucessão dentro do bolsonarismo como uma espécie de destino.
Mas existe um problema com essa narrativa: a realidade não vota em palanque.
A realidade está na escola que precisa melhorar, no ranking que caiu, no indicador que não acompanha a propaganda, no contrato que precisa ser explicado, na concessão que precisa ser fiscalizada, no dinheiro público que precisa ser acompanhado e nas promessas que precisam ser comparadas com o resultado entregue.
Tarcísio pode repetir quantas vezes quiser que São Paulo está melhor.
A pergunta jornalística é outra:
melhor em quê, segundo qual indicador, comparado com qual período e com qual custo?
Porque, quando os números são colocados sobre a mesa, o personagem construído no palanque começa a desaparecer.
E sobra o que deveria importar desde o primeiro dia: o balanço de um governo.