Quando não está mentindo, o negócio de Flavio Bolsonaro é confundir.
Ao contrario do que ele e sua turma querem dar a entender, o fim da escala 6×1 não significa impedir ninguém de fazer nada. As 40 horas de jornada são um direito do trabalhador, não uma obrigação.
Direito, sim, de descansar dois dias por semana, sem redução do salário; mas também de trabalhar o quanto queira, desde que ganhe as horas extras previstas pela lei.
É preciso deixar esse ponto muito claro, porque tudo que Flavio quer é confundir a cabeça do eleitor: ninguém está obrigado a trabalhar “apenas” 40 horas por semana.
A liberdade do trabalhador de escolher sua jornada, se vai usar seu tempo para descansar, fazer horas extras, ou labutar num outro emprego, continua intacta. Mas se quiser, seus dois dias de descanso semanal estão garantidos.
É isso que significa ter um direito.
Hoje, milhões de brasileiros trabalham seis dias para descansar apenas um, sem a possibilidade de escolher uma jornada menor mantendo o mesmo salário. Eles não são livres para isso. Com a escala 5×2, essa liberdade vai acontecer.
Quem quiser trabalhar apenas cinco dias terá seu salário preservado. Quem optar por trabalhar além da jornada normal poderá ganhar mais, com o pagamento das horas extras previstas na legislação ou o exercício de outras atividades remuneradas.
A liberdade que já deu certo
Essa combinação entre direito ao descanso e liberdade para ir atrás de uma renda adicional já existe em diferentes países.
Na França, a jornada legal é de 35 horas semanais desde 2000. Isso não impede que trabalhadores façam horas extras, remuneradas com adicionais previstos em lei.
Na Espanha, a jornada ordinária é de até 40 horas semanais, em média anual, e as horas extras são, em regra, voluntárias, podendo ser pagas ou compensadas com descanso. Nos dois países, a legislação estabelece uma jornada normal, mas permite trabalho adicional dentro de limites legais.
Isso sim é liberdade.
O Chile oferece um exemplo ainda mais próximo da realidade brasileira. O país aprovou a redução gradual da jornada de 45 para 40 horas semanais, sem diminuição dos salários, com conclusão prevista para 2028. A mudança também permite reorganizar os dias de trabalho e preservar a possibilidade de horas extras remuneradas.
Uma reportagem do jornal chileno Diario Financiero mostra como trabalhadores fazem escolhas diferentes. Miguel, professor e treinador, aproveita o tempo disponível para trabalhar também como personal trainer e complementar sua renda.
Já Claudia Gatica, apresentada em reportagem do El País, valoriza a jornada reduzida porque passou a ter mais tempo para acompanhar o filho na escola e participar de sua educação.
Um utiliza parte do tempo para ganhar mais; a outra prioriza a convivência familiar. Cada um tem a liberdade para fazer a sua escolha: Claudia não pode ser obrigada a trabalhar mais, ganhando a mesma coisa, e abandonar a convivência com seu filho, enquanto Miguel não é proibido de usar seu tempo livre para trabalhar mais e aumentar a sua renda. Ambas as escolhas estão protegidas pela legislação.
O retrocesso é uma possibilidade real
O Chile também mostra que a conquista de um direito trabalhista não significa que ele esteja garantido para sempre. A redução da jornada de 45 para 40 horas semanais, aprovada em 2023 pelo governo de Gabriel Boric, passou a enfrentar propostas de flexibilização após a eleição do presidente José Antonio Kast, que assumiu em março de 2026, da mesma linha política de Flavio Bolsonaro.
O novo governo já anunciou a intenção de modificar regras de distribuição e cálculo das horas trabalhadas, o que pode reduzir a previsibilidade do descanso dos trabalhadores. Embora Kast afirme que manterá a redução para 40 horas até 2028, as mudanças propostas acendem um sinal de alerta: mesmo sem revogar formalmente uma conquista trabalhista, um governo pode alterar as regras de sua aplicação e enfraquecer, na prática, as garantias de descanso.
E quem perde, claro, é o trabalhador.
O risco é que direitos conquistados na lei sejam gradualmente esvaziados por mudanças que parecem apenas técnicas, insignificantes, mas podem ter consequências profundas na vida dos trabalhadores.
Liberdade com segurança garantida
É justamente essa a principal mudança proposta pelo fim da escala 6×1 no Brasil: o trabalhador passa a ter garantido o direito de descansar mais sem ganhar menos, mas continua podendo aumentar sua renda se optar por trabalhar horas adicionais, devidamente remuneradas.
A liberdade de escolha, porém, precisa vir acompanhada de proteção: horas extras devem ser voluntárias quando assim previsto na lei, pagas corretamente e respeitar os períodos mínimos obrigatórios de descanso.
O fim da escala 6×1 não tira do trabalhador a liberdade de trabalhar mais. Garante algo que hoje muitos não têm: o direito de trabalhar menos sem perder salário. E, se decidir trabalhar mais, receber mais por isso.
A armadilha de Flávio Bolsonaro

Na contramão dessa proposta, Flávio Bolsonaro defende um modelo que também utiliza o discurso da liberdade, mas sem garantir o mesmo direito a dois dias de descanso semanal com salário preservado. Sua alternativa prevê contratos com jornadas flexíveis e pagamento proporcional às horas trabalhadas, dando maior peso à negociação individual entre patrões e empregados.
Pela proposta alternativa apresentada pelo seu partido, que já foi apropriadamente chamada de PEC DA ESCRAVIDÃO, o trabalhador poderia trabalhar até 16 horas por dia, 7 dias por semana, flexibilizando garantias como o salário mínimo, por exemplo, sem garantir que seria melhor remunerado por isso.
O problema é que essa relação não acontece em condições de igualdade. Quem depende do salário para pagar as contas dificilmente tem a mesma liberdade de negociação de quem oferece o emprego. Sem a garantia de uma jornada reduzida com remuneração preservada, o trabalhador pode acabar tendo de escolher entre descansar mais e ganhar menos.
Essa preocupação ganha ainda mais importância diante de propostas de flexibilização dos direitos trabalhistas e de mudanças nas políticas de proteção social.
A equipe de Flávio Bolsonaro também estuda alterações nas regras de reajuste de benefícios previdenciários e assistenciais, enquanto seu programa defende contratos de trabalho com menores custos para as empresas.
Embora seus defensores argumentem que essas medidas poderiam estimular contratações, há o risco de transferir mais insegurança econômica para os trabalhadores. Nesse cenário, a chamada liberdade de escolha pode se transformar em uma liberdade apenas no papel: o empregado negocia pressionado pela necessidade, enquanto o empregador dispõe de maior poder para definir as condições de trabalho.