Link copiado!
Checagem Radar TendenciosoParcialmente verdadeiro

Flávio Bolsonaro já sabia de tudo e mais um pouco; menos a imprensa e a população

Opinião

É, no mínimo, muito estranho. No domingo, na Paulista, Flávio Bolsonaro fez declarações que pareciam antecipar o que aconteceria nos dias seguintes — e falou em tom de quem já esperava uma virada. Agora, Mendonça afasta o diretor-geral da Polícia Federal. Tarcísio se posiciona e comemora. Nikolas também aparece com declarações que entram no mesmo roteiro. São peças demais se encaixando ao mesmo tempo. A sequência dos acontecimentos levanta uma pergunta impossível de ignorar: eles estavam apenas apostando politicamente no que poderia acontecer ou já tinham conhecimento do que estava por vir?

O Radar Brasileiro não está descobrindo essa história agora. A gente já vinha acompanhando as peças desse tabuleiro muito antes de elas explodirem diante do país. E Flávio Bolsonaro também não pode posar de surpreendido.

Enquanto o público assistia à escalada da crise envolvendo André Mendonça, Daniel Vorcaro, o Banco Master e a Polícia Federal, as conexões já estavam aparecendo. Havia encontros, mensagens, áudios, personagens que se cruzavam e uma disputa institucional que, cedo ou tarde, inevitavelmente chegaria ao campo político.

André Mendonça deveria ser apenas ministro do Supremo Tribunal Federal. Deveria agir como magistrado, com independência, distância dos partidos, dos candidatos e das disputas eleitorais.

O que o Brasil está assistindo nesta reta decisiva de 2026 é uma situação que merece ser encarada com extrema preocupação: um ministro indicado por Jair Bolsonaro, escolhido justamente por representar o perfil “terrivelmente evangélico” que o então presidente prometera colocar no Supremo, agora toma uma das decisões mais explosivas do cenário institucional brasileiro justamente quando o filho de seu antigo padrinho político disputa a Presidência da República.

Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal e também afastou o diretor de Inteligência da instituição, Leandro Almada.

A justificativa apresentada pelo ministro envolve relatórios que ele considerou ilícitos, apócrifos e sem validade probatória, além de alegações de que teria sido alvo de monitoramento ilegal.

A decisão provocou uma crise institucional e ocorre em um momento particularmente delicado: a eleição presidencial está em andamento e Flávio Bolsonaro é candidato.

E há um detalhe politicamente impossível de ignorar: Flávio Bolsonaro correu para comemorar a decisão. Ele já sabia de tudo que André Mendonça faria.

Disse que o grupo de Lula na Polícia Federal teria sido “desmascarado” e transformou a decisão judicial em munição eleitoral contra o adversário.

Isso não prova que Mendonça tenha tomado a decisão para beneficiar Flávio. Mas mostra algo que deveria incomodar profundamente qualquer pessoa preocupada com a separação entre Justiça e política: uma decisão de enorme impacto sobre a principal instituição de investigação criminal do país imediatamente se transforma em combustível para a campanha presidencial do filho de quem colocou o próprio Mendonça no Supremo.

E essa coincidência não pode ser tratada como detalhe

Mendonça não chegou ao STF vindo de uma trajetória de absoluta distância do bolsonarismo. Ele foi Advogado-Geral da União e ministro da Justiça no governo Bolsonaro.

Em 2021, Bolsonaro o indicou para ocupar a cadeira deixada por Marco Aurélio Mello. O Senado aprovou a indicação por 47 votos a 32, e Mendonça tomou posse em dezembro daquele ano.

Portanto, quando hoje Mendonça toma uma decisão capaz de provocar uma crise com a Polícia Federal, não é absurdo que o país faça perguntas. Ao contrário: perguntar é obrigação democrática.

A mesma Polícia Federal que foi sucateada pelo então presidente golpista Jair Bolsonaro, que afirmou em alto e bom som:

“SE FOR PRECISO TROCAR TODO O COMANDO DA POLÍCIA FEDERAL PARA DEFENDER A MINHA FAMÍLIA EU TROCO”, disse Bolsonaro aos berros. Só faltou o berrante na mão.

Que ninguém venha exigir silêncio em nome da toga.

A toga não transforma uma decisão politicamente explosiva em decisão imune a questionamentos.

E o problema fica ainda mais delicado quando se observa a relação de Mendonça com o universo religioso. O ministro é pastor presbiteriano e mantém uma atuação pública ligada à fé cristã. Nos últimos dias, sua igreja chegou a retirar vídeos de pregações após a circulação de cortes que, segundo a própria instituição, estavam sendo utilizados de maneira descontextualizada e sensacionalista.

O problema não é André Mendonça ser religioso.

O problema seria qualquer ministro do Supremo permitir que convicções religiosas, vínculos políticos ou relações pessoais se sobreponham ao dever constitucional de imparcialidade.

E é exatamente por isso que também é preciso questionar a transformação da política brasileira em uma espécie de tribunal religioso no qual determinados políticos passam a ser apresentados como “ungidos”, “escolhidos” ou “abençoados” por Deus.

É aí que entra Michelle Bolsonaro

Michelle não é autoridade religiosa capaz de determinar quem foi escolhido por Deus. Não existe procuração divina para declarar candidato “ungido”. Não existe certificado celestial de legitimidade eleitoral. E nenhum ministro do Supremo deveria ser tratado como integrante de uma estrutura política na qual líderes religiosos, familiares de políticos e candidatos definem quem seria o escolhido por uma suposta vontade divina.

Deus não pode ser transformado em cabo eleitoral.

Fé não pode virar instrumento de campanha.

E o Supremo não pode virar extensão de projeto político.

O Brasil já viu o estrago produzido quando instituições públicas são colocadas a serviço de projetos pessoais. Já viu o que acontece quando Polícia Federal, Ministério Público, Forças Armadas e Judiciário são transformados em peças de uma guerra política. O país não precisa repetir esse roteiro com outros personagens.

E esse impacto é gigantesco.

MENDONÇA TEM MORAL PRA FALAR DOS OUTROS?

E quando André Mendonça tenta posar de autoridade moral para investigar os outros, existe uma pergunta que não pode ser varrida para debaixo do tapete: qual é a relação dele com o poder econômico que circulava ao seu redor?

Estamos falando do afastamento do chefe da Polícia Federal em plena eleição presidencial. Estamos falando de uma decisão que imediatamente passou a ser explorada pelo candidato Flávio Bolsonaro. Estamos falando de um ministro cuja indicação ao Supremo veio do pai do candidato beneficiado politicamente pelo episódio.

O Instituto Iter, fundado por Mendonça, recebeu R$ 8,2 milhões em recursos públicos por meio de 52 contratos com instituições públicas em pouco mais de dois anos. O próprio ministro era sócio da instituição ao lado da esposa, embora não ocupasse cargo formal de direção.

E então aparece Daniel Vorcaro

O ex-dono do Banco Master esteve no Instituto Iter para uma reunião com Mendonça em março de 2025. O ministro confirmou o encontro, embora sustente que o assunto tratado tenha sido uma ação relacionada a precatórios e que ele apenas ouviu as demandas do banqueiro.

O Supremo precisa ser o lugar onde o poder político termina — não o lugar onde determinados grupos políticos encontram uma trincheira institucional.

André Mendonça não é Bolsonaro.

Não é Flávio Bolsonaro.

Não é Michelle Bolsonaro.

E não deveria agir como se fosse.

Sua cadeira pertence à República, não à família que o indicou.

Seu compromisso deveria ser com a Constituição, não com qualquer projeto político.

Sua autoridade deriva da Constituição, não de púlpitos, alianças partidárias ou da bênção de quem quer transformar uma eleição em batalha entre “ungidos” e “inimigos de Deus”.

É justamente por isso que o comportamento de Mendonça precisa ser observado com lupa.

Porque, quando um ministro do Supremo toma uma decisão capaz de alterar o equilíbrio político de uma eleição presidencial, a pergunta não pode ser apenas “qual é a justificativa jurídica?”.

André Mendonça tem moral pra julgar e falar de alguém?

O que já estava escrito era: Flávio Bolsonaro já sabia de tudo que está acontecendo agora!

Sobre o autor Maicon Mendes Redação · Radar Brasileiro

Jornalista com trajetória construída nos principais grupos de comunicação do país, como Grupo Globo, SBT, Record, Band, Jovem Pan News, RedeTV! e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Ao longo da carreira, atuou como apresentador de telejornais, repórter investigativo e enviado especial na cobertura dos principais acontecimentos do país, acompanhando de perto temas de interesse público nas áreas de política, economia, cidades e atualidade. Sempre se destacou com fatos exclusivos envolvendo os bastidores da notícia.

Ver todas as matérias